quinta-feira, 8 de outubro de 2026

CIDADE, Poemas de Cochat Osório

 

CIDADE, Poemas de Cochat Osório.

Luanda, 1960

«Destes movimentos largos de corações e almas gerou-se a compreensão. E a paz, profundamente humana e serena, que permite olhar de frente a vida e compreender os homens que caminham, pois é no caminhar dos homens que se geram os milagres humanos que são as cidades.»  

Esta é a minha cidade.

Terra de contrastes coloridos, na vegetação, nas casas e nos homens. Terra de síntese e de ligações solidárias, em que tudo e todos se combinam para cristalizar uma definição. Em que todos se unem no desejo de criar, mais do que pensam, mais do que dizem, confiados no futuro da cidade. Terra de suor e de trabalho.

Neste poema, a que dei o melhor da minha ternura e do meu vigor, procuro mostrar a cidade quando acorda para o trabalho. E julgo (eu não julgo nada, tenho a certeza absoluta!) dizia eu que julgo mostrar nesta faceta da cidade toda a minha terra; porque sei que todos os que a fizerem e a fazem são homens que acordam cedo e dão a sua parte de suor e sangue à cor desta cidade.

Uns já tiveram a sua hora e deixaram de acordar cedo; outros marcam na cadência dos passos o ritmo da marcha da cidade. Há os que a seguram nas mãos vitoriosas (e ansiosas também) e há os que ainda esperam a oportunidade de vencer e demonstrar o seu amor a esta terra.

Das fragatas torturadas do Távora veio meu Pai, de Bordeaux meu Avô, de Castilla la Vieja veio minha Mãe. Tudo isto para que se cumprisse o destino e eu nascesse aqui. Mas trouxeram todos o coração e conseguiram amar a terra jovem que vinham ajudar a construir e a que deram a suprema dádiva dos homens: os próprios filhos.

Ouvem-se na rua os passos cadenciados da cidade que faz a cidade. É um ritmo obcecante de marcha. Há os que dizem que estão aqui para dar à terra os próprios filhos; outros que estão aqui porque os pais vieram de longe para cumprir o destino; outros, porque lá dos longes do tempo é este e foi sempre assim.

Destes movimentos largos de corações e almas gerou-se a compreensão. E a paz, profundamente humana e serena, que permite olhar de frente a vida e compreender os homens que caminham, pois é no caminhar dos homens que se geram os milagres humanos que são as cidades.

A todos os que sentem na carne as alegrias e as tristezas desta terra, a todos os que a amam desinteressadamente (porque o verdadeiro amor é dádiva, não é colheita), a todos os que sofreram ou sofrem por esta terra, eu dedico a vontade e a intenção que me animam ao escrever este poema.

 

E deste modo eu ouso oferecê-lo ao Povo de Luanda: do Muceque Lixeira à Ilha, da Estrada da Conduta à Samba, da Baía até muito para além da Maianga (exceptuando apenas os hotéis de luxo).

 

Esse Povo que passa na minha rua e vive este poema com tal intensidade e tanta simplicidade, que me deu tempo de copiar e de rever a cópia singela que eu fiz da vida da minha CIDADE.

1

Seis horas da manhã.

No céu

anda um silêncio azul-violeta.

Aqui,

ali,

além,

um motor a roncar

aquece.

Os pardais dão bicadas no silêncio

num tom mordente,

alegre,

impertinente.

2

E sentado na beira do passeio,

um operário aguarda,

pensa

e esquece.

(Cuidado!

Como ele não aprendeu boas maneiras

e não pode comer o que precisa,

é capaz de tornar-se perigoso.

Pelo menos parece).

3

Um polícia amarelo está à espera.

Do sol,

da luz,

da cor?

Unicamente que o trabalho aqueça

aquela alma danada do motor.

Um cigarro nps queixos:

fuma.

Agora…

Enfim!

Ele aí vai:

ronca a motorizada rua fora,

com o sapo amarelo no selim! 

4 

Esse operário

da beira do passeio

aguarda ainda,

pensa

fuma, esquece.

Mas não sente receio.

Ele e o polícia

são os dois pólos de sinal contrário

indispensáveis à corrente

(mas só quando há corrente).

Saem os dois da mesma bateria,

quero dizer,

anexos alugados,

garagem com miséria

e com chuveiro

que lhes devora um terço do ordenado.

