ESTE PAÍS...
Este
país que me ensinaram a chamar de meu
cujo mapa não incluiu as ruas onde cresci
e me tornei órfã das promessas oficiais
do pleno emprego, do sol gratuito
metade do preço, metade do sonho
na carne magoada da oferta da estação
este
país que continuo a chamar de meu
há quarenta e oitocentos anos sem troco
na mentira de não passar fome porque há pão
e as ilhas de petróleo cospem diesel e whiskey
do colo marinho para o estômago da capital
este
país de poetas e fabros com direito a tudo
sabor a sangue e solo vulcânico para a paixão
este novo desamparo de não haver solidão
porque a rede eléctrica está cada vez mais forte
este
país de olhos na lua defeituosa e favorável
o gato preto da companhia ronronando em rendição
este país que espera ainda os cavaleiros da fé
para puxar um fantasma mais para a cadeira ao lado
e atirar um cêntimo ao oceano.
De Postes de Luz para Cães Vadios, Tinta-da-china, 2026
Sem comentários:
Enviar um comentário