sexta-feira, 17 de junho de 2011

José Saramgo 1922 / 2010


16/11/1922 -- 18/06/2010

DEMISSÃO

Este mundo não presta, venha outro.

Já por tempo de mais aqui andamos

A fingir de razões suficientes.

Sejamos cães do cão: sabemos tudo

De morder os mais fracos, se mandamos,

E de lamber as mãos, se dependentes.

* * *

«Pois o tempo não pára…»

Pois o tempo não pára, nem importa

Que vividos os dias aproximem

O copo de água amarga colocado

Onde a sede da vida se exaspera.

Não contemos os dias que passaram:

Hoje foi que nascemos. Só agora

A vida começou, e, longe ainda,

Pode a morte cansar à nossa espera.

* * *

OPÇÃO

Antes arder ao vento como archote

Num deserto de sombras e de medos,

Que ser a dócil rima do teu mote,

Um morrão de cigarro nos teus dedos.

José Saramago

«Os Poemas Possíveis»

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