segunda-feira, 6 de abril de 2026

O Cristo Vermelho - Eduardo Metzner

  

O Cristo Vermelho

Na antiga catedral de rendas bizantinas,
entre o fumo do incenso a subir, calmo e lento,
chagas em rosa cruz, rubro de turmalinas,
vejo um Cristo vermelho e de olhar truculento.

Evolam-se orações. Lá fora, geme o vento
um responso. No véu fechado de neblinas
vaga a tristeza negra, imensa do tormento
que aflige o mundo todo em convulsões leoninas.

E o Cristo, contemplando a multidão de rojo
a seus pés, a rezar, cheio de tédio e nojo
clamou em voz vibrante, incisiva, estentórea:

– Como Lázaro, o vil leproso de Betânia,
Povo, surge e caminha! Sai da tua insânia!
Acorda, vai cumprir teus destinos na História!

Eduardo Metzner


quinta-feira, 2 de abril de 2026

IDIOTAS, PALHAÇOS E BANDIDOS - Armindo Rodrigues

4 poemas de Armindo Rodrigues » Recanto do Poeta

IDIOTAS, PALHAÇOS E BANDIDOS

 

Idiotas, palhaços e bandidos,

enfatuados, ocos, ignorantes,

do capital humildes servidores,

ante os trabalhadores majestosos,

melífluos, devotos, afetados,

hipócritas, sem escrúpulos, grosseiros,

no apetite à solta insaciáveis,

na total desvergonha sem remédio,

agiotas vorazes para os pobres,

para os ricos mãos rotas sem medida,

impávidos na asneira triunfal,

relapsos no logro e na mentira,

useiros e vezeiros na traição,

são os que nos governam e eu desprezo.

 

Armindo Rodrigues

 

terça-feira, 24 de março de 2026

MORDAÇA - Sebastião da Gama

 

MORDAÇA

 Puseram-lhe na boca uma mordaça…

Mas o Poeta era Poeta...
E tinha que falar.

Fez um esforço enorme,
puxou a voz como quem golfa sangue
e a mordaça soltou-se-lhe da boca.

Porém, não era já mordaça:

Agora,
era um poema a queimar
os ouvidos das turbas inimigas
que, na praça,
o tinham querido calar

Sebastião da Gama

in Itinerário

domingo, 22 de março de 2026

Um espelho Para quem nele se reveja - Miguel Torga, in Diário XIII

  

Um espelho Para quem nele se reveja

Coimbra, 1 de Março de 1979

A política é para eles uma promoção e para mim uma aflição. E não há entendimento possível entre nós, apesar do meu esforço. Separa-nos um fosso da largura da verdade. Radicalmente insinceros, nenhum pudor os inibe. Mentem com tal convicção que se enganam a si próprios, e acabam por acreditar que são o que fingem ser. Levam-se a sério no papel de homens providenciais que dão ordem à desordem, virtude ao vício, luz à escuridão. Que outorgam a liberdade apenas a nomeá-la do alto das tribunas. E nem sequer consigo fazê-los compreender que representam sem originalidade uma farsa velha como os tempos, e que os aplausos que recebem já outros os receberam, igualmente inconsequentes e requentados. Narcisos numa sala de espelhos, confirmam-se em cada imagem multiplicada. A circunstância não os circunstancia. Pelo contrário. Vaticina-lhes a duração. O efémero é um anátema dos outros. Vêem na presença actual do nome nos jornais a garantia da perpetuação nos anais da História.

Miguel Torga, in Diário XIII