sexta-feira, 19 de junho de 2026

Prometeu - Johann Wolfgang von Goethe

  

Prometeu

Encobre, ó Zeus!
o céu com suas nuvens.
E como o jovem
que gosta de colher
cardos no campo, em teu poder conserva
o robusto carvalho e o alto cume
da espaçosa montanha.
Mas consente que eu use
essa terra que é minha,
esse abrigo que eu fiz,
e esta forja que quando faço arder,
tu, no Olimpo, me invejas.

Nada mais pobre eu conheci, ó deuses
do que vós próprios.
Apenas vos nutris
de sacrifícios
e de preces,
dedicados a vossa majestade.
Morreríeis de fome se não fossem
as crianças, os loucos, os mendigos
que vivem de ilusões.

Quando eu era menino
e nada conhecia,
ao sol se erguiam meus sentidos olhos
como se lá houvesse
ouvidos que escutassem meus lamentos,
e um coração tivesse igual ao meu
capaz de consolar a minha angústia.

E quem contra insolência
da turba dos titãs me auxiliou?
Quem me salvou da morte
e me impediu a escravidão?
Não foste tu meu coração somente
ardendo numa chama inextinguível?
Jovem e  ingénuo eu tudo agradecia
àquele que no céu
dorme na ociosidade.

Como prestar-te honra? Mas porquê?
Deste jamais alívio
aos oprimidos?
Já enxugaste as lágrimas
dos que são infelizes?
Formei um homem,
mas um homem afinal que só se curva
perante o Tempo e o Fado
que são tão, meus senhores, como teus

Pensaste tu talvez
que poderia desprezar a vida
e ao deserto fugir
porque nem todos
os meus sonhos floriram?

Aqui estou.
Homens faço segundo a minha imagem,
Homens que serão logo iguais a mim.
Divertem-se e padecem,
gozam e choram
mas não se renderão aos poderosos
como também eu nunca me rendi!

 Johann Wolfgang von Goethe

Edmundo Moniz – Poemas da Liberdade
Uma Antologia Poética de Dante a Brecht
Editora Civilização Brasileira


segunda-feira, 15 de junho de 2026

Antonio Orihuela - OS DEZ MANDAMENTOS

OS DEZ MANDAMENTOS

para Miguel Hernándea Alepuz e as

Associações de Ateus e Livre-Pensadores

 

Se és um Estado de opereta, habitual colaborador e

apoiante de ditaduras fascistas.

 

Amarás a Deus sobre todas as coisas.

 

Se impões programas e diriges os partidos políticos

e te metes nas escolas

para falar de amigos imaginários

a enganá-los e suborná-los em adoração servil

para que acendam às nossas e súplicas.

 

Não dirás o nome de Deus em vão.

 

Se justificas o sexo, drogas e sevilhaneio

como celebrações religiosas.

 

Santificarás as festas.

 

Se doutrinas com conselheiros morais e diretores

espirituais

através de seitas destrutivas

como Opus Dei, Kikos, ou Legionários de Cristo-Rei.

 

Honrarás teu pai e tua mãe.

 

Se és acionista de Beretta,

a empresa italiana de armas curtas

mais importante do mundo.

 

Não matarás.

 

Se sendo o maior clube de pederastas do mundo

dás lições de sexualidade, descriminas por género

e excluis os homossexuais.

 

Não cometerás actos impuros.

 

Se declaras como esmolas os teus rendimentos para não

pagares impostos.

 

Não roubarás.

 

Se justificas o teu poder económico e a tua influência

cultural

dizendo que a Espanha é católica

embora contes apenas 14% de praticantes.

 

Não dirás falsos testemunhos.

 

Se és principal accionista

da farmacêutica que fabrica o Viagra.

 

Não consentirás pensamentos nem desejos impuros.

 

Se vives num paraíso fiscal, tens três SICAV,

recebes do Estado mais de onze milhões de euros

e ainda te queixas.

