sábado, 28 de fevereiro de 2026

Começo por invocar Walt Whitman - Pablo Neruda

Começo por invocar Walt Whitman

É por acção de amor ao meu país
que te reclamo, ó necessário irmão,
velho Whitman da cinzenta mão,

para que, com teu apoio extraordinário,
verso a verso, matemos de raiz
Níxon, o presidente sanguinário.

Sobre a terra não há homem feliz,
ninguém trabalha bem no planeta
se em Washington respira o seu nariz.

Pedindo ao velho bardo que me invista,
os meus deveres assumo de poeta
armado do soneto terrorista,

porque devo ditar sem pena alguma
a sentença até agora nunca vista
de fuzilar um criminoso ingente

que apesar das suas viagens para a lua
já matou na terra tanta gente,
que até foge o papel e a pena se alevanta

ao escrever o nome do maldito,
do genocida, o da Casa Branca.


Pablo Neruda

(de Incitamento ao Nixonicídio e louvor da Revolução Chilena, tradução de Alexandre O’Neill, Agência Portuguesa de Revistas, 1975 / original: Incitación al nixonicidio y alabanza de la revolución chilena, 1973)

 

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

NÃO TE RENDAS MEU POVO - Joaquim Pessoa

 

NÃO TE RENDAS MEU POVO

Não te rendas meu povo. Não te rendas
às mãos de quem te quer voltar a ver
cativo e desgraçado. Não te vendas.
Aqui nada mais temos a vender!
Não te cales meu povo. Que a saudade
já não pode doer dentro de nós.
Se o teu punho constrói a liberdade
levanta ainda mais a tua voz.
Não te rendas meu povo. Não te rendas.
Que já nos querem sós. E divididos.
Que já nos querem fracos. E calados.
Não te cales meu povo. Não te vendas.
Que quando nos quiserem já vencidos
hão-de ter-nos de pé. E perfilados.

Joaquim Pessoa

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

AGÊNCIA IMOBILIÁRIA - Antonio Orihela

  

AGÊNCIA IMOBILIÁRIA

(Para Montse Villar)

A nossa casa são os outros.

 

Quando descobrirmos isto, tão simples,

começaremos a militar o amor,

 

quando descobrirmos isto,

tão simples.

 

Antonio Orihela

(Espanha, 1965 - )

In "Sem Fim" (Antologia Pessoal)

(Tradução de Carlos D´Abreu e Albino Matos)

(do blog ‘ajuda-me a ver e a ler’)

 

M
T
G
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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Abril 74/Abril 24 - António Carlos Cortez

Abril 74/Abril 24


Vozes que vazaram onde vão, diz um poeta
de outrora seu eco desaguando neste texto.
Estamos no olho do furacão no tempo errado?

Abril é memória convulsiva e dizes
“Onde vão as vozes que vazaram”
repetindo outra era, outro pó e outro estado

Na fotografia antiga um soldado no largo
onde tanques mergulhados estavam por
uma multidão sanguínea, crianças com flores


de paz despediam-se dum tempo escuro e frio
Abril tinha ainda no rio as formas trágicas e
heróicas e era uma porta aberta ao dia claro

Mas quem cerrou o tempo ao ido grito
de uma esperança refractada?
Abril de mil novecentos e setenta e quatro

guardo como uma idade mágica não vivida
mas sentida ao longo destes anos em que nada
o teu calor intempestivo pode apagar

Ó vozes que vieram na vazante – a nossa vida
(a nossa – os que depois de vocês, nascidos
para o dia lusíada e não reencontrado) –

em nós Abril é a voz carnal
um fogo posto no país amado

António Carlos Cortez