
CIDADE, Poemas de Cochat
Osório.
Luanda, 1960
«Destes movimentos
largos de corações
e almas gerou-se a compreensão.
E a paz, profundamente
humana e serena,
que permite olhar
de frente a vida
e compreender os homens
que caminham, pois
é no caminhar dos homens
que se geram os milagres
humanos que
são as cidades.»
Esta é a minha cidade.
Terra de contrastes
coloridos, na vegetação, nas casas e nos homens. Terra de síntese e de ligações
solidárias, em que
tudo e todos
se combinam para cristalizar
uma definição. Em
que todos
se unem no desejo de criar,
mais do que
pensam, mais do que
dizem, confiados no futuro da cidade. Terra de suor e de trabalho.
Neste poema, a que
dei o melhor da minha
ternura e do meu
vigor, procuro mostrar
a cidade quando
acorda para o
trabalho. E julgo (eu
não julgo nada,
tenho a certeza absoluta!)
dizia eu que
julgo mostrar nesta faceta
da cidade toda
a minha terra;
porque sei que
todos os que
a fizerem e a fazem são homens que
acordam cedo e dão a sua parte de suor e sangue à
cor desta cidade.
Uns já tiveram a sua
hora e deixaram de acordar
cedo; outros
marcam na cadência dos passos o ritmo
da marcha da cidade.
Há os que a seguram nas mãos vitoriosas (e ansiosas também)
e há os que ainda
esperam a oportunidade de vencer
e demonstrar o seu
amor a esta terra.
Das fragatas torturadas do Távora veio
meu Pai,
de Bordeaux meu Avô,
de Castilla la Vieja veio minha Mãe. Tudo isto para que se cumprisse
o destino e eu
nascesse aqui. Mas
trouxeram todos o coração e conseguiram amar a terra jovem
que vinham ajudar
a construir e a que
deram a suprema dádiva
dos homens: os próprios
filhos.
Ouvem-se na rua os passos
cadenciados da cidade que faz a cidade.
É um ritmo
obcecante de marcha.
Há os que dizem que
estão aqui para
dar à terra os próprios filhos;
outros que
estão aqui porque
os pais vieram de longe
para cumprir o destino; outros, porque lá dos longes do tempo
é este e foi sempre
assim.
Destes movimentos largos
de corações e almas
gerou-se a compreensão. E a paz, profundamente
humana e serena,
que permite olhar
de frente a vida
e compreender os homens
que caminham, pois
é no caminhar dos homens
que se geram os milagres
humanos que
são as cidades.
A todos os que
sentem na carne as alegrias
e as tristezas desta terra,
a todos os que
a amam desinteressadamente (porque o verdadeiro
amor é dádiva,
não é colheita),
a todos os que
sofreram ou sofrem por
esta terra, eu
dedico a vontade e a intenção que me animam ao escrever este poema.
E deste modo eu ouso
oferecê-lo ao Povo de Luanda: do Muceque
Lixeira à Ilha,
da Estrada da Conduta
à Samba, da Baía
até muito
para além da
Maianga (exceptuando apenas os hotéis de
luxo).
Esse Povo que passa na minha rua e
vive este poema
com tal
intensidade e tanta
simplicidade, que
me deu tempo
de copiar e de rever a cópia singela que eu fiz da vida da minha CIDADE.
1
Seis horas da manhã.
No céu
anda um silêncio azul-violeta.
Aqui,
ali,
além,
um motor a roncar
aquece.
Os pardais dão
bicadas no silêncio
num tom mordente,
alegre,
impertinente.
2
E sentado na beira
do passeio,
um operário aguarda,
pensa
e esquece.
(Cuidado!
Como ele não aprendeu boas maneiras
e não pode
comer o que precisa,
é capaz de
tornar-se perigoso.
Pelo menos parece).
3
Um polícia amarelo está à espera.
Do sol,
da luz,
da cor?
Unicamente que
o trabalho aqueça
aquela alma danada do motor.
Um cigarro nos queixos:
fuma.
Agora…
Enfim!
Ele aí vai:
ronca a motorizada rua
fora,
com o sapo amarelo no selim!
4
Esse operário
da beira do passeio
aguarda ainda,
pensa
fuma, esquece.
Mas não sente receio.
Ele e o polícia
são os dois pólos de sinal contrário
indispensáveis à corrente
(mas só quando há corrente).
Saem os dois da mesma bateria,
quero dizer,
anexos alugados,
garagem com miséria
e com chuveiro
que lhes devora um terço do ordenado.
