domingo, 11 de outubro de 2026

Como o cavalo Soneto - Ângelo de Lima

 

Como o cavalo

 Soneto

Pára-me de repente o pensamento
Como que de repente refreado
Na doida correria em que levado
Ia em busca da paz, do esquecimento…


Pára surpreso, escrutador, atento,
Como pára um cavalo alucinado
Ante um abismo súbito rasgado…
Pára e fica e demora-se um momento.

Pára e fica na doida correria…
Pára à beira do abismo e se demora
E mergulha na noite escura e fria.

Um olhar de aço que essa noite explora…
Mas a espora da dor seu flanco estria
E ele galga e prossegue sob a espora.

Ângelo de Lima


(Líricas Portuguesas, selecção, prefácio e notas de Cabral do Nascimento, Lisboa, Portugália Editora, 1945)

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