5 

Só logo

bem mais tarde,

quando o sol acendeu e o dia arde,

quando a força do dia tudo aquece,

o polícia recebe ordens de cima.

Então cumpre o horário:

com aquele ódio frio de polícia,

com aquele medo forte de polícia,

com o temor que tem do proletário.

Agora ainda não:

Agora são vizinhos.

E quando parte,

levanta a mão do guiador

e acena com a mão.

6

Num latão velho

e sujo

e amolgado

(regulamentar)

um cão procura ainda os vagos restos

dum jantar.

Fica suspenso

Um cheiro nauseabundo

e espesso,

Que é o que cheira tudo o que apodrece.

7

Uma velha passa.

É trôpega,

cansada.

Tem um vestido escuro com buracos

e os sapatos cambados.

Das mãos

unidas sobre o ventre

pende

o rosário das contas da desgraça.

8

Velha onzeneira e previdente!

Enquanto o operário espera

e sonha com comida;

e o polícia amarelo tem na ideia

melhoria da vida;

e o cão traz a esperança atravessada

de achar um dia a lata bem servida;

e nos motores anseia nobremente

a vontade concreta de partida;

e os pardais

querem sempre

e querem mais

viver em liberdade a sua vida;

a velha arrasta os ossos,

compra as acções do infinito

e paga em padres-nossos.

9 

O azul-violeta

(agora azul)

do céu

esmaece.

É o dia que nasce.

E a velha a ruminar palavras em cadeia

segue o caminho

em prece.

Vai a rezar na rua?

E quando o sol atira

as notas estridentes de amarelo

que faltavam ao dia

e acorda as sombras baças com alacridade,

vê-se que a velha tonta

e avarenta

conta

as moedas de fé que vai gastar

na compra

da eternidade.

10

Mas ela passa fome.

Ah!,

sem o poder de compra desses padres-nossos,

o artritismo havia de miná-la

e de roer-lhe os ossos!

Assim,

arrisca quanto tem na lotaria.

(A que só sai um dia

e há-de sair-lhe um dia

e há-de sair-lhe a ela;

vê-se).

De padre-nosso em padre-nosso

vai continuando a vau pela torrente.

E parece feliz,

em paz,

contente.

Mas como o artritismo não perdoa,

ela apodrece.

11

Guincham agora as cintas duns travões.

O operário subiu.

A primeira,

a segunda,

a prise.

E lá vai ele

também

Ganhar a vida

aos trambolhões.

12

Sobe um polícia a pé.

Não tem andar de gente:

bamboleante,

os pés ao lado

lentamente,

olha os latões do lixo,

os criados que passam com pão,

o assador de castanhas crepitante

das bicicletas

motorizadas,

espreita os quintais num jeito presumido.

Traz a alma danada cheia da vontade,

ou lá o que é,

de pôr nas mãos de algum desprevenido

a contra-fé.

13

Parece o cão a procurar no lixo

alguma coisa mais pra mastigar.

A diferença

(se existe)

é que o polícia

apenas quer multar.

(Ou nem diferença existe,

que o polícia

anda a ganhar esse pão triste

do jantar).

14

Na casa em frente abriu-se uma janela:

-Bom-dia!,

-Adeus!,

-Bom-dia!

Ele parte.

Há um sorriso,

algumas reticências,

mas é tudo impreciso:

ele olha para trás,

acena com carinho ela.

Depois não há mais nada.

Mas o trabalho dele vai correr bem

e o dela vai encher-se de alegria.

Os sorrisos,

os olhos,

as ideias

contam o que ainda não mas já se sente.

(E aquece um pouco mais a luz do dia).

15

Passam ainda os sacos com o pão.

Passos solenes de anemia,

como se os pés pousassem mal no chão

e os homens fossem mera fantasia.

E são.

Os sábios

(os que não são e os que já são)

pensaram já nas várias verminoses,

no paludismo,

nos problemas vitais da nutrição.

E como a coisa estava discutida,

ficou na mesma

e consentida.

16

Outros

herdaram já da velha Europa

a malinha de mão

com o martelo,

a plaina

e o formão

e um farrapo qualquer que tem a alcunha

duma muda de roupa.

 17

São sete e dez.

Mas como o tempo passa!

É outra gente agora:

aquele

tem o cabelo,

a roupa

o jeito

de quem há-de ficar insatisfeito

se não repararem nele.

