terça-feira, 8 de setembro de 2026

O Costume - Vijay Prashad

  

O Costume

Aos que morreram no ataque dos EUA

 em Kuhestak, Sirik, Hormozgan e no Irão em 1 de setembro de 2026.

Primeiro costume, descem-se os tapetes

e varre-se o pátio;

os primos vêm de cidades distantes,

a noiva sai vestida de verde.

 

Por tradição preparam o arroz e o cordeiro,

o tio mais velho canta;

uma criança dormita ao colo,

uma mãe conta os seus anéis.

 

Em Uruzgan, as armas falam,

como falam nos casamentos

seu pequeno trovão louvava a noiva

dividindo a noite em azul.

 

Mas do alto, outra prática

estudava a alegria buscando sinais:

um ecrã ficou branco, um cursor moveu-se,

e a morte fulminou.

 

Em Nangarhar, levaram a noiva a passear

por veredas da montanha;

a primeira bomba atingiu as crianças,

a segundo os que correram a socorrê-las.

 

A terceira também respeitou a tradição:

atingiu a noiva que fugia.

Sepultaram quarenta e sete vidas

em vinte e oito leitos.

 

Em Anbar, alguém filmou o baile,

o cantor e a festa;

ao amanhecer os filmes sabiam mais

do que os generais nos seus ecrãs.

 

Em Rada‘a, onze carros partiram,

panos brilhantes presos às portas;

quatro mísseis juntaram-se à velha rotina:

um casamento, depois nada mais.

 

Em Sirik, os chinelos enchiam a casa,

pequenos, prateados, vermelho e azuis;

a noiva mal havia atravessado o quarto

quando o costume entrou também.

 

Porque o costume é aquilo que volta,

tradição, o que se faz:

a mesma desculpa, o mesmo relatório,

o nascer do sol.

 

“Nosso objetivo era um homem perigoso”.

“Agimos sob uma ameaça”.

Os nomes das crianças saem da página;

Ainda a tinta não secou.

 

O casamento tem suas leis antigas:

dar pão, criar espaço, aproximar.

o bombardeiro também tem tradições:

negar, rever, desaparecer.

 

Algo emprestado cruzou o céu,

algo antigo foi dito;

algo novo se converteu em túmulo,

algo azul ficou vermelho.

 

Então, não cantem nenhuma canção à noiva ou ao noivo,

não façam ribombar tambores nem soar sinos.

Os Estados-Unidos conservam ainda os seus costumes,

e sabem conservá-los muito bem.

Vijay Prashad

Este poema baseia-se nos ataques dos EUA a festas de casamento em Kakarak em Uruzgan (Afghanistão) em 2002, Mogr al-Deeb em Anbar (Iraque) em 2004, Haska Meyna em Nangarhar (Afeganistão) em 2008, Wech Baghtu (Afeganistão) em 2008, e Aqabat Za'j perto de Rada' (Iêmen) em 2013.

 

 


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