quarta-feira, 3 de junho de 2026

A Canção do Petrel - Máximo Gorki - (Homenagem à Greve Geral)

A Canção do Petrel

- o mensageiro da tempestade -

Por cima da planície cinzenta do mar, o vento amontoa nuvens. Entre as nuvens e o mar, orgulhosamente, reminiscência de relâmpagos negros, voa o Petrel.

Roçando a onda com a ponta da asa como uma flecha a voar em direção às nuvens, ele grita, e as nuvens ouvem a sua alegria e coragem.

Nesse grito – Sede de tempestade! As nuvens sentem no grito um poder irado, chama de paixão e confiança na vitória.

Cada vez mais escuras, as nuvens descem sobre o mar, e as ondas cantam, correndo para o céu ao encontro do trovão.

O estrondo ensurdece, as águas lutam ferozmente contra o vento que enfurecido as aperta num abraço. As vagas em tropel numa raiva espumosa discutem com o vento e gemem, abraçando-as com força contra os rochedos numa fúria selvagem, desfazendo a massa de esmeraldas em salpicos de mil sóis.

O Petrel paira na tempestade como um relâmpago negro, silva em flecha a perfurar as nuvens no oceano, limpando a espuma das asas.

Depois lança-se como um demónio, um demónio orgulhoso – o demónio negro da tempestade. Chora e ri, ri e chora. É das nuvens que ele ri, e é com alegria que chora!

No furor da trovoada – o demónio sábio - há muito que percebeu tanto cansaço. Ele está certo de que as nuvens não vão esconder o sol – não, elas não o esconderão! -

O trovão ronca e o vento uiva…

Acima do abismo do mar, as nuvens em saraiva queimam, queimando-se em chamas azuis. O mar envolve os relâmpagos, afogando-os nas águas. E o reflexo dos relâmpagos, como serpentes de fogo, enrolam-se até desaparecerem nas profundezas do abismo.

- Tempestade!  Que venha a tempestade!

Eis o corajoso Petrel a pairar orgulhosamente nos relâmpagos acima das ondas rugidoras. Ele, o profeta das vitórias, clama:

Que a tempestade ruja! Que rebente mais forte ainda!


Máximo Gorki

(1901)

 

Em greve

 

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Desabafo de um trabalhador em greve

  

           Carteiro Poeta

Greve

A greve é sempre grave
se a negociação entra em entrave
do oprimido é um grito, o que resta é o atrito
contra a social repressão, contra a nefasta mídia
contra tal opressão, sociedade de conflito
classe dominante, que atrasa a nação, que arrasa a nação
que não reparte o bolo nem o pão
querem combater a inflação
tirando do proletário o suado pão
diminuindo o consumo, punindo o trabalhador
assim o trabalhador não tem outro rumo, não tem outra arma
decreta a greve para horror dos monstros exploradores, que exploram com dores
da economia cheia de desencontros
do trabalhador é um arrojo
para fragmentar o arrocho
o arrocho do salário
fruto de salafrários
enquanto bancos tem grandes lucros
querem engana o trabalhador
chamando-o de colaborador
achando que ele não pensa e é xucro
que por trinta moedas trai
do trabalhador grana subtrai
com muita coragem se sobressai
digladiando contra as mentiras da mídia
de dia de noite e no sol de meio-dia
que mostra a verdade em cada canto da nação
em versos em prosas ou crônicas que saem do coração
porém o Brasil é grande
construído pelo operário, pelo agricultor
trabalhador que fez dele um gigante
através de um labor diário
gente negra, amarela e branca
batalhando em todos os flancos
que em uma luta franca
aos trancos e barrancos
no comércio, nas fábricas
nas escolas, nos campos, nas praças,
com um só intento, com um coração, mesmo com lástimas
soldados sem patentes, armados e bem valentes.

AMARILDO CAETANO
Carteiro de Cotia-SP

 


sexta-feira, 22 de maio de 2026

Uma fotografia de Alfredo Cunha - José Carlos Barros

  

Uma fotografia de Alfredo Cunha

 

Ambos têm as espingardas

a prolongar o corpo, um deles

está deitado no alinhamento

da guia do passeio, o outro

com um joelho no asfalto,

mas a um dos soldados não se vê

o rosto, virou-se à curiosidade

da criança que se baixou

para falar com ele, para saber

se a arma dispara balas

verdadeiras, imagine-se

uma revolução em que as

crianças andam nas ruas

a perguntar aos soldados

como funcionam as espingardas

e a quererem saber se as espingardas

disparam balas verdadeiras.

Os adultos têm os olhares

desencontrados, num dos

extremos do enquadramento

há um homem a olhar

na direcção do passado

como se os seus próprios

olhos lá ficassem, no outro extremo

há um homem a olhar o futuro

como se os seus olhos

fossem incapazes de lá ir,

mas só as crianças

interessam, as crianças

que olham os soldados ou

conversam com eles,

é aí que tudo se decide,

as crianças são quatro,

os soldados são dois,

imaginem uma revolução

rm que há mais crianças nas ruas

do que soldados armados.

José Carlos Barros

José Carlos Barros - WOOK