segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Absurdo - Beatriz Nascimento

 

Absurdo

[01.09.1987]

De longe de muito longe ouço um toque de jazz

De longe de muito longe ouço um acordo de paz

De jazz se é coerente

De paz se é concernente

De longe muito longe ouço notícia de ontem

No mundo o que aconteceu?

Nasceu um ser humano, enquanto outro morreu.

De longe de muito longe ouço um pedido de trégua

Mas por aqui só há guerra

O que foi mesmo que ouvi?

De longe muito longe ouço ruído de risos

Mas por aqui, só gemidos

Me indicam o que há de concreto

O jazz continua pelo espaço

Em sons de cordas em acordes

Os acordos não concluíram, estancaram

Que entre risos e gemidos permaneça o

Som vigoroso do jazz

Em intervalos de paz

Beatriz Nascimento

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

TRAGO O PEITO MOLHADO - António Borges Coelho

 

TRAGO O PEITO MOLHADO

 

Trago o peito molhado

Das chuvas das torrentes

que a vida sobre nós tem derramado

Cerro os punhos digo

por mais que sofras

fica sempre o mar.

 

António Borges Coelho

(1928 - 2025) In "Poemas"

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Poema da interrogação - Domingos da Mota

 

Poema da interrogação

Deus abençoou o sétimo dia e

santificou-o, visto ter sido nesse

dia que Ele repousou de toda a

obra da criação.

 

Génesis


Deus de tudo e do nada, se existes,
uno e trino, suprema omnisciência,
trabalhaste seis dias e resistes
impassível no céu, com paciência;


se em vez da criação numa semana
tivesses operado um mês a eito
e moldasses o barro com mais gana
e fizesses um mundo mais perfeito;


(repara, por exemplo, vê o homem
que se diz ser à tua semelhança
e que mata e devasta e cria a fome,
em nome do poder e da abastança);


perdoa-me a pergunta impertinente:
existes como O Ser, ou como ente?

Domingos da Mota

Bolsa de Valores e Outros Poemas,  edição: Temas Originais, Lda., Coimbra, 201

domingo, 25 de janeiro de 2026

"Novas Sugestões" - Ahmed Dahbur

 

NOVAS SUGESTÕES

De que covil fugiram os tiranos da Terra?

Nero incendiou Roma duas vezes e compôs depois uma melodia dissonante

E tocou-a até que a cidade cantasse com ele.

Hulagu herdou a mesma melodia

Deitou fogo às bibliotecas deste mundo,

Correu tinta no rio

E das cinzas surgiu a linguagem dos gafanhotos

Que se levantaram para agradecer ao louco.

Depois das saudações à loucura, veio o Hitler

Que fez dos mortos barras de sabão;

Mas incapaz de ser aquietado,

Teve de incluir o mar

Na sua destruição vital.

Guerra no mar, agitação em terra,

Combinadas na sua terrível combustão

Também eu vi um tirano -

Com poder menor ao dos outros três.

Cometeu todas a barbárie,

Continua: no seu tempo

Foram cinco os poetas

Que levou ao silêncio.


AHMED DAHBUR

 Este poema foi inspirado pela morte de um amigo e camarada do poeta, Muhammad Najib Abu Rayya, que morreu

numa explosão que destruiu um edifício de nove andares em Fakhani, uma zona de Beirute Ocidental habitada

principalmente por palestinos. Abu Rayya foi morto conjuntamente com a mulher e os oito filhos. Era sapateiro e

ofereceu muitos sapatos aos combatentes e aos pobres. Por trás do seu riso sarcástico carregava a memória de sete

anos perdidos na prisão quando era jovem, por causa do seu combate político

AHMED DAHBUR (1946)

Nasceu em Haifa, em 1946, mas viveu no exílio desde 1948. Trabalhou como editor político

na Agência de Radiodifusão Palestina na Síria. Foi também repórter do Jornal do Fatah e

editor-chefe do Tunis Magazine. Regressou à Palestina para trabalhar no Ministério da

Cultura. Devido a razões de ordem material não recebeu uma educação académica mas é

um leitor voraz. A sua poesia, de grande sensibilidade, é dedicada à causa palestina.

Publicou diversas colectâneas de poesia e foi galardoado com o Prémio Palestino de Poesia

1998.

 


sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

A Idade de Ser Feliz - Geraldo Eustáquio de Souza (Letícia Lanz)

 

A Idade de Ser Feliz

Existe somente uma idade para a gente ser feliz,

somente uma época na vida de cada pessoa

em que é possível sonhar e fazer planos

e ter energia bastante para realizá-las

a despeito de todas as dificuldades e obstáculos.

Uma só idade para a gente se encantar

com a vida e viver apaixonadamente

e desfrutar tudo com toda intensidade

sem medo, nem culpa de sentir prazer.

Fase dourada em que a gente pode criar e recriar a vida,

a nossa própria imagem e semelhança

e vestir-se com todas as cores

e experimentar todos os sabores

e entregar-se a todos os amores

sem preconceito nem pudor.

Tempo de entusiasmo e coragem

em que todo o desafio é mais um convite à luta

que a gente enfrenta com toda disposição

de tentar algo novo, de novo e de novo

e quantas vezes for preciso.