5
Só logo
bem mais tarde,
quando o sol acendeu
e o dia arde,
quando a força do dia tudo
aquece,
o polícia
recebe ordens de cima.
Então cumpre o horário:
com aquele ódio frio de polícia,
com aquele medo forte de polícia,
com o temor que tem do proletário.
Agora ainda não:
Agora são vizinhos.
E quando parte,
levanta a mão
do guiador
e acena com a mão.
6
Num latão velho
e sujo
e amolgado
(regulamentar)
um cão procura ainda
os vagos restos
dum jantar.
Fica suspenso
Um cheiro nauseabundo
e espesso,
Que é o que cheira tudo o que apodrece.
7
Uma velha passa.
É trôpega,
cansada.
Tem um vestido escuro com buracos
e os sapatos
cambados.
Das mãos
unidas sobre o ventre
pende
o rosário das contas da desgraça.
8
Velha onzeneira e previdente!
Enquanto o operário espera
e sonha com comida;
e o polícia amarelo tem na ideia
melhoria da vida;
e o cão traz a esperança atravessada
de achar um dia a lata bem servida;
e nos motores anseia nobremente
a vontade concreta de partida;
e os pardais
querem sempre
e querem mais
viver em liberdade a sua
vida;
a velha arrasta
os ossos,
compra as acções do infinito
e paga em padres-nossos.
9
O azul-violeta
(agora azul)
do céu
esmaece.
É o dia que nasce.
E a velha a ruminar palavras em cadeia
segue o caminho
em prece.
Vai a rezar na rua?
E quando o sol atira
as notas estridentes de amarelo
que faltavam ao dia
e acorda as sombras baças com
alacridade,
vê-se que a velha tonta
e avarenta
conta
as moedas de fé que vai gastar
na compra
da eternidade.
10
Mas ela passa fome.
Ah!,
sem o poder de compra desses padres-nossos,
o artritismo havia de miná-la
e de roer-lhe os ossos!
Assim,
arrisca quanto
tem na lotaria.
(A que só sai um dia
e há-de sair-lhe um
dia
e há-de sair-lhe a ela;
vê-se).
De padre-nosso em padre-nosso
vai continuando a vau
pela torrente.
E parece feliz,
em paz,
contente.
Mas como o
artritismo não perdoa,
ela apodrece.
11
Guincham agora
as cintas duns travões.
O operário subiu.
A primeira,
a segunda,
a prise.
E lá vai ele
também
Ganhar a vida
aos trambolhões.
12
Sobe um polícia a pé.
Não tem andar de gente:
bamboleante,
os pés ao lado
lentamente,
olha os latões do lixo,
os criados que passam com pão,
o assador de castanhas
crepitante
das bicicletas
motorizadas,
espreita os quintais
num jeito presumido.
Traz a alma danada cheia da vontade,
ou lá o que é,
de pôr nas mãos de algum desprevenido
a contra-fé.
13
Parece o cão a procurar no lixo
alguma coisa mais pra mastigar.
A diferença
(se existe)
é que o polícia
apenas quer multar.
(Ou nem diferença
existe,
que o polícia
anda a ganhar esse pão triste
do jantar).
14
Na casa em frente
abriu-se uma janela:
-Bom-dia!,
-Adeus!,
-Bom-dia!
Ele parte.
Há um sorriso,
algumas reticências,
mas é tudo impreciso:
ele olha para trás,
acena com carinho ela.
Depois não há mais nada.
Mas o trabalho dele vai correr bem
e o dela vai encher-se de alegria.
Os sorrisos,
os olhos,
as ideias
contam o que ainda não mas já se
sente.
(E aquece um pouco mais a luz do dia).
15
Passam ainda os
sacos com
o pão.
Passos solenes de anemia,
como se os pés
pousassem mal no chão
e os homens
fossem mera fantasia.
E são.
Os sábios
(os que não são e os que já são)
pensaram já nas
várias verminoses,
no paludismo,
nos problemas vitais da nutrição.
E como a coisa estava discutida,
ficou na mesma
e consentida.
16
Outros
herdaram já da velha Europa
a malinha de mão
com o martelo,
a plaina
e o formão
e um farrapo qualquer
que tem a alcunha
duma muda de roupa.
17
São sete e dez.
Mas como o tempo passa!
É outra gente agora:
aquele
tem o cabelo,
a roupa
o jeito
de quem há-de ficar insatisfeito
se não
repararem nele.
