REGRESSO
Pátria magra - meu corpo figurado...
Meu pobre Portugal de pele e osso!
Nada na tua imagem se alterou:
A casca e o caroço
Dum sonho que mirrou...
REGRESSO
Pátria magra - meu corpo figurado...
Meu pobre Portugal de pele e osso!
Nada na tua imagem se alterou:
A casca e o caroço
Dum sonho que mirrou...
Absurdo
[01.09.1987]
De longe de
muito longe ouço um toque de jazz
De longe de
muito longe ouço um acordo de paz
De jazz se
é coerente
De paz se é
concernente
De longe
muito longe ouço notícia de ontem
No mundo o
que aconteceu?
Nasceu um
ser humano, enquanto outro morreu.
De longe de
muito longe ouço um pedido de trégua
Mas por
aqui só há guerra
O que foi
mesmo que ouvi?
De longe
muito longe ouço ruído de risos
Mas por
aqui, só gemidos
Me indicam
o que há de concreto
O jazz
continua pelo espaço
Em sons de
cordas em acordes
Os acordos
não concluíram, estancaram
Que entre
risos e gemidos permaneça o
Som
vigoroso do jazz
Em
intervalos de paz
TRAGO O PEITO MOLHADO
Trago o peito molhado
Das chuvas das torrentes
que a vida sobre nós tem derramado
Cerro os punhos digo
por mais que sofras
fica sempre o mar.
(1928 - 2025) In "Poemas"
Poema da
interrogação
Deus abençoou o sétimo dia e
santificou-o, visto ter sido nesse
dia que Ele repousou de toda a
obra da criação.
Génesis
Deus de tudo e do nada, se existes,
uno e trino, suprema omnisciência,
trabalhaste seis dias e resistes
impassível no céu, com paciência;
se em vez da criação numa semana
tivesses operado um mês a eito
e moldasses o barro com mais gana
e fizesses um mundo mais perfeito;
(repara, por exemplo, vê o homem
que se diz ser à tua semelhança
e que mata e devasta e cria a fome,
em nome do poder e da abastança);
perdoa-me a pergunta impertinente:
existes como O Ser, ou como ente?
Domingos da Mota
Bolsa de
Valores e Outros Poemas, edição: Temas Originais, Lda., Coimbra,
201
NOVAS SUGESTÕES
De que covil fugiram os tiranos da Terra?
Nero incendiou Roma duas vezes e compôs
depois uma melodia dissonante
E tocou-a até que a cidade cantasse com
ele.
Hulagu herdou a mesma melodia
Deitou fogo às bibliotecas deste mundo,
Correu tinta no rio
E das cinzas surgiu a linguagem dos
gafanhotos
Que se levantaram para agradecer ao louco.
Depois das saudações à loucura, veio o
Hitler
Que fez dos mortos barras de sabão;
Mas incapaz de ser aquietado,
Teve de incluir o mar
Na sua destruição vital.
Guerra no mar, agitação em terra,
Combinadas na sua terrível combustão
Também eu vi um tirano -
Com poder menor ao dos outros três.
Cometeu todas a barbárie,
Continua: no seu tempo
Foram cinco os poetas
Que levou ao silêncio.
AHMED DAHBUR
Este poema foi inspirado pela morte de um amigo e camarada do poeta, Muhammad Najib Abu Rayya, que morreu
numa explosão que destruiu um edifício de nove andares
em Fakhani, uma zona de Beirute Ocidental habitada
principalmente por palestinos. Abu Rayya foi morto
conjuntamente com a mulher e os oito filhos. Era sapateiro e
ofereceu muitos sapatos aos combatentes e aos pobres.
Por trás do seu riso sarcástico carregava a memória de sete
anos perdidos na prisão quando era jovem, por causa do
seu combate político
AHMED DAHBUR (1946)
Nasceu em Haifa, em 1946, mas viveu no exílio desde
1948. Trabalhou como editor político
na Agência de Radiodifusão Palestina na Síria. Foi
também repórter do Jornal do Fatah e
editor-chefe do Tunis Magazine. Regressou à Palestina
para trabalhar no Ministério da
Cultura. Devido a razões de ordem material não recebeu
uma educação académica mas é
um leitor voraz. A sua poesia, de grande
sensibilidade, é dedicada à causa palestina.
Publicou diversas colectâneas de poesia e foi
galardoado com o Prémio Palestino de Poesia
1998.
A Idade de Ser Feliz
Existe somente uma idade para a gente ser
feliz,
somente uma época na vida de cada pessoa
em que é possível sonhar e fazer planos
e ter energia bastante para realizá-las
a despeito de todas as dificuldades e
obstáculos.
Uma só idade para a gente se encantar
com a vida e viver apaixonadamente
e desfrutar tudo com toda intensidade
sem medo, nem culpa de sentir prazer.
Fase dourada em que a gente pode criar e
recriar a vida,
a nossa própria imagem e semelhança
e vestir-se com todas as cores
e experimentar todos os sabores
e entregar-se a todos os amores
sem preconceito nem pudor.
