terça-feira, 4 de julho de 2017

Hás de saber morrer pelos homens - Nazim Hikmet


«Hás de saber morrer pelos homens.
E além disso por homens que se calhar nunca viste,
E além disso sem que ninguém te obrigue a fazê-lo,
E além disso sabendo que a coisa mais real e bela é
Viver.»


segunda-feira, 3 de julho de 2017

AD PETENDAM PACEM - Paulo Quintela

AD PETENDAM PACEM

Trapos chagados em pés de peregrinos
trôpegos e contusos;
vendas nos olhos baços e bovinos
e nos espíritos obtusos –

Paz pra lamber as feridas
do arrocho e da fome;
paz para as crostas, para o fedor que nos come
nas cabanas infectas e nas ruas compridas;
paz que nos livre de todo o mal;
paz na paciência pétrea, medieval –

Paz podre, paz divina;
paz e paciência sobre-humana,
desumana,
asinina.

8/9-V-67 Vértice nº 406-407

CÂNTICO - Manoel de Andrade

CÂNTICO

Eu cantei tantas vezes essa aurora ainda por vir
e saudei comovido o reencontro da bravura.

Quem dera que essa estrela na lapela dos sobreviventes
seja o sol que entreabre a madrugada
e que essa luz não se apague pelas sombras insinuantes do poder
para que não seja abortado esse parto da esperança.
Quem dera que aqueles que agora hasteiam o estandarte da conquista
construam para este povo a morada da justiça
e anunciem ainda um dia a véspera de um perene amanhecer.
Quem dera ver enfim a grande primavera
e o chão da pátria por inteiro semeado
qual útero e celeiro da real fraternidade.

Saúdo os que sobreviveram
na amarga história de um tempo aprisionado.
Na lembrança e na saudade de um bando de pássaros que arribaram
e pousaram nos nostálgicos territórios da distância.
Saúdo os sobreviventes de tantas lutas abortadas
de tantas trincheiras abertas pela fé de uma bandeira.
Companheiro, meu irmão, meu camarada…
na vida e na morte,
na intenção do bom combate
e no imortal sacrário da poesia,
brindo teu nome com a taça do lirismo
e te ofereço o sabor rebelde dos meus versos
para saudar-te na memória imperecível dos caídos
e com a paz da utopia que buscamos.

Curitiba, Junho de 2003

Este poema consta do livro CANTARES, editado por Escrituras.

domingo, 2 de julho de 2017

PANFLETÁRIO - Jorge Barbosa

PANFLETÁRIO
ao poeta José Bizarro

Era para eu
ser panfletário.

Os meus escritos
teriam a verrina
as iras
o rubro
grito da revolta!

Era para eu
ser panfletário.

Combateria
            os tiranos
            os arbitrários
            os agiotas
            os exploradores da miséria
            e do trabalho dos pobres
            os homens poderosos
            e os seus mandatários
            e bajuladores
            e as leis que os protegem.

Era para eu
ser panfletário.

Teria o porte
audaz e altivo
e belo
de um guerreiro.
Levaria nos olhos
a chama e os sonhos
no sorriso um ar
amargo e triste
a cabeça ao léu
impávida erguida
e a cabeleira ao sol
ao vento
e ao frio nocturno
dos secretos e longos
caminhos da fuga.

Era para eu
ser panfletário.

Ao passar pelas ruas
das vilas rurais
então se fechariam
as portas para mim.
Talvez pelo exíguo
espaço de alguma
janela entreaberta
os pais me apontassem
aos filhos tementes
e lhes segredassem
— o panfletário!

Era para eu
ser panfletário.
Escreveria
            panfletos
            sátiras
            libelos
seria
            o inimigo
            o subversivo
            o foragido
            o perseguido
            o réprobro
conheceria
            tribunais
            esconderijos
            cárceres
sentiria
            a fome e o cansaço
            teria no corpo
            a tatuagem marcada
            das torturas policiais.

Era para eu
ser panfletário.

O magnífico
e heróico destino
que eu imaginava
tão liricamente
ser o meu
venceram-no
a prudência
o temor
a família
venceu-o
este meu outro
real
e melancólico
destino burocrático...

Era para eu
ser panfletário.

Não o fui
e ainda me dói
o desejo de o ser...

Mas agora
com o resíduo do tempo
tingindo de branco
os meus cabelos
gotejando
doloroso
nos meus ossos
é tarde demais
para a magnífica aventura...

Era para eu
ser panfletário.


Grândola Vila Morena pelos "Os Dona Zéfinha"


A voz destes jovens!...
Grândola Vila Morena
 

Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade

Dentro de ti, ó cidade
O povo é quem mais ordena
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena

Em cada esquina, um amigo
Em cada rosto, igualdade
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade

Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada rosto, igualdade
O povo é quem mais ordena

À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
Jurei ter por companheira
Grândola, a tua vontade

Grândola a tua vontade
Jurei ter por companheira
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade

Zeca Afonso

sábado, 1 de julho de 2017

SE...? - Arménio Vieira



SE...?

Se não houvesse
mar, nem vento,
nem flor, nem planta,
nem lar, nem gente?

E tudo o que é
deixasse de ser:
o dia e a noite,
o macho e a fêmea,
a dor e o gozo.

E as estrelas fossem
palavras sem nexo
e o tempo vazio
de vozes e gritos


Haveria Deus,
sem mais,
amando coisa nenhuma,
para si mesmo
sábio e santo.

Sonhador solitário,
sonhando que sonho?
Sem mundo, só Ele,
redondo como um zero.
Arménio Vieira
p. 119)