domingo, 10 de julho de 2016

FREUD e os POETAS

FREUD e os POETAS

Os poetas são aliados muito valiosos, cujo testemunho deve ser levado em grande conta, pois costumam conhecer toda uma vasta gama de coisas entre o céu e a terra com as quais o nosso saber escolar ainda não nos permitiu sonhar. Estão bem à nossa frente, gente comum, no conhecimento da psique, já que trabalham em fontes que ainda não tornámos acessíveis à ciência.

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sábado, 9 de julho de 2016

HERANÇA - Raul Bopp



HERANÇA

Vamos brincar de Brasil?
Mas sou eu quem manda
Quero morar numa casa grande
Começou desse jeito a nossa história
Negro fez papel de sombra
E foram chegando soldados e frades
Trouxeram as leis e os Dez Mandamentos
Jabuti perguntou:
“— Ora é só isso?”
Depois vieram as mulheres do próximo
Vieram imigrantes com alma a retalho
Brasil subiu até o 10.º andar
Litoral riu com os motores
Subúrbio confraternizou com a cidade
Negro coçou piano e fez música
Vira-bosta mudou de vida
Maitacas se instalaram no alto dos galhos
No interior
o Brasil continua desconfiado
A serra morde as carretas
Povo puxa bendito pra vir chuva
Nas estradas vazias
Cruzes sem nome marcam casos de morte
As vinganças continuam
Famílias se entredevoram nas tocaias
Há noites de reza e cata-piolho
Nas bandas do cemitério
Cachorro magro sem dono uiva sozinho
De vez em quando
a Mula-sem-cabeça sobe a serra
ver o Brasil como vai.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Canção dos que vivem das suas mãos - Jesús LópezPacheco

Canção dos que vivem das suas mãos

Não peço o de ninguém.
Apenas o meu pão,
meu ar.

Apenas a flor,
o fruto do que fazem minhas mãos.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

A Hora das Gaivotas - João Monge



Poema (magistralmente) lido pela actriz Maria João Luís na recriação da fuga de 3 de Janeiro de 1960, realizada junto ao Forte de Peniche.

A Hora das Gaivotas

Em todas as casas há um coração suspenso
e uma janela sobre o mar
As crianças recolheram a casa
e o mar, sempre o mar, estende as longas crinas
de cavalo azul nas paredes de pedra
É noite
É a espada líquida da noite
Chicharro com pão dormido, camarada
pão dormido
As gaivotas ensaiam o voo tresloucado
dos papagaios de papel
Parecem ter medo de poisar,
de dar descanso ao seu coração suspenso:
O medo de calar por dentro
– … e rabanadas com três dias
Tudo nos serve para medir o tempo
Eles não sonham
É a mais líquida de todas as noites
Nada se conforma no seu próprio destino:
As casas,
O mar,
As gaivotas,
Os homens…
Tudo parece convergir para o ninho inevitável
onde todas as coisas regressam à sua razão de ser:
A Liberdade
(A Patética de Tchaikovsky escorre de um velho gira-discos para as paredes do
refeitório)
É tão louco este mundo, camarada
1893, 1893. O ano da Patética, o ano do Grito de Edvard Munch
O maior grito da humanidade
O inexplicável grito de todos nós
Em todas as casas há um coração suspenso
e uma janela sobre o mar
As crianças recolheram a casa
e, protegidas pelos pais,
adivinham por detrás das cortinas
um sinal que dê sentido a tudo
Ninguém sabe o que espera
mas toda a gente espera em silêncio
É como se a terra soubesse
que há dias em que o mundo tem de ser redondo
3 de Janeiro de 1960
Às sete em ponto da tarde
Adágio–Allegro non troppo
Nada me passa na garganta, só um grito mudo…
A estrada ainda está deserta, nem uma luz…
Mas ele há-de vir!
Somos 10, estamos contados
Contemo-nos de novo:
Álvaro,
Jaime,
Joaquim,
Carlos,
Francisco,
José,
Guilherme,
Pedro,
Rogério,
Francisco.
E eu, e tu, e quem atrás de nós vier
E todos os que hão-de nascer
Com uma côdea no céu-da-boca
É por isso que o mar espalha a sua toalha bordada
na praia, aos nossos pés
para, da sua eterna sabedoria, nos prendar com a nossa igualdade
Allegro com grazia
Pai, olha aquele carro, olha aquele carro
Apaga a luz, apaga a luz…
Vem com a mala aberta, devagarinho, devagarinho…
Vem do lado das docas…
Pai, repara, as gaivotas pousaram todas…
– … e parou em frente ao forte
É a hora das gaivotas
É a hora das gaivotas
O homem está a sair do carro, pai…
Sim. Vai fechar a mala, certamente…
Olha, as gaivotas, com o som da mala a fechar, levantaram voo novamente
São misteriosas as campainhas do destino
Allegro molto vivace
Em todas as casas há um coração suspenso
pelo medo e pela saudade
e uma boca amarrada às paredes cegas
Francisco, rasga esses lençóis
que nos fizeram para sudários.
Todas as palavras são medidas
como as sardinhas
e quase nunca é domingo
Vá, tu sabes dar os nós de pescador
Une as tiras e dá-lhes um nó no meio
para que as mãos encontrem mais firmeza
A terrina ocupa o centro da mesa
as crianças são servidas primeiro
Apenas o tilintar das colheres
abre feridas no silêncio das casas
E as côdeas de pão dormido
quando estalam no céu-da-boca
Somos 10, estamos contados
A corda tem de servir 10 vezes, camarada
O jantar é em silêncio
Mas quando o cavalo azul galopa pelas muralhas
ouve-se a sua pulsação
a estalar o coração das gentes
Pai, posso ir à janela?
O carro já se foi embora. Não há nada para ver. Acaba a sopa
Há, pai! As gaivotas não se calam
E as ondas batem sem conta certa
Deixa-me apagar a luz…
Pai, passaram dois carros grandes mesmo agora. Um seguiu em frente e o
outro está parado à porta da vizinha com as luzes apagadas
Esperam alguém. É gente de bem
Finale — Adagio lamentoso
Não olhes para baixo, camarada
E o mar, sempre o mar, estende as longas crinas
de cavalo azul nas paredes de pedra
Pai, há uma corda a baloiçar na parede do forte…
Em todas as casas há um coração suspenso
e um lugar vazio à mesa
Isso, conta os nós… tu sabes a conta certa
Não olhes para baixo
Pai, o homem pôs o carro a trabalhar…
Os gritos das gaivotas cobrem com um véu de tule
os ruídos dos ossos contra as pedras
É a natureza do lado certo
Pai, outro homem… e outro… e outro…
É o medo contaminado pela esperança
e a espada líquida da noite virada de feição
Pai, ajuda-me… não entendo, não entendo…
É a hora das gaivotas, meu amor!