terça-feira, 9 de junho de 2026

A terra é nossa - Patativa do Assaré

 

A terra é nossa

A terra é um bem comum
Que pertence a cada um.
Com o seu poder além,
Deus fez a grande Natura
Mas não passou escritura
Da terra para ninguém.

Se a terra foi Deus quem fez,
Se é obra da criação,
Deve cada camponês
Ter uma faixa de chão.

Quando um agregado solta
O seu grito de revolta,
Tem razão de reclamar.
Não há maior padecer
Do que um camponês viver
Sem terra pra trabalhar.

O grande latifundiário,
Egoísta e usurário,
Da terra toda se apossa
Causando crises fatais
Porém nas leis naturais
Sabemos que a terra é nossa.”

Patativa do Assaré


domingo, 7 de junho de 2026

Ano Novo (Esperança) - Mario Quintana

Uma imagem com pessoa, Cara humana, ruga, Idoso

Descrição gerada automaticamente

 Ano Novo (Esperança)

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso voo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança…
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA…

Mario Quintana

 

 

 

 

quarta-feira, 3 de junho de 2026

A Canção do Petrel - Máximo Gorki - (Homenagem à Greve Geral)

A Canção do Petrel

- o mensageiro da tempestade -

Por cima da planície cinzenta do mar, o vento amontoa nuvens. Entre as nuvens e o mar, orgulhosamente, reminiscência de relâmpagos negros, voa o Petrel.

Roçando a onda com a ponta da asa como uma flecha a voar em direção às nuvens, ele grita, e as nuvens ouvem a sua alegria e coragem.

Nesse grito – Sede de tempestade! As nuvens sentem no grito um poder irado, chama de paixão e confiança na vitória.

Cada vez mais escuras, as nuvens descem sobre o mar, e as ondas cantam, correndo para o céu ao encontro do trovão.

O estrondo ensurdece, as águas lutam ferozmente contra o vento que enfurecido as aperta num abraço. As vagas em tropel numa raiva espumosa discutem com o vento e gemem, abraçando-as com força contra os rochedos numa fúria selvagem, desfazendo a massa de esmeraldas em salpicos de mil sóis.

O Petrel paira na tempestade como um relâmpago negro, silva em flecha a perfurar as nuvens no oceano, limpando a espuma das asas.

Depois lança-se como um demónio, um demónio orgulhoso – o demónio negro da tempestade. Chora e ri, ri e chora. É das nuvens que ele ri, e é com alegria que chora!

No furor da trovoada – o demónio sábio - há muito que percebeu tanto cansaço. Ele está certo de que as nuvens não vão esconder o sol – não, elas não o esconderão! -

O trovão ronca e o vento uiva…

Acima do abismo do mar, as nuvens em saraiva queimam, queimando-se em chamas azuis. O mar envolve os relâmpagos, afogando-os nas águas. E o reflexo dos relâmpagos, como serpentes de fogo, enrolam-se até desaparecerem nas profundezas do abismo.

- Tempestade!  Que venha a tempestade!

Eis o corajoso Petrel a pairar orgulhosamente nos relâmpagos acima das ondas rugidoras. Ele, o profeta das vitórias, clama:

Que a tempestade ruja! Que rebente mais forte ainda!


Máximo Gorki

(1901)