sexta-feira, 10 de julho de 2026

O poema ensina a cair - Eugénio de Andrade

Eugénio de Andrade “Alguns Epitáfios” (1978) – Gira-Discos

O poema ensina a cair

  ·

Em cada fruto a morte amadurece,

deixando inteira, por legado,

uma semente virgem que estremece

logo que o vento a tenha desnudado.

 

Eugénio de Andrade

quarta-feira, 1 de julho de 2026

AGORA - Adão Ventura

AGORA

 

É hora

de amolar a foice

e cortar o pescoço do cão.

 

— Não deixar que ele rosne

nos quintais

da África.

 

        É hora

de sair do gueto/eito

       senzala

e vir para a sala

— nosso lugar é junto ao Sol.

 Adão Ventura

terça-feira, 30 de junho de 2026

Grande Desejo - Adélia Luzia Prado Freitas

 

Uma imagem com Cara humana, pessoa, vestuário, ruga

Descrição gerada automaticamente

Grande Desejo

Não sou matrona, mãe dos Gracos, Cornélia,
sou é mulher do povo, mãe de filhos, Adélia.
Faço comida e como.
Aos domingos bato o osso no prato pra chamar o cachorro
e atiro os restos.
Quando dói, grito ai,
quando é bom, fico bruta,
as sensibilidades sem governo.
Mas tenho meus prantos,
claridades atrás do meu estômago humilde
e fortíssima voz pra cânticos de festa.
Quando escrever o livro com o meu nome
e o nome que eu vou pôr nele, vou com ele a uma igreja,
a uma lápide, a um descampado,
para chorar, chorar, e chorar,
requintada e esquisita como uma dama

Adélia Luzia Prado Freitas

segunda-feira, 29 de junho de 2026

SONETO AOS FILHOS - Fernando Assis Pacheco

Fernando Assis Pacheco e família

 

SONETO AOS FILHOS

Toda a epopeia da família cabe aqui
um avô galego chegado a Portugal rapazinho
outro de ao pé de Aveiro que se meteu
num barco para S. Tomé a fazer cacau

de filhos seus nasci
com este pouco de inútil fantasia
nutrida em solidões nas que me vejo
nu como um bacorinho na pocilga

e como ele indefeso e porém quis
mesmo assim ser mais que o animal
no tutano dos ossos pressentido

não peço nada usai o meu nome
se vos praz lembrai-me
o que for costume

mas livrai-vos do luxo e da soberba

FERNANDO ASSIS PACHECO