quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Liberdade querida e suspirada - Manuel Maria Barbosa du Bocage

Liberdade querida e suspirada

Liberdade querida e suspirada,
Que o Despotismo acérrimo condena;
Liberdade, a meus olhos mais serena,
Que o sereno clarão da madrugada!

Atende à minha voz, que geme e brada
Por ver-te, por gozar-te a face amena;
Liberdade gentil, desterra a pena
Em que esta alma infeliz jaz sepultada;

Vem, oh deusa imortal, vem, maravilha,
Vem, oh consolação da humanidade,
Cujo semblante mais que os astros brilha;

Vem, solta-me o grilhão da adversidade;
Dos céus descende, pois dos Céus és filha,
Mãe dos prazeres, doce Liberdade!



Manuel Maria Barbosa du Bocage


sábado, 16 de agosto de 2014

IX - Ladrões - Almeida Faria

Guia para candidatos aos infernos

 IX - Ladrões

O interdito é o que mais atrai quem como nós nasceu
Sem timidez, sem pejo, e de ágeis dedos.
Não nos envergonhamos de fazer mão baixa
Em mulheres de amigos, em homens casados,
Em pedras preciosas, em jóias e antiguidades,
Em baixelas de ouro ou prata, em tecnologia informática.
Imaginamos fechaduras por abrir como outros imaginam
Virgens perversas e miraculosamente disponíveis.
Deliramos diante de portas fechadas, de cofres por arrombar,
De golpadas que o vulgo considera impensáveis.
Dizem que os nossos dons especiais nos deformaram,
Mas orgulhamo-nos do nosso destemor, o que não é pouco.
Mestres ou meros aprendizes da arte de furtar e desfrutar
Sem ser caçados, estamos bem preparados para entrar
Nos tortuosos labirintos infernais, cheios de falsas escadas
Que não levam a nada, de janelas que ninguém abrirá,
De ilusórias saídas que um de nós acabará por encontrar.
Almeida Faria


sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Mordaça - Sebastião da Gama


Mordaça

Puseram-lhe na boca uma mordaça…

Mas o Poeta era Poeta
E tinha que falar.

Fez um esforço enorme,
puxou a voz como quem golfa sangue
e a mordaça soltou-se-lhe da boca.

Porém, não era já mordaça:

Agora,
era um poema a queimar
os ouvidos das turbas inimigas
que, na praça,
o tinham querido calar


Sebastião da Gama
in Itinerário

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Sim, Camarada - Pablo Neruda

Sim, Camarada, é hora de jardim
E é hora de batalha, cada dia
É sucessão de flor e sangue,
Nosso tempo nos entregou amarrados
A regar jasmins
Ou a dessangrar-nos numa rua escura,
A virtude ou a dor se repartiram
Em zonas frias, em mordentes brasas,
E não havia outra coisa que eleger,
Os caminhos do céu,
Antes tão transitados pelos santos,
Estão hoje povoados por especialistas.

Já desapareceram os cavalos.

Os heróis vestidos de batráquios,
Os espelhos vivem vazios
Porque a festa é sempre em outra parte,
Onde já não estamos convidados
E há brigas nas portas.


Por isso este é o penúltimo chamado,
O décimo sincero toque
Do meu sino,
Ao jardim, camarada, à açucena,
À macieira, ao cravo intransigente,
À fragrância da flor de laranjeira,
E logo aos deveres da guerra.

Delgada é nossa pátria
E em seu despido fio de faca
Arde nossa bandeira delicada.

Pablo Neruda


terça-feira, 12 de agosto de 2014

RECADO AOS APRESSADOS - Isabel Rauber

RECADO AOS APRESSADOS

“Não existe um todo predeterminado final, a que tenhamos de “chegar”, nem um tempo e um caminho já fixados para isso; vai sendo delineado entre os diversos actores populares com a sua participação, os seus ritmos e os seus tempos. O todo é sempre as partes, está latente em cada uma delas e existe nos modos concretos da sua articulação em cada momento.”
Isabel Rauber