sexta-feira, 16 de outubro de 2026

AQUI FICAREMOS - TAWFIQ ZAYYAD

 

AQUI FICAREMOS

Como se fôssemos vinte impossibilidades

Em Lydda, em Ramla, na Galileia

Aqui ficaremos

Como tijolos sobre os vossos peitos

Como lascas de vidro nas vossas gargantas

Como espinhos de um cacto nos vossos olhos

Como uma tempestade de fogo.

Aqui ficaremos

Como um muro sobre os vossos peitos

Lavando preguiçosamente os pratos, no ruído dos bares

Servindo bebidas aos nossos senhores

Esfregando o chão das cozinhas enegrecidas

Para arrancar dos vossos dentes azuis

Uma côdea para os nossos filhos.

 

Aqui ficaremos

Como um pesado muro sobre os vossos peitos

Nós famintos

Que não temos que vestir

Nós vos desafiamos.

Cantamos as nossas canções

Percorremos as ruas violentas com as nossas manifestações de raiva

Enchemos as prisões com dignidade e orgulho

Continuamos a ter filhos

Uma geração revolucionária

Depois de outra

Como se fôssemos vinte impossibilidades

Em Lydda, em Ramla, na Galileia!

Aqui ficaremos

Façam-nos o pior

Nós guardamos a sombra

Da oliveira e da figueira

Nós semeamos as ideias

Qual fermento na massa

Os nossos nervos estão enregelados

Mas o fogo do inferno aquece os nossos corações.

Se tivermos sede

Espremeremos as rochas

Se tivermos fome

Comeremos a terra

Mas nunca partiremos.

O nosso sangue é puro

Mas não o pouparemos.

Aqui temos o nosso passado

O nosso presente

E o nosso futuro

O nosso futuro está atrás de nós.

Como se fôssemos vinte impossibilidades

Em Lydda, em Ramla, na Galileia

Ó raízes vivas agarrem-se firmemente

E penetrem no fundo da terra.

É melhor para o opressor

Refazer as suas contas

Antes que a roda desande

“Para cada acção há uma reacção” – ouçam

O que diz o Livro.

TAWFIQ ZAYYAD

 

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

“A ROSA DE ASFALTO” - Eduardo Alves da Costa

“A ROSA DE ASFALTO”

Somos a geração dos jovens iracundos,
a emergir como cactos de fúria
para mudar a face do tempo.

Antes de ferirmos a carne circundante,
comemos o pão amassado pelas botas
de muitos regimentos
e cozido ao fogo dos fornos crematórios.

Foram precisas inúmeras guerras,
para que trouxéssemos nos olhos
este anseio de feras acuadas.
Mordidos de obuses,
rasgados pelas cercas de arame farpado,
já não temos por escudo
a mentira e o medo.
Sem que os senhores do mundo suspeitassem,
cavamos galerias sob os escombros
e nos irmanamos nas catacumbas do ser.
Nossas mãos se uniram como pétalas
ao cerne da mesma angústia
e uma rosa de asfalto se ergueu
por sobre o horizonte.

E porque há entre nós
um mudo entendimento;
e porque nossos corações
transbordam como taças
nos festins da imaginação;
e porque nossa vontade de gritar é tamanha
que se nos amordaçassem a boca
nosso crânio se fenderia,
não nos deterão!
Ainda que nos ameacem com suas armas sutis,
nós os enfrentaremos,
num derradeiro esplendor.

Em breve, a nota mais aguda
quebrará o instante.
Bateremos com violência contra as portas,
até que a cidade desperte;
e com o riso mais puro,
anunciaremos o advento do Homem.
Porque nossas mãos se uniram como pétalas
ao cerne da mesma angústia,
para que uma rosa de asfalto se erguesse
por sobre o horizonte.

Eduardo Alves da Costa

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Que Força é essa amigo! - Sérgio Godinho

  

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Vi-te a trabalhar o dia inteiro
Construir as cidades pr'ós outros
Carregar pedras, desperdiçar
Muita força p'ra pouco dinheiro
Vi-te a trabalhar o dia inteiro
Muita força p'ra pouco dinheiro

Que força é essa? Que força é essa?
Que trazes nos braços?
Que só te serve para obedecer?
Que só te manda obedecer?
Que força é essa? Amigo
Que força é essa? Amigo

Que te põe de bem com outros
E de mal contigo?
Que força é essa? Amigo
Que força é essa? Amigo
Que força é essa? Amigo

Não me digas que não me compr'endes
Quando os dias se tornam azedos
Não me digas que nunca sentiste
Uma força a crescer-te nos dedos
E uma raiva a nascer-te nos dentes
Não me digas que não me compr'endes

Que força é essa? Que força é essa?
Que trazes nos braços?
Que só te serve para obedecer?
Que só te manda obedecer?
Que força é essa? Amigo
Que força é essa? Amigo

Que te põe de bem com outros
E de mal contigo?
Que força é essa? Amigo
Que força é essa? Amigo
Que força é essa? Amigo

Vi-te a trabalhar o dia inteiro
Construir as cidades pr'ós outros
Carregar pedras, desperdiçar
Muita força p'ra pouco dinheiro
Vi-te a trabalhar o dia inteiro
Muita força p'ra pouco dinheiro

Que força é essa? Que força é essa?
Que trazes nos braços?
Que só te serve para obedecer?
Que só te manda obedecer?
Que força é essa? Amigo
Que força é essa? Amigo

Que te põe de bem com outros
E de mal contigo?
Que força é essa? Amigo
Que força é essa? Amigo
Que força é essa? Amigo
Que força é essa? Amigo

Que força é essa? Amigo
Que força é essa? Amigo
Que força é essa? Amigo
Que força é essa? Amigo

Sérgio Godinho