quarta-feira, 3 de junho de 2026
quarta-feira, 27 de maio de 2026
Desabafo de um trabalhador em greve
Carteiro Poeta
Greve
A greve é sempre grave
se a negociação entra em entrave
do oprimido é um grito, o que resta é o atrito
contra a social repressão, contra a nefasta mídia
contra tal opressão, sociedade de conflito
classe dominante, que atrasa a nação, que arrasa a nação
que não reparte o bolo nem o pão
querem combater a inflação
tirando do proletário o suado pão
diminuindo o consumo, punindo o trabalhador
assim o trabalhador não tem outro rumo, não tem outra arma
decreta a greve para horror dos monstros exploradores, que exploram com dores
da economia cheia de desencontros
do trabalhador é um arrojo
para fragmentar o arrocho
o arrocho do salário
fruto de salafrários
enquanto bancos tem grandes lucros
querem engana o trabalhador
chamando-o de colaborador
achando que ele não pensa e é xucro
que por trinta moedas trai
do trabalhador grana subtrai
com muita coragem se sobressai
digladiando contra as mentiras da mídia
de dia de noite e no sol de meio-dia
que mostra a verdade em cada canto da nação
em versos em prosas ou crônicas que saem do coração
porém o Brasil é grande
construído pelo operário, pelo agricultor
trabalhador que fez dele um gigante
através de um labor diário
gente negra, amarela e branca
batalhando em todos os flancos
que em uma luta franca
aos trancos e barrancos
no comércio, nas fábricas
nas escolas, nos campos, nas praças,
com um só intento, com um coração, mesmo com lástimas
soldados sem patentes, armados e bem valentes.
AMARILDO CAETANO
Carteiro de Cotia-SP
sexta-feira, 22 de maio de 2026
Uma fotografia de Alfredo Cunha - José Carlos Barros
Uma fotografia de Alfredo Cunha
Ambos têm as espingardas
a prolongar o corpo, um deles
está deitado no alinhamento
da guia do passeio, o outro
com um joelho no asfalto,
mas a um dos soldados não se vê
o rosto, virou-se à curiosidade
da criança que se baixou
para falar com ele, para saber
se a arma dispara balas
verdadeiras, imagine-se
uma revolução em que as
crianças andam nas ruas
a perguntar aos soldados
como funcionam as espingardas
e a quererem saber se as espingardas
disparam balas verdadeiras.
Os adultos têm os olhares
desencontrados, num dos
extremos do enquadramento
há um homem a olhar
na direcção do passado
como se os seus próprios
olhos lá ficassem, no outro extremo
há um homem a olhar o futuro
como se os seus olhos
fossem incapazes de lá ir,
mas só as crianças
interessam, as crianças
que olham os soldados ou
conversam com eles,
é aí que tudo se decide,
as crianças são quatro,
os soldados são dois,
imaginem uma revolução
rm que há mais crianças nas ruas
do que soldados armados.
terça-feira, 19 de maio de 2026
OS NOMES NOVOS - Inês Lourenço
OS NOMES NOVOS
Na primeira manhã da revolução
todos os nomes mudaram. As tuas mãos
eram pássaros os teus braços asas
os teus lábios átrios de canções que sobrevoavam
alegrias irrecusáveis. Os milagres sucediam-se
sem qualquer comando divino. Os desapossados
de tudo eram providos da maior esperança. As flores
não murcharam. Os peixes multiplicavam-se
na brasa diária dos afectos. Nas manhãs seguintes.
acordávamos sempre à espera da queda
de mais um velho costume repressivo. A garganta
habitava todas as palavras que lutavam
contra os velhos saberes quantitativos
que só perguntavam quantos dólares tem um lucro
ou quantos litros tem um almude. Trocámos o nome
das praças das pontes e das avenidas. Levantámos
as cabeças curvadas com vozes ao alto. A Utopia
do Bem e da Equidade invadia-nos o peito
e nenhuma morte se atrevia a silenciar
este novo país contaminado de Futuro.
Inês Lourenço