quarta-feira, 29 de julho de 2009

Cochat Osório


Pretos e brancos vão na mesma pista.


Alguns até conversam e discutem,
porque o trabalho e o pão não são racistas.

Cochat Osório


Desenho de Neves de Sousa

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Há três espécies de Portugal


três espécies de Portugal, dentro do mesmo Portugal;

três espécies de Portugal, dentro do mesmo Portugal; ou, se se preferir, há três espécies de português. Um começou com a nacionalidade: é o português típico, que forma o fundo da nação e o da sua expansão numérica, trabalhando obscura e modestamente em Portugal e por toda a parte de todas as partes do Mundo. Este português encontra-se, desde 1578, divorciado de todos os governos e abandonado por todos. Existe porque existe, e é por isso que a nação existe também.

Outro é o português que o não é. Começou com a invasão mental estrangeira, que data, com verdade possível, do tempo do Marquês de Pombal. Esta invasão agravou-se com o Constitucionalismo, e tornou-se completa com a República. Este português (que é o que forma grande parte das classes médias superiores, certa parte do povo, e quase toda a gente das classes dirigentes) é o que governa o país. Está completamente divorciado do país que governa. É, por sua vontade, parisiense e moderno. Contra sua vontade, é estúpido.

um terceiro português, que começou a existir quando Portugal, por alturas de El-Rei D. Dinis, começou, de Nação, a esboçar-se Império. Esse português fez as Descobertas, criou a civilização transoceânica moderna, e depois foi-se embora. Foi-se embora em Alcácer Quibir, mas deixou alguns parentes, que têm estado sempre, e continuam estando, à espera dele. Como o último verdadeiro Rei de Portugal foi aquele D. Sebastião que caiu em Alcácer Quibir, e presumivelmente ali morreu, é no símbolo do regresso de El-Rei D. Sebastião que os portugueses da saudade imperial projectam a sua de que a famí1ia se não extinguisse.

Estes três tipos do português têm uma mentalidade comum, pois são todos portugueses mas o uso que fazem dessa mentalidade diferencia-os entre si. O português, no seu fundo psíquico, define-se, com razoável aproximação, por três característicos: (1) o predomínio da imaginação sobre a inteligência; (2) o predomínio da emoção sobre a paixão; (3) a adaptabilidade instintiva. Pelo primeiro característico distingue-se, por contraste, do ego antigo, com quem se parece muito na rapidez da adaptação e na consequente inconstância e mobilidade. Pelo segundo característico distingue-se, por contraste, do espanhol médio, com quem se parece na intensidade e tipo do sentimento. Pelo terceiro distingue-se do alemão médio; parece-se com ele na adaptabilidade, mas a do alemão é racional e firme, a do português instintiva e instável.

A cada um destes tipos de português corresponde um tipo de literatura.

O português do primeiro tipo é exactamente isto, pois é ele o português normal e típico. O português do tipo oficial é a mesma coisa com água; a imaginação continuará a predominar sobre a inteligência, mas não existe; a emoção continua a predominar sobre a paixão, mas não tem força para predominar sobre coisa nenhuma; a adaptabilidade mantém-se, mas é puramente superficial — de assimilador, o português, neste caso, torna-se simplesmente mimético.

O português do tipo imperial absorve a inteligência com a imaginação — a imaginação é tão forte que, por assim dizer, integra a inteligência em si, formando uma espécie de nova qualidade mental. Daí os Descobrimentos, que são um emprego intelectual, até prático, da imaginação. Daí a falta de grande literatura nesse tempo (pois Camões, conquanto grande, não está, nas letras, à altura em que estão nos feitos o Infante D. Henrique e o imperador Afonso de Albuquerque, criadores respectivamente do mundo moderno e do imperialismo moderno) (?). E esta nova espécie de mentalidade influi nas outras duas qualidades mentais do português: por influência dela a adaptabilidade torna-se activa, em vez de passiva, e o que era habilidade para fazer tudo torna-se habilidade para ser tudo.

s.d.

Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Portugal

l

PORTUGAL

Os novos donos tropeçam nos antigos

enchem os grémios as igrejas as

p

a

n

ç

a

s

coçam pudicamente as partes da vergonha

trocam galhardetes

salamaleques

tintas

pluralistas

pálidos ainda ontem ei-los agora inchados

heróis autocondecorados da coisa pública

não tiram o olho da privada

a meteorologia é-lhes favorável por enquanto

mas temem os tremores

da terra

em nome da vida (curta)

soletram a história sono lenta

disse Pessoa

A Europa jaz, posta nos cotovelos.