18
Neste rio da rua
que corre docemente
para o mar,
um mar com ondas,
com imensidade
e que tem sempre um vento de desgraça
e a ideia cruel
de tempestade;
neste rio da rua
passam agora mais
e mais,
cada vez mais,
com acenos de mão e cumprimentos,
olhares que dizem já conhecimento,
um sorriso
de amparo
solidário,
passam todos aqueles que vão cumprir
(ao menos à entrada,
que à saída
dependem do patrão)
o esclavagismo do horário.
19
(E o menino
doente… ?
e o problema da
filha…?
Amor,
ciúme
e dor…,
desejo de mudar…?
Mas começa a cantiga da oficina.
Chocam martelos
com bigornas.
Atendem-se os clientes
ao balcão.
Erguem os guinchos
baldes com
cimento.
«Acusando o prezado
favor de V. Ex.ª,
somos…»)
Um romance
moderno
em vários tomos
que nenhum editor vai publicar.
20
Aquela rapariga,
airosa,
bata branca no braço,
ri
quando olham para ela.
(Ri sempre
e continua).
Trabalha numa casa de saúde.
(Quando não passa é porque está de vela;
mas sente-se-lhe a falta
aqui na rua).
21
Ouvem-se agora
os nomes dos jornais:
uns farrapos com pernas,
uns berros sem beleza e guturais,
uns olhos encovados,
vendem notícias
de incerteza e guerra
das nações
progressivas e modernas.
(E louvores ao bem estar da nossa
terra).
22
A loira rechonchuda?
Sete e meia.
Nunca vem só.
E a hora é sempre dela…
Porque a outra,
coitada, ou é muito miúda
ou há-de ser eternamente feia.
A loira…
Há coisa, com certeza!
Já mudou tanto:
começou pelos saltos;
depois foi o vestido que ficou diferente,
mais justo,
mais jeitoso,
mais contente;
e agora
os olhos pequeninos, ensonados,
desfazem-se em olhares atravessados,
num misto de ousadia e de temor.
Quando ela conseguir a coisa pouca
de gastar o baton que anda a
pedir-lhe a boca…,
é de certeza amor.
(E se passar depois por outra rua ?
E se deixar de vir às sete e meia?
Chegará a ser dona dessa hora,
mesmo vindo sozinha,
a feia?).
23
Passam crianças
pálidas,
cansadas,
com os livros na mão,
a pasta
ou nada.
Nem parecem crianças
a passar.
Há na indiferença triste daqueles passos
a vaga acusação
de terem estado
um doloroso
verão
ou a fingir
ou a estudar.
(E algumas
não comeram sequer
ao abalar).
24
Pretos e brancos vão na mesma pista.
Alguns até conversam
e discutem,
porque o trabalho e o pão não são racistas.
25
Há um sabor gostoso da manhã
nesta mancha da gente
que procura
animar a cidade
que a não
vê.
A cidade que
pensa que
a cidade
é só daqueles que
nunca acordam cedo
e alugando um polícia
para cada medo
conseguem saturar esta cidade
imensa
da sua vadiagem
tola e vã.
26
Mas eu sei que não é!
Esta cidade,
a terra desta gente,
a terra do trabalho
que consome
e que contenta
e mata a fome;
esta cidade de calor,
com sangue
e carne
e fel
e amor
e corpo de cidade;
que é cheia de trabalho e de suor
e força
e dignidade;
cidade com as cores do arco-íris,
que o sol acorda e pinta
com as tintas de sangue da paleta
inquieta
dum pintor
que além de ser pintor inda é poeta;
a cidade que vibra intensamente
e grita
essa mensagem quente de vigor
e de ansiedade
que é o sangue da gente misturado à cor
da cor
duma cidade;
esta cidade quente
fantasiada com
a luz potente
do sol
e da manhã;
cidade que recebe do trabalho
a condição humana;
terra que o sol queimou para a tornar mais sã;
é feita com a força consciente
da luta
continuada desta gente
que vive
e sofre
e ri
e canta
e sente
e encharca de suor
os dias da semana!
(Cochat Osório, in "Cidade", Luanda 1960)
Ernesto Cochat Osório
nasceu em Luanda, em
1917. Relativamente novo,
desembarcou em Portugal, onde estudou e se licenciou em
Medicina pela
Universidade de Lisboa. Mais tarde
regressou a Luanda, onde exerceu a profissão de médico.
Obra poética:
Calema, 1956, Luanda, Lello; Cidade,
1960, Luanda, Rotary Club de Luanda;