Tempo de entusiasmo e coragem
em que todo o desafio é mais um convite à
luta
que a gente enfrenta com toda disposição
de tentar algo novo, de novo e de novo
e quantas vezes for preciso.
Essa idade tão fugaz na vida da gente
chama-se presente
e tem a duração do instante que passa
Geraldo
Eustáquio de Souza (Letícia Lanz)
(fragmento)
Terceiro:
(e aqui começa, talvez, o desembróglio)
vi também um vapor que ia para
o Barreiro
e tive pena de não ir com ele
mas não sou um proletário (não,
ainda não)
e atravessar a nado – quem é
que disse que pode?
Fiquei-me a vê-lo: primeiro
junto ao cais
com um certo ar simpático de
proletário dos mares
e apinhado de gente – tanta
espécie dela!
Depois a meio do rio, destacado
e nítido,
depois um ponto vago no
horizonte (ó minha angústia!)
ponto cada vez mais vago no
horizonte
e de repente, ao virar uma
esquina, já depois de outra esquina,
vejo uma nova espécie de
enforcado
um homem novo em cima de um
escadote
a colar afixar cartazes deste
género:
VOTA POR SALAZAR
Paro. Paro de novo. Pararei
sempre enquanto
afixarem cartazes deste género.
Curioso, curiosíssimo este
género.
Um chefe não é grande pelo nome
que arranjou.
Salazar Xavier Francisco da
Cunha Altinho isso que importa.
Um chefe é grande pelas suas
obras, pelo amor que inspira.
Pois os fascistas os nossos
bons fascistas
querem que a gente vote por um
nome
por um nome calcula essa coisa
qualquer que qualquer fulano tem!
Vota por Salazar ora pois ó meu
povo
vota por sete letras muito bem
arrumadas em três sílabas.
Deito a cabeça para trás para
deixar sair a gargalhada
e aproximo-me do homem em cima
do escadote
aproximo-me tanto que ele nota
alguém que se aproxima
e o braço cai-lhe, grosso, pingando água num balde,
dá os bons dias a este irmão, a este bom irmão que anda a colar cartazes para não morrer de fome!…"
nobilíssima visão; louvor e simplificação de Álvaro de Campos
(fragmento)
O poema inicia-se com dois excertos de Álvaro de
Campos ("Cruzou por mim, veio ter comigo numa rua da baixa" e um
excerto terminal da "Ode Marítima"). O excerto da "Ode"
reaparece perto do final do poema. Ignoro por que razão desapareceu de "Em
louvor e simplificação de Álvaro de Campos" o fecho da sua 1ª edição
(1953), apreendida e destruída pela PIDE. Após a referência ao homem novo,
colando cartazes "Vota por Salazar!", a leitura do disco termina por
"e o braço cai-lhe, grosso, pingando água num balde". Todavia, na
edição primitiva o poema terminava com: "dá os bons dias a este irmão, a
este bom irmão que anda a colar cartazes para não morrer de fome!…"
“Hei-de ser tudo o que eles
querem”
1
Hei-de ser tudo o que eles
querem:
a raiva é toda de eu não ser um espelho
em que mirem com gosto os próprios cornos,
as caudas com lacinhos, e os bigodes
de chibos capripédicos.
Não sou nem sequer imagem.
Mas voz eu sou
que como agulha ou lança ou faca ou espada
mesmo que não dissesse da miséria
de lodo e trampa em que se espojam vis
só porque existe é como uma denúncia.
Hei-de ser tudo, não o sendo. Um dia
– podres na terra ou nos caixões de chumbo
estes zelosos treponemas lusos (1) –
uma outra gente, e limpa, julgará
desta vergonha inominável que é
ter de existir num tempo de canalhas
de um umbigo preso à podridão de impérios
e à lei de mendigar favor dos grandes.
2
De cada vez que um governo
necessita de segredos,
por segurança do Estado
ou para melhor êxito
nas negociações internacionais,
é o mesmo que negar,
como negaram sempre desde que o mundo é mundo,
a liberdade.
Sempre que um povo aceita que o
seu governo,
ainda que eleito com quantas tricas já se sabe,
invoque a lei e a ordem para calar alguém,
como fizeram sempre desde que o mundo é mundo,
nega-se
a liberdade.
Porque, se há algum segredo na
vida pública
que todos não podem saber
é porque alguém, sem saber,
é o preço do negócio feito.
E se há uma ordem e uma lei que não inclua
mesmo que seja o último dos asnos e dos pulhas
e o seu direito a ser como nasceu ou o fizeram,
a liberdade
é uma farsa,
a segurança
é uma farsa,
a ordem é uma farsa,
não há nada que não seja uma farsa,
a mesma farsa representada sempre
desde que o mundo é mundo,
por aqueles que se arrogam ser
empresários dos outros
e nem pagam decentemente
senão aos maus actores.
1)
Treponemas – espécie de protozoários (seres
vivos unicelulares) parasitas,
do
grupo das espiroquetas, que inclui o agente causador da sífilis (Dic. Porto
Editora)