O rosto com que fita é Portugal.

os novos donos velhos

estão com a Europa deles que está com eles

mas viram pessoas (e coisas) do avesso

onde se via «rosto» su/põem eles «traseiros»

e divertidos com a fita

a

lá vão c ntando evacuando

o

patrioticamente

até Portugal ser «de novo» um país de

h

c a c a

h

Arnaldo Saraiva

terça-feira, 7 de julho de 2009

Raduan Nassar

26


Meu pai sempre dizia que o sofrimento melhora o homem, desenvolvendo seu espírito e aprimorando sua sensibilidade; ele dava a entender que quanto maior fosse a dor tanto ainda o sofrimento cumpria sua função mais nobre; ele parecia acreditar que a resistência de um homem era inesgotável. Do meu lado, aprendi bem cedo que é difícil determinar onde acaba nossa resistência, e também muito cedo aprendi a ver nela o traço mais forte do homem; mas eu achava que, se da corda de um alaúde --- esticada até o limite --- se podia tirar uma nota afinadíssima (supondo-se que não fosse mais que um arranhado melancólico e estridente), ninguém contudo conseguiria nota alguma se a mesma fosse distendida até o rompimento. Era isso mesmo que eu estava pensando até a noite do meu retorno, sem jamais ter suspeitado antes que se pudesse, de uma corda partida, arrancar ainda uma nota diferente (o que vinha confirmar a possível crença de meu pai de que um homem, mesmo quebrado, não perdeu ainda sua resistência, embora nada provasse que continuava ganhando em sensibilidade).

InLavoura arcaica” de Raduan Nassar

Este excelente livro pode ser descarregado em

http://www.scribd.com/doc/7233416/Raduan-Nassar-Lavoura-Arcaica

sábado, 4 de julho de 2009

Dom Torricado

Dom Torricado


A tão humilde comida de trabalho, torna-se em manjar de convívio e lazer.

O plebeu Torricado conquista a pulso os mais apetecidos títulos de nobreza gastronómica. Requintados livros de culinária conferem-lhe espaço de relevo; conceituadas galas de gastronomia honram-no concedendo-lhe lugar de destaque.

E o pobre, com a modéstia de que os grandes são capazes, mantém-se fiel a si mesmo.

Simples e Bom!

Uma Festa Para Os Sentidos

UM SABOR

RIBATEJANO

PÃO

AZEITE

ALHO

SAL

BACALHAU

sardinha

fataça

entrecosto

azeitonas

toucinho

laranja

Dedicar aos alimentos os cuidados convenientes à sua preparação, manter-se atento e intervir em tempo oportuno, determinará a diferença entre o fazer comida e cozinhar.

Assim sendo, nãopratos menores.


O PÃO

No torricado é o pão que determina a obra final, quem o não souber escolher e com ele lidar, tem meia batalha perdida.

O casqueiro de trigo de mistura, ou de milho, será pelo menos do dia anterior, não muito cozido, de côdea regular e sem roturas para não deixar verter o azeite.

Uma vez a escolha feita, inicia-se o ritual.

O pão é cortado ao meio no sentido do comprimento e paralelo à base.

Toma-se cada metade, e com uma navalha bem afiada golpeia-se o miolo na vertical, desenhando losangos sem ferir a côdea.

Prepara-se com vides, se possível, um brasido que se deseja regular e brando de modo a não queimar ou secar o miolo do pão.

Sobre o lume assim criteriosamente preparado, coloca-se o pão a torriscar, primeiro o miolo até ficar corado e consistente, e as regueirinhas por acção do fogo começarem a “rir-se” ou a “abrir a boca para que lhe cheguem o azeite”, como é uso dizer-se. À côdea dá-se igual tratamento até ficar estaladiça.

Tudo está em ordem para receber os temperos.

O miolo e a côdea, assim torrados e consistentes, esfregam-se com um ou dois dentes de alho, espalhando de seguida pelo miolo alourado, algumas pedras de sal grosso.

Por fim, amacia-se a côdea tostada untando-a de azeite, e o miolo sequioso rega-se copiosamente com a mesma gordura, regressando ao lume até o azeite ferver. E quando por acção do calor começar a “chiar”, cada uma destas metades adquire nome próprio: “cosquilha”. E está pronta a servir.

Por tradição ou por gosto, há também quem prefira, em vez do azeite, barrar o pão depois de torrado com toucinho cru ou derretido, antes de voltar ao braseiro.

O torricado, para se manter macio e apetitoso, deve servir-se bem quente. É comida de almoço; e como dejejum, nas manhãs frias de Outono e Inverno, a cosquilha também tem os seus apreciadores, quando acompanhada de café.

E porque a imaginação é fértil, a “cosquilha”, servida ao café, além de todos os outros condimentos, pode barrar-se com laranja.

azeitona

Fiel nos bons e maus momentos, a azeitona nova, agreste ainda, emparceira com o torricado, de quem é companheira inseparável.

bacalhau

Após o teste a que foi submetido com a cosquilha, não permita que baixem de nível os seus méritos como assador. Frente a lume esperto, encoraje o fiel amigo, deixando-o brando e apetecível.

Uma vez grelhado, o bacalhau é desfiado e temperado de azeite, vinagre e alho, servindo-o sobre a cosquilha ou numa travessa.

sardinha

A sardinha, assada com os cuidados devidos a tão leal companheira, deite-a sobre a cosquilha sem a deixar arrefecer.

fataça

A fataça e a cosquilha (o Tejo e a Lezíria) vivem paredes-meias. Natural tem sido a salutar convivência destes bons amigos quando bem grelhados.

entrecosto

com umas pedrinhas de sal grosso ou previamente temperado de vinha-d’alhos - fica a seu gosto - o entrecosto bem grelhado num brasido vivo faz jus à cosquilha que o espera.