O papagaio não tem passaporte
I
O menino do Cairo com um baraço,
descalço sobre o telhado escaldante,
aprendendo a difícil gramática do vento:
como não puxar quando o céu dizia cede,
como não ceder quando o céu dizia sustém.
O papagaio custa menos do que um livro:
duas varinhas, papel fino, cola e um cordel;
mas quando se elevava sobre os cabos,
os tanques da água e a roupa estendida,
o menino por momentos respirava de alívio.
Em baixo, a cidade suava.
Os autocarros fremiam pela avenida.
Os corvos brigavam nos beirados.
As mães chamavam-nos para comer.
Eles negociavam com o céu.
Papagaios girando, caindo, revoando,
fios que se cruzavam como argumentos.
Às vezes, um soltava-se
e todos gritavam enquanto se afastava navegando,
e logo corriam através de becos e mercados,
entre bicicletas e homens adormecidos frente às lojas,
porque um papagaio sem fio
pertenceria a quem conseguisse apanhar primeiro a liberdade.
II
O céu de Gaza tem outra gramática:
dron, míssil, helicóptero, fumo;
onde até um pedaço de papel levado pelo vento
pode entrar no vocabulário da guerra.
Israel teme os papagaios.
Imaginemos o poder que isto revela:
um Estado com aviões, tanques, satélites,
muros, torres de vigilância, armas e algoritmos,
ao olhar o papel lançado por uma criança
vê um inimigo.
O papagaio não tem passaporte.
Não reconhece postos de controle.
No muro está escrito que pare
e o papagaio, que não sabe ler, continua.
O papagaio passa sobre os escombros,
sobre a terra cercada e medida,
sobre as matemáticas da vida permitida,
sem levar nada que possa ser registado
salvo o velho contrabando do ar.
Os generais classificam as nuvens.
Os coronéis põem o vento sob custódia.
Os capitães interrogam o fio.
Um menino palestino segura o baraço.
Enquanto a mão não vacile,
enquanto o papel volte a aterrar,
enquanto os apavorados olharem para cima,
o céu não será ocupado
por completo.
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