sábado, 7 de novembro de 2026

Manuel Gusmão - AO ENCONTRO DO ENCONTRO

Manuel Gusmão | Praça do Bocage

AO ENCONTRO DO ENCONTRO

 

para que eu pudesse fazer o meu caminho pelo

caminho comum e partilhar o tempo

a invenção, o desejo, o trabalho e a luta por

uma terra sem amos

 

para que nas histórias lidas desde a infância

eu aprendesse a descobrir os meus

a articular aquelas palavras

sobre as quais o confronto ainda não terminou

e assim nos movem

 

para que eu pudesse sentir-me esperado sobre

esta terra tão dilacerantemente bela

e tão insuportavelmente devastada

 

para que tendo aprendido a falar eu tivesse

podido encontrar os outros na minha língua

 

para que eu pudesse olhar, estender as mãos

e encontrar o corpo do mundo

como a minha tarefa comum

 

para que eu viesse e pudesse chegar a esta reunião contínua

esta assembleia de homens

explorados e livres, oprimidos e

livres

 

foi necessário que a convocatória chegasse até mim

foi necessário que eles continuassem reunidos e me esperassem

foi necessário que tu tivesses vindo e chegado antes

que te tivessem acolhido e te tivessem transformado o nome próprio

em nome comum.

Manuel Gusmão

 

quinta-feira, 5 de novembro de 2026

Ary dos Santos - Ary dos Santos

 

Ary dos Santos

 

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Meu Camarada e Amigo

Revejo tudo e redigo
meu camarada e amigo.
Meu irmão suando pão
sem casa mas com razão.
Revejo e redigo
meu camarada e amigo

As canções que trago prenhas
de ternura pelos outros
saem das minhas entranhas
como um rebanho de potros.
Tudo vai roendo a erva
daninha que me entrelaça:
canção não pode ser serva
homem não pode ser caça
e a poesia tem de ser
como um cavalo que passa.

É por dentro desta selva
desta raiva   deste grito
desta toada que vem
dos pulmões do infinito
que em todos vejo ninguém
revejo tudo e redigo:
Meu camarada e amigo.

Sei bem as mós que moendo
pouco a pouco trituraram
os ossos que estão doendo
àqueles que não falaram.

Calculo até os moinhos
puxados a ódio e sal
que a par dos monstros marinhos
vão movendo Portugal
— mas um poeta só fala
por sofrimento total!

Por isso calo e sobejo
eu que só tenho o que fiz
dando tudo mas à toa:
Amigos no Alentejo
alguns que estão em Paris
muitos que são de Lisboa.
Aonde me não revejo
é que eu sofro o meu país.

 Ary dos Santos