quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

ELOGIO DA SOLIDÃO - josé alberto de oliveira



ELOGIO DA SOLIDÃO

Uma casa para estrear e descobrir
em quantas salas se acomoda a solidão.
Cozinhou o
jantar e come atentamente
como todos quantos dividem a comida em silêncio:
o
náufrago, o mendigo, o oleiro na lancheira.

Coze o
seu barro, um jeito de partir o pão
que deve ao tempo uma lentidão coalhada.
O
ruído do vizinho não o incomoda.
Nenhuma
fala ou resíduo humano leveda
uma
página ao acaso. Pode decidir beber mais vinho
ou inaugurar a leitura de outro livro.
Mesmo sair para beber café e mastigar o frio.

No
pasto, a chuva rega a placidez do boi;
abana a cabeça, fumegam as narinas,
desenha-se num
fundo de pinhal que o vento
castiga; na caruma molhada pressente-se
o
rumor de um cão absorto na ilusão
do
que procura. Coisas mínimas, irrisórias,
vão salvar o resto da noite de presumir felicidade.

fora a cidade está cercada na convicção
das
suas vidas perdoáveis, mercando
um alimento longamente dispensável
- a
respiração em vitualhas e sarcasmos,
a
pobreza irresignável e irresolúvel,
o
cansaço de não estar e não querer estar.


josé alberto de oliveira
por alguns dias
assírio & alvim
1992

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