18

Neste rio da rua

que corre docemente para o mar,

um mar com ondas,

com imensidade

e que tem sempre um vento de desgraça

e a ideia cruel de tempestade;

neste rio da rua

passam agora mais

e mais,

cada vez mais,

com acenos de mão e cumprimentos,

olhares que dizem já conhecimento,

um sorriso

de amparo

solidário,

passam todos aqueles que vão cumprir

(ao menos à entrada,

que à saída dependem do patrão)

o esclavagismo do horário.

19

(E o menino doente… ?

e o problema da filha…?

Amor,

ciúme

e dor…,

desejo de mudar…?

Mas começa a cantiga da oficina.

Chocam martelos com bigornas.

Atendem-se os clientes ao balcão.

Erguem os guinchos baldes com cimento.

«Acusando o prezado favor de V. Ex.ª,

somos…»)

Um romance

moderno

em vários tomos

que nenhum editor vai publicar.

20

Aquela rapariga,

airosa,

bata branca no braço,

ri

quando olham para ela.

(Ri sempre

e continua).

Trabalha numa casa de saúde.

(Quando não passa é porque está de vela;

mas sente-se-lhe a falta aqui na rua).

 21

Ouvem-se agora os nomes dos jornais:

uns farrapos com pernas,

uns berros sem beleza e guturais,

uns olhos encovados,

vendem notícias de incerteza e guerra

das nações progressivas e modernas.

(E louvores ao bem estar da nossa terra).

22

A loira rechonchuda?

Sete e meia.

Nunca vem só.

E a hora é sempre dela…

Porque a outra,

coitada, ou é muito miúda

ou há-de ser eternamente feia.

A loira…

Há coisa, com certeza!

Já mudou tanto:

começou pelos saltos;

depois foi o vestido que ficou diferente,

mais justo,

mais jeitoso,

mais contente;

e agora

os olhos pequeninos, ensonados,

desfazem-se em olhares atravessados,

num misto de ousadia e de temor.

Quando ela conseguir a coisa pouca

de gastar o baton que anda a pedir-lhe a boca…,

é de certeza amor.

(E se passar depois por outra rua ?

E se deixar de vir às sete e meia?

Chegará a ser dona dessa hora,

mesmo vindo sozinha,

a feia?).

23

Passam crianças

pálidas,

cansadas,

com os livros na mão,

a pasta

ou nada.

Nem parecem crianças a passar.

Há na indiferença triste daqueles passos

a vaga acusação

de terem estado um doloroso verão

ou a fingir

ou a estudar.

(E algumas

não comeram sequer

ao abalar).

24

Pretos e brancos vão na mesma pista.

Alguns até conversam e discutem,

porque o trabalho e o pão não são racistas.

25
Há um sabor gostoso da manhã
nesta mancha da gente que procura
animar a cidade que a não vê.
A cidade que pensa que a cidade
é só daqueles que nunca acordam cedo
e alugando um polícia para cada medo
conseguem saturar esta cidade imensa
da sua vadiagem tola e vã.

26

Mas eu sei que não é!

Esta cidade,

a terra desta gente,

a terra do trabalho que consome

e que contenta

e mata a fome;

esta cidade de calor,

com sangue

e carne

e fel

e amor

e corpo de cidade;

que é cheia de trabalho e de suor

e força

 e dignidade;

cidade com as cores do arco-íris,

que o sol acorda e pinta

com as tintas de sangue da paleta inquieta

dum pintor

que além de ser pintor inda é poeta;

a cidade que vibra intensamente

e grita

essa mensagem quente de vigor

e de ansiedade

que é o sangue da gente misturado à cor

da cor

duma cidade;

esta cidade quente

fantasiada com a luz potente

do sol

e da manhã;

cidade que recebe do trabalho

a condição humana;

terra que o sol queimou para a tornar mais sã;

é feita com a força consciente

da luta continuada desta gente

que vive

e sofre

e ri

e canta

e sente

e encharca de suor os dias da semana! 

(Cochat Osório, in "Cidade", Luanda 1960)

Ernesto Cochat Osório nasceu em Luanda, em 1917. Relativamente novo, desembarcou em Portugal, onde estudou e se licenciou em Medicina pela Universidade de Lisboa. Mais tarde regressou a Luanda, onde exerceu a profissão de médico. Obra poética: Calema, 1956, Luanda, Lello; Cidade, 1960, Luanda, Rotary Club de Luanda;

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