 

Não cobiçarás os bens alheios.

 

Estes dez mandamentos resumem-se a dois:

amar o dinheiro sobre todas as coisas

e o próximo sempre que seja menor.


Antonio Orihuela


Antonio Orihuela - Viquipèdia, l'enciclopèdia lliure

(Espanha, 1965 - )

In "Sem Fim"

(Antologia Pessoal)

(Tradução de Carlos D`Abreu e Albino Matos)

(do blog ‘ajuda-me a ver e a ler’)

 

 

sábado, 13 de junho de 2026

António Ramos Rosa De ‘Retratos de Álvaro Cunhal’

Foto de Luís de Raziel

«De uma coerência exemplar, Álvaro Cunhal, como político e, particularmente, no âmbito de secretário-geral do Partido Comunista, nunca traiu os valores pelos quais lutou durante toda a sua vida em defesa dos trabalhadores contra a ditadura fascista.

Além disso, como artista, escritor e homem de uma coragem e rectidão invulgares, impõe-se à admiração e respeito dos cidadãos conscientes, acima de quaisquer divergências.»

António Ramos Rosa

De ‘Retratos de Álvaro Cunhal’ Edições Afrontamento

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Pier Paolo Pasolini -Eu sou uma força do Passado.

Ver e ouvir»» https://youtu.be/_1-YsnH3KSY?si=SYBRsHgs63tCYerp

Orson Welles (que faz o papel de diretor de cinema no filme La Ricotta de Pier Paolo Pasolini) lê o poema de Pasolini a um jornalista. Episódio do filme coletivo Relações Humanas de Roberto Rossellini, Jean-Luc Godard, Pier Paolo Pasolini e Ugo Gregoretti. Em La Ricotta Stracci representa um personagem icônico da fome do terceiro mundo, num jogo de metalinguagem, no qual um diretor marxista (Orson Welles) realiza um filme na periferia de Roma baseado na Paixão de Cristo.

Este é o icónico poema "A Força do Passado" ("Io sono una forza del Passato"), escrito em 1964 por Pier Paolo Pasolini. Ele descreve-se como um "feto adulto" e um "monstro":

Eu sou uma força do Passado

Eu sou uma força do Passado.

Só na tradição está o meu amor.

Venho das ruínas, das igrejas,

Dos retábulos, das aldeias

Abandonadas sobre os Apeninos e os Pré-alpes

Onde viveram os irmãos.

Percorro a Tuscolana como um doido,

Pela Ápia como um cão sem dono.

Tanto contemplo o crepúsculo, a aurora

Sobre Roma, sobre a Ciociaria, sobre o mundo

Como os primeiros actos da Pós-memória

A que assisto, por privilégio censitário

Da orla extrema de qualquer idade

Sepulta. Monstruoso quem é nascido

De vísceras de mulher morta.

E eu, feto adulto, cirando,

O mais moderno de todos os modernos,

Procurando irmãos que o não são mais.

 Pier Paolo Pasolini

Pier Paolo Pasolini in Poesia in forma di rosa

versão de Manuel Anastácio

Io sono una forza del Passato

Pier Paolo Pasolini

Io sono una forza del Passato.
Solo nella tradizione è il mio amore.
Vengo dai ruderi, dalle chiese,
dalle pale d’altare, dai borghi
abbandonati sugli Appennini o le Prealpi,
dove sono vissuti i fratelli.
Giro per la Tuscolana come un pazzo,
per l’Appia come un cane senza padrone.
O guardo i crepuscoli, le mattine
su Roma, sulla Ciociaria, sul mondo,
come i primi atti della Dopostoria,
cui io assisto, per privilegio d’anagrafe,
dall’orlo estremo di qualche età
sepolta. Mostruoso è chi è nato
dalle viscere di una donna morta.
E io, feto adulto, mi aggiro
più moderno di ogni moderno
a cercare fratelli che non sono più.