quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Abril 74/Abril 24 - António Carlos Cortez

Abril 74/Abril 24


Vozes que vazaram onde vão, diz um poeta
de outrora seu eco desaguando neste texto.
Estamos no olho do furacão no tempo errado?

Abril é memória convulsiva e dizes
“Onde vão as vozes que vazaram”
repetindo outra era, outro pó e outro estado

Na fotografia antiga um soldado no largo
onde tanques mergulhados estavam por
uma multidão sanguínea, crianças com flores


de paz despediam-se dum tempo escuro e frio
Abril tinha ainda no rio as formas trágicas e
heróicas e era uma porta aberta ao dia claro

Mas quem cerrou o tempo ao ido grito
de uma esperança refractada?
Abril de mil novecentos e setenta e quatro

guardo como uma idade mágica não vivida
mas sentida ao longo destes anos em que nada
o teu calor intempestivo pode apagar

Ó vozes que vieram na vazante – a nossa vida
(a nossa – os que depois de vocês, nascidos
para o dia lusíada e não reencontrado) –

em nós Abril é a voz carnal
um fogo posto no país amado

António Carlos Cortez

 

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

ÚNICA DÁDIVA - GABRIEL MARIANO

 

ÚNICA DÁDIVA

Os engajadores levaram
a nossa única dádiva
e já ninguém devolve - 
o que nos foi roubado.

                Longa è a ladeira que a fome alonga.

Enquanto eu vivo
as perguntas duram
E eu vivo da fome
interrogativamente.

                Longa è a ladeira que a fome alonga.

Como podem ladrões
rondar meus olhos
se amor só
meus olhos tem?

                Longa è a ladeira que a fome alonga
                terralonginquamente.

GABRIEL MARIANO

 (12 Poemas de Circunstância, Praia, Minerva, 1965)
                

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

REGRESSO - Miguel Torga

 

REGRESSO


Pátria magra - meu corpo figurado...
Meu pobre Portugal de pele e osso!
Nada na tua imagem se alterou:
A casca e o caroço
Dum sonho que mirrou...

 

Miguel Torga

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Absurdo - Beatriz Nascimento

 

Absurdo

[01.09.1987]

De longe de muito longe ouço um toque de jazz

De longe de muito longe ouço um acordo de paz

De jazz se é coerente

De paz se é concernente

De longe muito longe ouço notícia de ontem

No mundo o que aconteceu?

Nasceu um ser humano, enquanto outro morreu.

De longe de muito longe ouço um pedido de trégua

Mas por aqui só há guerra

O que foi mesmo que ouvi?

De longe muito longe ouço ruído de risos

Mas por aqui, só gemidos

Me indicam o que há de concreto

O jazz continua pelo espaço

Em sons de cordas em acordes

Os acordos não concluíram, estancaram

Que entre risos e gemidos permaneça o

Som vigoroso do jazz

Em intervalos de paz

Beatriz Nascimento

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

TRAGO O PEITO MOLHADO - António Borges Coelho

 

TRAGO O PEITO MOLHADO

 

Trago o peito molhado

Das chuvas das torrentes

que a vida sobre nós tem derramado

Cerro os punhos digo

por mais que sofras

fica sempre o mar.

 

António Borges Coelho

(1928 - 2025) In "Poemas"

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Poema da interrogação - Domingos da Mota

 

Poema da interrogação

Deus abençoou o sétimo dia e

santificou-o, visto ter sido nesse

dia que Ele repousou de toda a

obra da criação.

 

Génesis


Deus de tudo e do nada, se existes,
uno e trino, suprema omnisciência,
trabalhaste seis dias e resistes
impassível no céu, com paciência;


se em vez da criação numa semana
tivesses operado um mês a eito
e moldasses o barro com mais gana
e fizesses um mundo mais perfeito;


(repara, por exemplo, vê o homem
que se diz ser à tua semelhança
e que mata e devasta e cria a fome,
em nome do poder e da abastança);


perdoa-me a pergunta impertinente:
existes como O Ser, ou como ente?

Domingos da Mota

Bolsa de Valores e Outros Poemas,  edição: Temas Originais, Lda., Coimbra, 201

domingo, 25 de janeiro de 2026

"Novas Sugestões" - Ahmed Dahbur

 

NOVAS SUGESTÕES

De que covil fugiram os tiranos da Terra?

Nero incendiou Roma duas vezes e compôs depois uma melodia dissonante

E tocou-a até que a cidade cantasse com ele.

Hulagu herdou a mesma melodia

Deitou fogo às bibliotecas deste mundo,

Correu tinta no rio

E das cinzas surgiu a linguagem dos gafanhotos

Que se levantaram para agradecer ao louco.

Depois das saudações à loucura, veio o Hitler

Que fez dos mortos barras de sabão;

Mas incapaz de ser aquietado,

Teve de incluir o mar

Na sua destruição vital.

Guerra no mar, agitação em terra,

Combinadas na sua terrível combustão

Também eu vi um tirano -

Com poder menor ao dos outros três.

Cometeu todas a barbárie,

Continua: no seu tempo

Foram cinco os poetas

Que levou ao silêncio.


AHMED DAHBUR

 Este poema foi inspirado pela morte de um amigo e camarada do poeta, Muhammad Najib Abu Rayya, que morreu

numa explosão que destruiu um edifício de nove andares em Fakhani, uma zona de Beirute Ocidental habitada

principalmente por palestinos. Abu Rayya foi morto conjuntamente com a mulher e os oito filhos. Era sapateiro e

ofereceu muitos sapatos aos combatentes e aos pobres. Por trás do seu riso sarcástico carregava a memória de sete

anos perdidos na prisão quando era jovem, por causa do seu combate político

AHMED DAHBUR (1946)

Nasceu em Haifa, em 1946, mas viveu no exílio desde 1948. Trabalhou como editor político

na Agência de Radiodifusão Palestina na Síria. Foi também repórter do Jornal do Fatah e

editor-chefe do Tunis Magazine. Regressou à Palestina para trabalhar no Ministério da

Cultura. Devido a razões de ordem material não recebeu uma educação académica mas é

um leitor voraz. A sua poesia, de grande sensibilidade, é dedicada à causa palestina.

Publicou diversas colectâneas de poesia e foi galardoado com o Prémio Palestino de Poesia

1998.