O Costume
Aos que morreram no ataque dos EUA
em Kuhestak, Sirik, Hormozgan e no Irão em 1 de setembro de 2026.
Primeiro costume, descem-se os tapetes
e varre-se o pátio;
os primos vêm de cidades distantes,
a noiva sai vestida de verde.
Por tradição preparam o arroz e o cordeiro,
o tio mais velho canta;
uma criança dormita ao colo,
uma mãe conta os seus anéis.
Em Uruzgan, as armas falam,
como falam nos casamentos
seu pequeno trovão louvava a noiva
dividindo a noite em azul.
Mas do alto, outra prática
estudava a alegria buscando sinais:
um ecrã ficou branco, um cursor moveu-se,
e a morte fulminou.
Em Nangarhar, levaram a noiva a passear
por veredas da montanha;
a primeira bomba atingiu as crianças,
a segundo os que correram a socorrê-las.
A terceira também respeitou a tradição:
atingiu a noiva que fugia.
Sepultaram quarenta e sete vidas
em vinte e oito leitos.
Em Anbar, alguém filmou o baile,
o cantor e a festa;
ao amanhecer os filmes sabiam mais
do que os generais nos seus ecrãs.
Em Rada‘a, onze carros partiram,
panos brilhantes presos às portas;
quatro mísseis juntaram-se à velha rotina:
um casamento, depois nada mais.
Em Sirik, os chinelos enchiam a casa,
pequenos, prateados, vermelho e azuis;
a noiva mal havia atravessado o quarto
quando o costume entrou também.
Porque o costume é aquilo que volta,
tradição, o que se faz:
a mesma desculpa, o mesmo relatório,
o nascer do sol.
“Nosso objetivo era um homem perigoso”.
“Agimos sob uma ameaça”.
Os nomes das crianças saem da página;
Ainda a tinta não secou.
O casamento tem suas leis antigas:
dar pão, criar espaço, aproximar.
o bombardeiro também tem tradições:
negar, rever, desaparecer.
Algo emprestado cruzou o céu,
algo antigo foi dito;
algo novo se converteu em túmulo,
algo azul ficou vermelho.
Então, não cantem nenhuma canção à noiva ou ao noivo,
não façam ribombar tambores nem soar sinos.
Os Estados-Unidos conservam ainda os seus costumes,
e sabem conservá-los muito bem.
Este poema baseia-se nos ataques dos EUA a festas de casamento em Kakarak em Uruzgan (Afghanistão) em 2002, Mogr al-Deeb em Anbar (Iraque) em 2004, Haska Meyna em Nangarhar (Afeganistão) em 2008, Wech Baghtu (Afeganistão) em 2008, e Aqabat Za'j perto de Rada' (Iêmen) em 2013.
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