
A Liberdade
Não chores quando os malditos
Dançarem sobre o túmulo da tua liberdade
Faz-lhes crer que o caixão está vazio
LA LIBERTAD
No llores cuando los malditos
Dancen sobre la tumba de tu libertad
Hazles creer que el ataúd está vacío

A Liberdade
Não chores quando os malditos
Dançarem sobre o túmulo da tua liberdade
Faz-lhes crer que o caixão está vazio
LA LIBERTAD
No llores cuando los malditos
Dancen sobre la tumba de tu libertad
Hazles creer que el ataúd está vacío

OFÍCIO
Tatear a origem
é iludir-se.
O escrito, à mercê
do que foi dito,
inaugura outro país.
O que se dá nos mapas
em forma
de província, urbe
& melhorias
não é senão um caco
de palavra.
A origem ressona
grave,
sem nação ou pacto.
Há quem a leve
no bolso, em crimes
que nos deserdam.
Outros a curtem sob a
forma
de bois de aluguel.
Ou a costuram em óleos
santos.
Mas há os ferinos e seu
humour
que tira o minério
das conchas.
Por eles a origem despista
rendas, misérias
e outros benefícios.
Pela origem
somos-não-somos.
Espécie que escreve
para esquecer.

Clodinho Gomes 2026 Lula Lá (Lula 1989)
Lula Lá
Passa o tempo e tanta gente a trabalhar
De repente, essa clareza pra votar
Quem sempre foi sincero e confiar
Sem medo de ser feliz, quero ver chegar
Lula lá, brilha uma estrela
Lula lá, cresce a esperança
Lula lá, o Brasil criança
Na alegria de se abraçar
Lula lá, com sinceridade
Lula lá, com toda a certeza
Pra você, meu primeiro voto
Pra fazer brilhar nossa estrela
Lula lá, é a gente junto
Lula lá, valeu a espera
Lula lá, meu primeiro voto
Pra fazer brilhar nossa estrela

Victor SEGALEN
Uma das «Estelas» de Victor Segalen, intitulada «Libation Mongole»,* fala de um guerreiro inimigo aprisionado no final de uma batalha a quem, por se ter batido com grande coragem, é proposto que se passe para o lado dos vencedores. É um texto admirável sobre lealdade e a inteireza de carácter:
«Cortámos-lhe as pernas pelos joelhos […]. Cortámos-lhe os braços […]. Fendemos-lhe a boca de orelha a orelha: com o olhar, continuou a dizer-nos que permanecia fiel.
Não lhe espetemos os olhos como se faz aos cobardes. Em vez disso, cortemos-lhe respeitosamente a cabeça, derramemos o koumys dos bravos, & esta libação:
Quando renasceres, Tch’en Houo-chang, dá-nos a honra de renascer entre nós.»
Primeiro parágrafo do depoimento de Manuel António Pina sobre Álvaro Cunhal no livro ‘Retratos de Álvaro Cunhal’ de José da Cruz Santos, editado pela Afrontamento.
Libation Mongole*
C'est ici que nous l'avons pris vivant. Comme il se battait bien nous lui offrîmes du service : il préféra servir son Prince dans la mort.
Nous avons coupé ses jarrets : il agitait les bras pour témoigner son zèle. Nous avons coupé ses bras : il hurlait de dévouement pour Lui.
Nous avons fendu sa bouche d'une oreille à l'autre : il a fait signe, des yeux, qu'il restait toujours fidèle.
Ne crevons pas ses yeux comme au lâche; mais tranchant sa tête avec respect, versons le koumys des braves, et cette libation :
Quand tu renaîtras, Tch'en Houo-chang fais-nous l'honneur de renaître chez nous.

No bar da esquina
No outro dia estava no bar da esquina tomando uma cerveja
enquanto assistia pela enésima vez ao maravilhoso
golo de Maradona contra os ingleses/
na mesa ao lado
alguém disse:
- olha aquele negro a finta que ele fez -
- o queres/ há que ser duro e tomar a bola para vencer
- e além disso criou fama em todo mundo com a camisa do Che/ que vergonha! -
- outro filho da puta esse desgraçado/ felizmente que o liquidaram
- os soldados deviam voltar - disse outro
- se é assim que rebentem com esse drogado negro/ como liquidam os terroristas -
- sim/ temos que os matar/ assim não falam mais -.
Engoli o gole de cerveja mais quente que já tomei na minha vida.
e eu olhei preocupado para trás.
Achei que tinha descoberto um conluio terrorista-muçulmano
ou um grupo de mercenários implacáveis preparando um assassinato
no antigo bar do meu bairro
mas estava errado.
Eram quatro senhores muito elegantes de casaco e gravata
com carros caros e alarmes que assustam quem se aproxima
tomando café no bar proibido da minha infância.
Eram quatro típicos burgueses argentinos
esses respeitados homens de bem
membros da maravilhosa classe média argentina/
essa que nos diferencia do resto da América Latina.
Eram quatro senhores com ar preocupado
com os graves problemas do país
resolvendo os males do nosso povo.
Rapazes/ isto não é um poema/ longe disso
isto é um grito de alarme
no querido bar do meu bairro
há quatro tipos
preparando um assassinato.
En el bar de la esquina
El otro día estaba en el bar de la esquina tomando una cerveza
mientras veía por enésima maravillosa vez
el gol de Maradona a los ingleses/
entonces en la mesa de al lado
alguien dijo:
- miralo a ese negro villero la guita que hizo -
- y que querés/ hay que ser bruto y pegarle a una pelota para triunfar -
- y encima se floreó por el mundo con la camiseta del Che/ que vergüenza! -
- otro hijo de puta ese desgraciado/ menos mal que lo liquidaron -
- deberían volver los milicos - dijo otro
- si así revientan a este negro drogón/ como reventaron a los terroristas -
- sí/ hay que matarlo/ así no habla más -.
Yo tragué el sorbo de cerveza más caliente que haya tomado en mi vida
y miré preocupado hacia el costado
pensé que había descubierto una confabulación terrorista-musulmana
o a un grupo de mercenarios despiadados preparando un asesinato
en el viejo bar de mi barrio
pero me equivoqué.
Eran cuatro señores muy elegantes de saco y corbata
con autos caros y alarmas que espantan a los que se acercan
tomando café en el bar prohibido de mi infancia.
Eran cuatro típicos burgueses argentinos
esos respetados hombres de bien
integrantes de la maravillosa clase media argentina/
ésa que nos ha diferenciado siempre/ del resto de Latinoamérica.
Eran cuatro señores con cara de tipos preocupados
por los graves problemas del país
arreglando los males de nuestro pueblo.
Muchachos/ esto no es un poema/ ni mucho menos
esto es un grito de alarma
en el querido bar de mi barrio
hay cuatro tipos
preparando un magnicidio.