quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

O TEMOR E O ORGULHO - Ambrose Bierce



O TEMOR E O ORGULHO
- Bom-dia, amigo – disse o Temor ao Orgulhoentão que tal se sente esta manhã?
- Muito cansado – respondeu o Orgulho, sentando-se à beira da estrada, e enxugando a testa coberta de suor. – Os políticos extenuam-me, à força de se servirem de mim para exporem as suas ignóbeis acusações, quando podiam, muito bem, recorrer a um cacete.

E o Temor respondeu, soltando um suspiro de simpatia:

- Pois eu estou numa situação bastante igual à sua. Em vez de utilizarem uns binóculos, é por meu intermédio que observam os actos dos seus adversários.

E iam os dois resignados escravos juntar as lágrimas, quando lhes chegou ordem de retomarem o serviço, porque um dos partidos políticos acabava de eleger um gatuno para seu chefe, e preparava-se para celebrar uma reunião comemorativa do acontecimento.
 Ambrose Bierce


(de Fábulas Fantásticas,
 tradução de João da Fonseca Amaral,
 editorial Estampa, 1971)

domingo, 13 de janeiro de 2013

AQUI - Armando Silva Carvalho

AQUI

Aqui o inferno mata as profissões 
Que têm acesso ao ar.
Diz-se que deus se absteve 
De criar servidores para os condenados 
Ao tédio. 
 
Morre-se no emprego 
Com a garganta apertada por uma mão 
Sem ossos. 
 
Aqui os anos crescem pouco ou nada. 
Os dias e dias secam na raiz. 
Nãohoras felizes. 
 
O sol sempre se deu bem com gente como esta 
Que salpica de chuva os seus pequenos 
Afazeres 
Para ficar em casa. 
 
Gente com plenos poderes 
Para desmanchar a festa que se alonga 
Para  da cabeça. 
 
Diz um: eu sou o sábio de domingo. 
Agora não me ocupo de dias úteis, de remendos d’alma, 
De fragilidades. 
Esperem por mim mas  depois 
Da missa. 
 
Diz outro: a ética é grega de nascença 
Movemo-nos por números,  sentenciava Pitágoras. 
Não cunhamos moeda, não sujamos as mãos 
Nos improvisados remos do naufrágio. 
O nosso destino é perguntar. 
 
Parece que deus quis que não nascesse a obra. 
Nascer que nasça o sol 
E é bastante. 
Quem pergunta ao sonho pelo homem 
De serviço? 
 
Nos campos vicejam novamente as urtigas 
São restauros agrícolas, 
Exemplos a seguir, ordens vindas de cima, 
Ao ouvido, 
Na sala dos banquetes. 
 
O mar faz de cão velho e deixa-se ficar 
À espera no patamar dos mitos. 
Ninguém o suporta 
Nem ao seu uivar aos pés 
Da história. 
 
Comovidos estamos, com um não sei quê, 
Um quanto, um como, uma dor 
Que levanta asas 
E vai do vale à montanha 
Como vão os monges cavaleiros 
À televisão. 
 
Aqui a cidade abre-se para  da noite 
E é sempre belo ver a madrugada 
A chorar os seus ídolos. 
 
Aqui os que têm coração 
Têm desconto. 
Armando Silva Carvalho

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

O saque - Daniel de Sousa



O saque
podemos dizer dos muros que foram derrubados
porque não os vemos?
ou porque tu e eu os ignoramos ?
ou porque simplesmente não existem?
ou porque não os desejamos
no
silêncio das nossas omissões e cobardias?
a
nossa força não provém da opressão
mas da liberdade
as
verdades mudam com as fomes
ou as pragas
ou as mentiras
ou as feridas
ou as violações
(as próprias
guerras nada mudam para além das mentiras)
vivemos rodeados de quotidianas
verdades
mas a verdade
a
derradeira verdade
é a
que te liberta
e
que te consome
totalmente
Daniel de Sousa

domingo, 6 de janeiro de 2013

PAÍS DE SONOLÊNCIA - Georges Haldas



PAÍS DE SONOLÊNCIA

É o corpo mutilado.

Eis o pesado país

da indolência, ó Suiça,

sob as actividades.

País de sonolência

esmagado pela beleza.

Ó meu país mais belo

que os países sonhados.

País como um zero

de solidão, vivemos

nós próprios como zeros.

Pesado país de impotência

e de gelo e país

de sofrimento mortal

onde nada, jamais, é dito.

País onde a palavra

se abate e se destrói.

País de mil gritos

sobre um fundo de silêncio

absolutamente maldito.

País onde tudo se compõe,

onde nada nos une.

Georges Haldas

(Corps Mutilé: Lausanne, 1962)

PAYS DE SOMNOLENCE

C’est le corps mutilé.
Voici le lourd pays
de l’indolence, ô Suisse,
sous les activités.
Pays de somnolence
écrasé de beauté.
Ô mon pays plus beau
que les pays rêvés.
 Pays comme un zéro
de solitude, on vit
comme un zéro soi-même.
Lourd pays d’impuissance
et de gel et pays
de souffrance mortelle
où rien, jamais, n’est dit.
Pays où la parole
s’enlise et se détruit.
Pays de mille cris
sur un fond de silence
absolument maudit.
Pays où tout s’arrange
où rien ne nous unit.

Georges Haldas