Eles cheiram-te o hálito
Para o caso de teres dito "Amo-te"
Eles cheiram-te o coração
Estes são tempos estranhos, meu amor
Aquele que bate à porta à meia-noite
Veio para matar a luz
É melhor escondermos a luz no armário
[poeta iraniano]
Eles cheiram-te o hálito
Para o caso de teres dito "Amo-te"
Eles cheiram-te o coração
Estes são tempos estranhos, meu amor
Aquele que bate à porta à meia-noite
Veio para matar a luz
É melhor escondermos a luz no armário
[poeta iraniano]
Elis Regina
(ouvir AQUI)
Como nossos pais
Não quero lhe falar meu grande amor
Das coisas que aprendi nos discos
Quero lhe contar como eu vivi
E tudo o que aconteceu comigo
Viver é melhor que sonhar
Eu sei que o amor é uma coisa boa
Mas também sei que qualquer canto
É menor do que a vida
De qualquer pessoa
Por isso cuidado meu bem
Há perigo na esquina
Eles venceram
E o sinal está fechado prá nós
Que somos jovens
Para abraçar seu irmão
E beijar sua menina na rua
É que se fez o seu braço
O seu lábio e a sua voz
Você me pergunta pela minha paixão
Digo que estou encantada
Como uma nova invenção
Eu vou ficar nesta cidade
Não vou voltar pro sertão
Pois vejo vir vindo no vento
Cheiro de nova estação
Eu sei de tudo na ferida viva
Do meu coração
Já faz tempo eu vi você na rua
Cabelo ao vento
Gente jovem reunida
Na parede da memória
Essa lembrança
É o quadro que dói mais
Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Como os nossos pais
Nossos ídolos ainda são os mesmos
E as aparências
Não enganam não
Você diz que depois deles
Não apareceu mais ninguém
Você pode até dizer
Que eu 'tô por fora
Ou então que eu 'tô inventando
Mas é você que ama o passado
E que não vê
É você que ama o passado
E que não vê
Que o novo sempre vem
Hoje eu sei que quem me deu a ideia
De uma nova consciência e juventude
'Tá em casa
Guardado por deus
Contando vil metal
Minha dor é perceber
Que apesar de termos feito tudo, tudo
Tudo o que fizemos
Nós ainda somos os mesmos
E vivemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos como os nossos pais
Elis Regina
Compositor: Antonio Carlos Belchior 1976
ESTE PAÍS...
Este
país que me ensinaram a chamar de meu
cujo mapa não incluiu as ruas onde cresci
e me tornei órfã das promessas oficiais
do pleno emprego, do sol gratuito
metade do preço, metade do sonho
na carne magoada da oferta da estação
este
país que continuo a chamar de meu
há quarenta e oitocentos anos sem troco
na mentira de não passar fome porque há pão
e as ilhas de petróleo cospem diesel e whiskey
do colo marinho para o estômago da capital
este
país de poetas e fabros com direito a tudo
sabor a sangue e solo vulcânico para a paixão
este novo desamparo de não haver solidão
porque a rede eléctrica está cada vez mais forte
este
país de olhos na lua defeituosa e favorável
o gato preto da companhia ronronando em rendição
este país que espera ainda os cavaleiros da fé
para puxar um fantasma mais para a cadeira ao lado
e atirar um cêntimo ao oceano.
De Postes de Luz para Cães Vadios, Tinta-da-china, 2026