segunda-feira, 15 de junho de 2026

Antonio Orihuela - OS DEZ MANDAMENTOS

OS DEZ MANDAMENTOS

para Miguel Hernándea Alepuz e as

Associações de Ateus e Livre-Pensadores

 

Se és um Estado de opereta, habitual colaborador e

apoiante de ditaduras fascistas.

 

Amarás a Deus sobre todas as coisas.

 

Se impões programas e diriges os partidos políticos

e te metes nas escolas

para falar de amigos imaginários

a enganá-los e suborná-los em adoração servil

para que acendam às nossas e súplicas.

 

Não dirás o nome de Deus em vão.

 

Se justificas o sexo, drogas e sevilhaneio

como celebrações religiosas.

 

Santificarás as festas.

 

Se doutrinas com conselheiros morais e diretores

espirituais

através de seitas destrutivas

como Opus Dei, Kikos, ou Legionários de Cristo-Rei.

 

Honrarás teu pai e tua mãe.

 

Se és acionista de Beretta,

a empresa italiana de armas curtas

mais importante do mundo.

 

Não matarás.

 

Se sendo o maior clube de pederastas do mundo

dás lições de sexualidade, descriminas por género

e excluis os homossexuais.

 

Não cometerás actos impuros.

 

Se declaras como esmolas os teus rendimentos para não

pagares impostos.

 

Não roubarás.

 

Se justificas o teu poder económico e a tua influência

cultural

dizendo que a Espanha é católica

embora contes apenas 14% de praticantes.

 

Não dirás falsos testemunhos.

 

Se és principal accionista

da farmacêutica que fabrica o Viagra.

 

Não consentirás pensamentos nem desejos impuros.

 

Se vives num paraíso fiscal, tens três SICAV,

recebes do Estado mais de onze milhões de euros

e ainda te queixas.

 

Não cobiçarás os bens alheios.

 

Estes dez mandamentos resumem-se a dois:

amar o dinheiro sobre todas as coisas

e o próximo sempre que seja menor.


Antonio Orihuela


Antonio Orihuela - Viquipèdia, l'enciclopèdia lliure

(Espanha, 1965 - )

In "Sem Fim"

(Antologia Pessoal)

(Tradução de Carlos D`Abreu e Albino Matos)

(do blog ‘ajuda-me a ver e a ler’)

 

 

sábado, 13 de junho de 2026

António Ramos Rosa De ‘Retratos de Álvaro Cunhal’

Foto de Luís de Raziel

«De uma coerência exemplar, Álvaro Cunhal, como político e, particularmente, no âmbito de secretário-geral do Partido Comunista, nunca traiu os valores pelos quais lutou durante toda a sua vida em defesa dos trabalhadores contra a ditadura fascista.

Além disso, como artista, escritor e homem de uma coragem e rectidão invulgares, impõe-se à admiração e respeito dos cidadãos conscientes, acima de quaisquer divergências.»

António Ramos Rosa

De ‘Retratos de Álvaro Cunhal’ Edições Afrontamento

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Pier Paolo Pasolini -Eu sou uma força do Passado.

Ver e ouvir»» https://youtu.be/_1-YsnH3KSY?si=SYBRsHgs63tCYerp

Orson Welles (que faz o papel de diretor de cinema no filme La Ricotta de Pier Paolo Pasolini) lê o poema de Pasolini a um jornalista. Episódio do filme coletivo Relações Humanas de Roberto Rossellini, Jean-Luc Godard, Pier Paolo Pasolini e Ugo Gregoretti. Em La Ricotta Stracci representa um personagem icônico da fome do terceiro mundo, num jogo de metalinguagem, no qual um diretor marxista (Orson Welles) realiza um filme na periferia de Roma baseado na Paixão de Cristo.

Este é o icónico poema "A Força do Passado" ("Io sono una forza del Passato"), escrito em 1964 por Pier Paolo Pasolini. Ele descreve-se como um "feto adulto" e um "monstro":

Eu sou uma força do Passado

Eu sou uma força do Passado.

Só na tradição está o meu amor.

Venho das ruínas, das igrejas,

Dos retábulos, das aldeias

Abandonadas sobre os Apeninos e os Pré-alpes

Onde viveram os irmãos.

Percorro a Tuscolana como um doido,

Pela Ápia como um cão sem dono.

Tanto contemplo o crepúsculo, a aurora

Sobre Roma, sobre a Ciociaria, sobre o mundo

Como os primeiros actos da Pós-memória

A que assisto, por privilégio censitário

Da orla extrema de qualquer idade

Sepulta. Monstruoso quem é nascido

De vísceras de mulher morta.

E eu, feto adulto, cirando,

O mais moderno de todos os modernos,

Procurando irmãos que o não são mais.

 Pier Paolo Pasolini

Pier Paolo Pasolini in Poesia in forma di rosa

versão de Manuel Anastácio

Io sono una forza del Passato

Pier Paolo Pasolini

Io sono una forza del Passato.
Solo nella tradizione è il mio amore.
Vengo dai ruderi, dalle chiese,
dalle pale d’altare, dai borghi
abbandonati sugli Appennini o le Prealpi,
dove sono vissuti i fratelli.
Giro per la Tuscolana come un pazzo,
per l’Appia come un cane senza padrone.
O guardo i crepuscoli, le mattine
su Roma, sulla Ciociaria, sul mondo,
come i primi atti della Dopostoria,
cui io assisto, per privilegio d’anagrafe,
dall’orlo estremo di qualche età
sepolta. Mostruoso è chi è nato
dalle viscere di una donna morta.
E io, feto adulto, mi aggiro
più moderno di ogni moderno
a cercare fratelli che non sono più.

 

terça-feira, 9 de junho de 2026

A terra é nossa - Patativa do Assaré

 

A terra é nossa

A terra é um bem comum
Que pertence a cada um.
Com o seu poder além,
Deus fez a grande Natura
Mas não passou escritura
Da terra para ninguém.

Se a terra foi Deus quem fez,
Se é obra da criação,
Deve cada camponês
Ter uma faixa de chão.

Quando um agregado solta
O seu grito de revolta,
Tem razão de reclamar.
Não há maior padecer
Do que um camponês viver
Sem terra pra trabalhar.

O grande latifundiário,
Egoísta e usurário,
Da terra toda se apossa
Causando crises fatais
Porém nas leis naturais
Sabemos que a terra é nossa.”

Patativa do Assaré


domingo, 7 de junho de 2026

Ano Novo (Esperança) - Mario Quintana

Uma imagem com pessoa, Cara humana, ruga, Idoso

Descrição gerada automaticamente

 Ano Novo (Esperança)

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso voo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança…
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA…

Mario Quintana