sábado, 31 de outubro de 2026

OFÍCIO - Edimilson de Almeida Pereira

2 Poemas de Edimilson de Almeida Pereira – Revista Acrobata

OFÍCIO

 

Tatear a origem

é iludir-se.

 

O escrito, à mercê

do que foi dito,

inaugura outro país.

 

O que se dá nos mapas

em forma

de província, urbe

& melhorias

 

não é senão um caco

de palavra.

 

A origem ressona

grave,

sem nação ou pacto.

Há quem a leve

 

no bolso, em crimes

que nos deserdam.

 

Outros a curtem sob a

forma

de bois de aluguel.

 

Ou a costuram em óleos

santos.

 

Mas há os ferinos e seu

humour

que tira o minério

das conchas.

 

Por eles a origem despista

rendas, misérias

e outros benefícios.

 

Pela origem

somos-não-somos.

Espécie que escreve

para esquecer.

 

Edimilson de Almeida Pereira

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

A música e a luta

 

           Clodinho Gomes 2026                 Lula Lá (Lula 1989)

Aqui                     Aqui

Lula Lá

Passa o tempo e tanta gente a trabalhar
De repente, essa clareza pra votar
Quem sempre foi sincero e confiar
Sem medo de ser feliz, quero ver chegar

Lula lá, brilha uma estrela
Lula lá, cresce a esperança
Lula lá, o Brasil criança
Na alegria de se abraçar

Lula lá, com sinceridade
Lula lá, com toda a certeza
Pra você, meu primeiro voto
Pra fazer brilhar nossa estrela

Lula lá, é a gente junto
Lula lá, valeu a espera
Lula lá, meu primeiro voto
Pra fazer brilhar nossa estrela

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

CONVERSA COM DRUMMOND - Leonardo Almeida Filho

 

CONVERSA COM DRUMMOND

Não havia pedra
no meio
do caminho, Carlos.

Havia, sim, o caminho,
o medo,
(suas possibilidades)
e a terrível sensação
da pedra
ali no meio.

E de repente, meu poeta,
percebemos,
fatigados,
por trás das retinas,
que
a pedra
sempre fomos nós.

Leonardo Almeida Filho

 

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Libation Mongole - Victor SEGALEN

File:Portrait de Victor Segalen, 1909.jpg - Wikimedia Commons

    Victor SEGALEN 

Uma das «Estelas» de Victor Segalen, intitulada «Libation Mongole»,* fala de um guerreiro inimigo aprisionado no final de uma batalha a quem, por se ter batido com grande coragem, é proposto que se passe para o lado dos vencedores. É um texto admirável sobre lealdade e a inteireza de carácter:

«Cortámos-lhe as pernas pelos joelhos […]. Cortámos-lhe os braços […]. Fendemos-lhe a boca de orelha a orelha: com o olhar, continuou a dizer-nos que permanecia fiel.

Não lhe espetemos os olhos como se faz aos cobardes. Em vez disso, cortemos-lhe respeitosamente a cabeça, derramemos o koumys dos bravos, & esta libação:

Quando renasceres, Tch’en Houo-chang, dá-nos a honra de renascer entre nós.»

Primeiro parágrafo do depoimento de Manuel António Pina sobre Álvaro Cunhal no livro ‘Retratos de Álvaro Cunhal’ de José da Cruz Santos, editado pela Afrontamento.

Libation Mongole*

C'est ici que nous l'avons pris vivant. Comme il se battait bien nous lui offrîmes du service : il préféra servir son Prince dans la mort.

Nous avons coupé ses jarrets : il agitait les bras pour témoigner son zèle. Nous avons coupé ses bras : il hurlait de dévouement pour Lui.

Nous avons fendu sa bouche d'une oreille à l'autre : il a fait signe, des yeux, qu'il restait toujours fidèle.

Ne crevons pas ses yeux comme au lâche; mais tranchant sa tête avec respect, versons le koumys des braves, et cette libation :

Quand tu renaîtras, Tch'en Houo-chang fais-nous l'honneur de renaître chez nous.

Victor SEGALEN

sábado, 24 de outubro de 2026

No bar da esquina - Aldo Luís Novelli

...

No bar da esquina

No outro dia estava no bar da esquina tomando uma cerveja

enquanto assistia pela enésima vez ao maravilhoso

golo de Maradona contra os ingleses/

na mesa ao lado

alguém disse:

- olha aquele negro a finta que ele fez -

- o queres/ há que ser duro e tomar a bola para vencer

- e além disso criou fama em todo mundo com a camisa do Che/ que vergonha! -

- outro filho da puta esse desgraçado/ felizmente que o liquidaram

- os soldados deviam voltar - disse outro

- se é assim que rebentem com esse drogado negro/ como liquidam os terroristas -

- sim/ temos que os matar/ assim não falam mais -.

 

Engoli o gole de cerveja mais quente que já tomei na minha vida.

e eu olhei preocupado para trás.

Achei que tinha descoberto um conluio terrorista-muçulmano

ou um grupo de mercenários implacáveis ​​preparando um assassinato

no antigo bar do meu bairro

mas estava errado.

 

Eram quatro senhores muito elegantes de casaco e gravata

com carros caros e alarmes que assustam quem se aproxima

tomando café no bar proibido da minha infância.

Eram quatro típicos burgueses argentinos

esses respeitados homens de bem

membros da maravilhosa classe média argentina/

essa que nos diferencia do resto da América Latina.

Eram quatro senhores com ar preocupado

com os graves problemas do país

resolvendo os males do nosso povo.

 

Rapazes/ isto não é um poema/ longe disso

isto é um grito de alarme

no querido bar do meu bairro

há quatro tipos

preparando um assassinato.

Aldo Luís Novelli

En el bar de la esquina

El otro día estaba en el bar de la esquina tomando una cerveza

mientras veía por enésima maravillosa vez

el gol de Maradona a los ingleses/

entonces en la mesa de al lado

alguien dijo:

- miralo a ese negro villero la guita que hizo -

- y que querés/ hay que ser bruto y pegarle a una pelota para triunfar -

- y encima se floreó por el mundo con la camiseta del Che/ que vergüenza! -

- otro hijo de puta ese desgraciado/ menos mal que lo liquidaron -

- deberían volver los milicos - dijo otro

- si así revientan a este negro drogón/ como reventaron a los terroristas -

- sí/ hay que matarlo/ así no habla más -.

 

Yo tragué el sorbo de cerveza más caliente que haya tomado en mi vida

y miré preocupado hacia el costado

pensé que había descubierto una confabulación terrorista-musulmana

o a un grupo de mercenarios despiadados preparando un asesinato

en el viejo bar de mi barrio

pero me equivoqué.

 

Eran cuatro señores muy elegantes de saco y corbata

con autos caros y alarmas que espantan a los que se acercan

tomando café en el bar prohibido de mi infancia.

Eran cuatro típicos burgueses argentinos

esos respetados hombres de bien

integrantes de la maravillosa clase media argentina/

ésa que nos ha diferenciado siempre/ del resto de Latinoamérica.

Eran cuatro señores con cara de tipos preocupados

por los graves problemas del país

arreglando los males de nuestro pueblo.

 

Muchachos/ esto no es un poema/ ni mucho menos

esto es un grito de alarma

en el querido bar de mi barrio

hay cuatro tipos

preparando un magnicidio.