quarta-feira, 23 de setembro de 2026

As palavras da língua, talvez ou Poema sobre a Língua Portuguesa - José Viale Moutinho

  

As palavras da língua, talvez

ou Poema sobre a Língua Portuguesa

 

as minhas palavras são nesta língua

que lambe o coiro da realidade,

o meu silêncio também é em português,

os meus tímpanos é que são, vibrando, 

a parte internacionalista do meu corpo,

 

as minhas palavras induzem em erro, levam

os demais à beira do poço, aí está a língua

vermelha, extraordinariamente vermelha,

com que escrevo à luz de um candeeiro

em forma de vocábulos, de sons híbridos,

 

vês as minhas mãos nos seios da frase?

vês a história como se constrói diante

dos teus olhos? ouves a respiração da língua

em cada um dos meus instantes?

 

olha, este canivete rasga as linhas das letras, 

a língua, mesmo a língua das palavras,

lambe o silêncio em vão, por isso aparecem

todos esses livros ao virar de uma esquina.

 

José Viale Moutinho


domingo, 20 de setembro de 2026

Miguel Torga - "outra poesia"

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjReglyrRC8b1JNpRWdNJ7hXktnGjSvpC-NuPzqq9h-Kkq1dTCeFgsNAXLJXfXahWTnAAXlDKpsuSsCbBeTtc7XVk-jjnh2VhyphenhyphengRu0SmCQNhMXrhTJfsMyGvuwhNKt1XVC0m0eM3xihxw/s1600/M+Torga5.JPG 

«A política é para eles uma promoção e para mim uma aflição. E não há entendimento possível entre nós, apesar do meu esforço. Separa-nos um fosso da largura da verdade. Radicalmente insinceros, nenhum pudor os inibe. Mentem com tal convicção que se enganam a si próprios, e acabam por acreditar que são o que fingem ser. Levam-se a sério no papel de homens providenciais que dão ordem à desordem, virtude ao vício, luz à escuridão. Que outorgam a liberdade apenas a nomeá-la do alto das tribunas. E nem sequer consigo fazê-los compreender que representam sem originalidade uma farsa velha como os tempos, e que os aplausos que recebem já outros os receberam, igualmente inconsequentes e requentados. Narcisos numa sala de espelhos, confirmam-se em cada imagem multiplicada. A circunstância não os circunstancia. Pelo contrário. Vaticina-lhes a duração. O efémero é um anátema dos outros. Vêem na presença actual do nome nos jornais a garantia da perpetuação nos anais da História.»

Miguel Torga, in Diário XIII

Coimbra, 1 de Março de 1979

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Um Comunista - Canção de Caetano Veloso ‧ 2012

Ouvir AQUI

Um Comunista

Canção de Caetano Veloso ‧ 2012

Um mulato baiano, muito alto e mulato
Filho de um italiano e de uma preta hauçá

Foi aprendendo a ler olhando mundo à volta
E prestando atenção no que não estava à vista
Assim nasce um comunista

Um mulato baiano que morreu em São Paulo
Baleado por homens do poder militar
Nas feições que ganhou em solo americano
A dita guerra fria, Roma, França e Bahia

Os comunistas guardavam sonhos
Os comunistas, os comunistas

O mulato baiano, mini e manual
Do guerrilheiro urbano que foi preso por Vargas
Depois por Magalhães por fim, pelos milicos
Sempre foi perseguido nas minúcias das pistas
Como são os comunistas?

Não que os seus inimigos estivessem lutando
Contra as nações terror que o comunismo urdia

Mas por vãos interesses de poder e dinheiro
Quase sempre por menos, quase nunca por mais

Os comunistas guardavam sonhos
Os comunistas, os comunistas

O baiano morreu, eu estava no exílio
E mandei um recado que eu que tinha morrido
E que ele estava vivo, mas ninguém entendia
Vida sem utopia, não entendo que exista
Assim fala um comunista

Porém, a raça humana, segue trágica, sempre
Indecodificável, tédio, horror, maravilha

Ó, mulato baiano, samba o reverencia
Muito embora não creia em violência e guerrilha
Tédio, horror e maravilha

Calçadões encardidos, multidões apodrecem
Há um abismo entre homens e homens, o horror

Quem e como fará com que a terra se acenda?
E desate seus nós discutindo-se Clara
Iemanjá, Maria, Iara
Iansã, Catijaçara

O mulato baiano já não obedecia
As ordens de interesse que vinham de Moscou
Era luta romântica, era luz e era treva
Feita de maravilha, de tédio e de horror

Os comunistas guardavam sonhos
Os comunistas, os comunistas
Os comunistas guardavam sonhos
Os comunistas, os comunistas
Os comunistas guardavam sonhos
Os comunistas, os comunistas
Os comunistas guardavam sonhos
Os comunistas, os comunistas
Os comunistas guardavam sonhos
Os comunistas, os comunistas
Os comunistas guardavam sonhos
Os comunistas, os comunistas
Os comunistas guardavam sonhos
Os comunistas, os comunistas
Os comunistas guardavam sonhos
Os comunistas, os comunistas
Os comunistas guardavam sonhos
Os comunistas, os comunistas