domingo, 6 de setembro de 2026

O papagaio não tem passaporte - Vijay Prashad

  

O papagaio não tem passaporte

I

O menino do Cairo com um baraço,

descalço sobre o telhado escaldante,

aprendendo a difícil gramática do vento:

como não puxar quando o céu dizia cede,

como não ceder quando o céu dizia sustém.

 

O papagaio custa menos do que um livro:

duas varinhas, papel fino, cola e um cordel;

mas quando se elevava sobre os cabos,

os tanques da água e a roupa estendida,

o menino por momentos respirava de alívio.

 

Em baixo, a cidade suava.

Os autocarros fremiam pela avenida.

Os corvos brigavam nos beirados.

As mães chamavam-nos para comer.

Eles negociavam com o céu.

 

Papagaios girando, caindo, revoando,

fios que se cruzavam como argumentos.

Às vezes, um soltava-se

e todos gritavam enquanto se afastava navegando,

e logo corriam através de becos e mercados,

entre bicicletas e homens adormecidos frente às lojas,

porque um papagaio sem fio

pertenceria a quem conseguisse apanhar primeiro a liberdade.

 

II

 

O céu de Gaza tem outra gramática:

dron, míssil, helicóptero, fumo;

onde até um pedaço de papel levado pelo vento

pode entrar no vocabulário da guerra.

 

Israel teme os papagaios.

 

Imaginemos o poder que isto revela:

um Estado com aviões, tanques, satélites,

muros, torres de vigilância, armas e algoritmos,

ao olhar o papel lançado por uma criança

vê um inimigo.

 

O papagaio não tem passaporte.

Não reconhece postos de controle.

No muro está escrito que pare

e o papagaio, que não sabe ler, continua.

O papagaio passa sobre os escombros,

sobre a terra cercada e medida,

sobre as matemáticas da vida permitida,

sem levar nada que possa ser registado

salvo o velho contrabando do ar.

 

Os generais classificam as nuvens.

Os coronéis põem o vento sob custódia.

Os capitães interrogam o fio.

 

Um menino palestino segura o baraço.

Enquanto a mão não vacile,

enquanto o papel volte a aterrar,

enquanto os apavorados olharem para cima,

o céu não será ocupado

por completo.

Vijay Prashad

 

"Medidas contundentes serão tomadas para acabar com esse fenômeno [nomeadamente, o voo de papagaios]. Um balão é tratado como um papagaio, e um papagaio é tratada como um drone, com ou sem explosivos."
(Ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, 24 de agosto de 2026).


sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Hoje morreremos em família - Mohammed El-Kurd.

  

Hoje morreremos em família

No hospital, a enfermeira está chocada
com a visita surpresa: seu marido
na maca
chegou no banco de trás de um táxi –
carro funerário improvisado.
Não há ambulâncias suficientes em Gaza
e cada vez há mais gente a morrer.
Ela está lívida. Os homens nunca obedecem
eu disse pra esperar que o meu turno terminasse
preciso cuidar dos feridos
e disse-te que morreríamos em família
era pra morrermos juntos
em família
.

Mohammed El-Kurd.

*esse poema foi publicado em inglês na revista Poetry Review, em abril de 2024.