Essa idade tão fugaz na vida da gente

chama-se presente

e tem a duração do instante que passa

 

Geraldo Eustáquio de Souza (Letícia Lanz)

 

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Louvor e Simplificação de Álvaro de Campos de Mário Cesariny

(fragmento)

Terceiro:

  (e aqui começa, talvez, o desembróglio)

 

vi também um vapor que ia para o Barreiro

 

e tive pena de não ir com ele

mas não sou um proletário (não, ainda não)

e atravessar a nado – quem é que disse que pode?

 

Fiquei-me a vê-lo: primeiro junto ao cais

com um certo ar simpático de proletário dos mares

e apinhado de gente – tanta espécie dela!

Depois a meio do rio, destacado e nítido,

depois um ponto vago no horizonte (ó minha angústia!)

ponto cada vez mais vago no horizonte

 

e de repente, ao virar uma esquina, já depois de outra esquina,

vejo uma nova espécie de enforcado

um homem novo em cima de um escadote

a colar afixar cartazes deste género:

 

                            VOTA POR SALAZAR

 

Paro. Paro de novo. Pararei sempre enquanto

afixarem cartazes deste género.

Curioso, curiosíssimo este género.

Um chefe não é grande pelo nome que arranjou.

Salazar Xavier Francisco da Cunha Altinho isso que importa.

Um chefe é grande pelas suas obras, pelo amor que inspira.

Pois os fascistas os nossos bons fascistas

querem que a gente vote por um nome

por um nome calcula essa coisa qualquer que qualquer fulano tem!

Vota por Salazar ora pois ó meu povo

vota por sete letras muito bem arrumadas em três sílabas.

 

Deito a cabeça para trás para deixar sair a gargalhada

e aproximo-me do homem em cima do escadote

aproximo-me tanto que ele nota

alguém que se aproxima

e o braço cai-lhe, grosso, pingando água num balde,

dá os bons dias a este irmão, a este bom irmão que anda a colar cartazes para não morrer de fome!…"

Mário Cesariny de Vasconcelos 

nobilíssima visão; louvor e simplificação de Álvaro de Campos

(fragmento)

O poema inicia-se com dois excertos de Álvaro de Campos ("Cruzou por mim, veio ter comigo numa rua da baixa" e um excerto terminal da "Ode Marítima"). O excerto da "Ode" reaparece perto do final do poema. Ignoro por que razão desapareceu de "Em louvor e simplificação de Álvaro de Campos" o fecho da sua 1ª edição (1953), apreendida e destruída pela PIDE. Após a referência ao homem novo, colando cartazes "Vota por Salazar!", a leitura do disco termina por "e o braço cai-lhe, grosso, pingando água num balde". Todavia, na edição primitiva o poema terminava com: "dá os bons dias a este irmão, a este bom irmão que anda a colar cartazes para não morrer de fome!…"

 

 

domingo, 18 de janeiro de 2026

“Hei-de ser tudo o que eles querem” - Jorge de Sena

 

“Hei-de ser tudo o que eles querem

1

Hei-de ser tudo o que eles querem:
a raiva é toda de eu não ser um espelho
em que mirem com gosto os próprios cornos,
as caudas com lacinhos, e os bigodes
de chibos capripédicos.
Não sou nem sequer imagem.
Mas voz eu sou
que como agulha ou lança ou faca ou espada
mesmo que não dissesse da miséria
de lodo e trampa em que se espojam vis
só porque existe é como uma denúncia.
Hei-de ser tudo, não o sendo. Um dia
– podres na terra ou nos caixões de chumbo
estes zelosos treponemas lusos (1) –
uma outra gente, e limpa, julgará
desta vergonha inominável que é
ter de existir num tempo de canalhas
de um umbigo preso à podridão de impérios
e à lei de mendigar favor dos grandes.

2

De cada vez que um governo necessita de segredos,
por segurança do Estado
ou para melhor êxito
nas negociações internacionais,
é o mesmo que negar,
como negaram sempre desde que o mundo é mundo,
a liberdade.

Sempre que um povo aceita que o seu governo,
ainda que eleito com quantas tricas já se sabe,
invoque a lei e a ordem para calar alguém,
como fizeram sempre desde que o mundo é mundo,
nega-se
a liberdade.

Porque, se há algum segredo na vida pública
que todos não podem saber
é porque alguém, sem saber,
é o preço do negócio feito.
E se há uma ordem e uma lei que não inclua
mesmo que seja o último dos asnos e dos pulhas
e o seu direito a ser como nasceu ou o fizeram,
a liberdade
é uma farsa,
a segurança
é uma farsa,
a ordem é uma farsa,
não há nada que não seja uma farsa,
a mesma farsa representada sempre
desde que o mundo é mundo,
por aqueles que se arrogam ser
empresários dos outros
e nem pagam decentemente
senão aos maus actores.

Jorge de Sena

1)    Treponemas – espécie de protozoários (seres vivos unicelulares) parasitas,

do grupo das espiroquetas, que inclui o agente causador da sífilis (Dic. Porto Editora)