sexta-feira, 15 de maio de 2026

Ana e António - Mário Castrim

  

Ana e António

A Ana e o António trabalhavam 

na mesma empresa.

Agora foram ambos despedidos.

Lá em casa, o silêncio sentou-se

em todas as cadeiras

em volta da mesa vazia.

«Neo-Realismo!» dirão os estetas

para quem ser despedido

é o preço do progresso.

Os estetas, esses, nunca

serão despedidos.

Ou julgam isso, ou julgam isso.

 

Mário Castrim


domingo, 10 de maio de 2026

PQP - Domingos da Mota

  

PQP

     (...) Não te sentes feliz
     se o povo reza livremente o terço no país
     e são muito cristãos os nossos governantes?

     Ruy Belo

Desde o berço,
Vai à missa,
Reza o terço,

Não pragueja
(Como manda
A madre igreja).

Só diz, chiça!
Irra! Apre!
Mesmo que

A pqp

Entre
Dentes
Lhe escape.

Domingos da Mota


terça-feira, 5 de maio de 2026

Confraternização - Carlos Marighella

 

Confraternização

Braços caídos
Não mais as mãos nervosas das tecelãs
tocando os
teares,
pondo emendas no fio
não mais o matraquear dos teares
batendo
num barulho monótono, ensurdecedor
Apenas braços caídos,
As operárias pensando nos filhos
com fome
Depois vieram os soldados,
Fuzis embalados,
Defender a propriedade do dono da
fábrica
Mas também tinham filhos,
Mães, noivas, irmãs
A fome era a mesma nos seus lares
também
E as tecelãs os saudaram chamando-os de irmãos
Agora na fábrica há braços erguidos
Aclamando
E há mãos se apertando

Carlos Marighella

no livro “Poemas: rondó da liberdade”. São Paulo: Editora Brasiliense, 1994.