terça-feira, 10 de março de 2026

(Capicua) Ana Matos Fernandes - Making Teenage Ana Proud

  

Ouvir AQUI  https://youtu.be/u7f6Gc-iX9c?si=MXPDkrnXVw7UWedj

Making Teenage Ana Proud

O cubano velho diz que eu sou de Xangô
O cubano velho diz que eu sou
O cubano velho diz que eu sou de Xangô
O cubano velho diz que eu sou

Adoro ver a vossa glória, a vossa ascensão
Artistas já não fazem história, fazem autopromoção
Adoro ver a vossa cólera, essa indignação
Ativistas de internet monetizam a subversão
Neste apocalipse de merda, nesta terra de beatos
Até a revolta é lerda e até os fachos são fracos
Homens temem o ridículo, nós tememos violência
Num país que é seguro, mas fora da residência
Em que a honra de um macho vale mais do que a nossa vida
E para os jovens tem encanto na hora da despedida
Não é culpa do progresso, esse ranço reacionário
Por cada grunho, um punho, em sentido contrário
Por cada grunho, um voto, em sentido contrário
No combate e no debate, seremos o adversário!

O cubano velho diz que eu sou de Xangô
Que eu cuspo fogo nunca ninguém duvidou
Sou neta das bruxas que o lume não queimou
Se me vires no palco grita fogo fogo!
O cubano velho diz que eu sou de Xangô
Que eu cuspo fogo nunca ninguém duvidou
Sou neta das bruxas que o lume não queimou
Se me vires no palco grita fogo fogo!

Estamos fartas de penar o dobro para ter metade
Estamos fartas da vergonha pelo corpo e na idade
De perder anos de vida na senda pouco sadia
De querer viver até aos cem, sem envelhecer um dia
Mães trabalham como hoje, mas em casa é como dantes
Tudo mina a autoestima de meninas e mulheres brilhantes
Enquanto afaga o ego de qualquer gajo mediano
Encontrando em cada adulto funcional o pai do ano
O tal duplo critério é o sal do patriarcado
Estamos sempre em desvantagem no mesmo micromercado
Exaustas de ter mais bagagem às costas no mesmo trilho, diz-me:
Quantos homens que idolatras criam os seus filhos?
Quantos homens genais criaram os seus filhos?
Quantas mães sobrecarregadas ficaram sem brilho?

O cubano velho diz que eu sou de Xangô
Que eu cuspo fogo nunca ninguém duvidou
Sou neta das bruxas que o lume não queimou
Se me vires no palco grita fogo fogo!
O cubano velho diz que eu sou de Xangô
Que eu cuspo fogo nunca ninguém duvidou
Sou neta das bruxas que o lume não queimou
Se me vires no palco grita fogo fogo!

Ficar velha e feiticeira como Rita Lee
Com a caneta mais certeira que a do Ary
No combate é punho forte como o Ali
Making teenage Ana proud vim até aqui
Ficar velha e feiticeira como Rita Lee
Com a caneta mais certeira que a do Ary
No combate é punho forte como o Ali
Making teenage Ana proud vim até aqui
Making teenage Ana proud

 

(Capicua) Ana Matos Fernandes


sábado, 7 de março de 2026

-legado - Rupi Kaur

 

-legado

me levanto
sobre o sacrifício
de um milhão de mulheres
que vieram antes
e penso
o que é que eu faço
para tornar essa montanha mais alta
para que as mulheres que vierem
depois de mim
possam ver além.

Rupi Kaur

Do livro "O que o sol faz com as flores".

2. quero pedir desculpa a todas as mulheres

quero pedir desculpas a todas as mulheres
que descrevi como bonitas
antes de dizer inteligentes ou corajosas
fico triste por ter falado como se
algo tão simples como aquilo que nasceu com você
fosse seu maior orgulho quando seu
espírito já despedaçou montanhas
de agora em diante vou dizer coisas como
você é forte ou você é incrível
não porque eu não te ache bonita
mas porque você é muito mais do que isso

Rupi Kaur

 


quinta-feira, 5 de março de 2026

ACORDEI COM A ARAGEM DO TEU ROSTO - Fernando Peixoto

ACORDEI COM A ARAGEM DO TEU ROSTO

(Homenagem à mulher no dia 8 de março de 2008)

Acordei com a aragem do teu rosto
dum sono prolongado e entorpecente
e na seara loira dos teus cabelos
onde repousa ainda o sol de Agosto
passearam meus olhos inocentes
à procura da certeza de estar vivo.

Caminhei pelo trilho dos teus passos
rumo ao oceano dos teus olhos cor de anil
e embalado por instantes nos teus braços
respirei finalmente o ar de Abril

Hoje que arremesso os olhos sobre a planície
desenho novas cores nesta paisagem
e se caminho em frente decidido
é porque és mais que um sonho ou uma miragem
é porque és carne és terra és a palavra
és a seiva autêntica e sensível
ao alcance destas mãos com que afago
tua boca quente e apetecível

É porque és mulher inteligência
és o outro pulmão com que respiro
e parte do suor com que transpiro
nesta procura permanente de estar vivo

Acordei com a aragem do teu rosto
dum sono prolongado e entorpecente
e recuso-me de novo a adormecer
porque quero ser eu e ao teu lado
retomar nos dentes a loucura
redescobrindo a fome de viver
para beber a resina da ternura
que a tua boca tem pra me oferecer
e partilhar contigo esta frescura
da manhã que acaba de nascer

Partamos Amor à descoberta
Dum mundo inteiro à nossa espera
enquanto dura a Primavera

 Fernando Peixoto

quarta-feira, 4 de março de 2026

A UMA MULHER DO MEU PAÍS - Fernando Peixoto

 

A UMA MULHER DO MEU PAÍS

Abre as asas, tu que não desistes

de encontrar as asas nos teus braços

e com eles descobrires novos espaços.

 

Abre as asas, tu que não desistes

de rasgar, no tempo, o calendário

que preenche, em cada dia, o teu diário.

 

Abre as asas, tu que não desistes

de mostrar que és viva, e continuas

percorrendo, serena, as mesmas ruas.

 

Abre as asas, tu que não desistes

de mudar a face da cidade

em ímpetos de arrojo e de vontade.

 

Abre as asas, tu que não desistes

de enfrentar o sol que te encandeia

e quebra a tua última cadeia.

 

Abre as asas, amor, e segue em frente,

voa sempre, voa sempre, sem cansaço,

e ensina a voar toda esta gente

que continua especada olhando o espaço.

 

Fernando Peixoto

 

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Começo por invocar Walt Whitman - Pablo Neruda

Começo por invocar Walt Whitman

É por acção de amor ao meu país
que te reclamo, ó necessário irmão,
velho Whitman da cinzenta mão,

para que, com teu apoio extraordinário,
verso a verso, matemos de raiz
Níxon, o presidente sanguinário.

Sobre a terra não há homem feliz,
ninguém trabalha bem no planeta
se em Washington respira o seu nariz.

Pedindo ao velho bardo que me invista,
os meus deveres assumo de poeta
armado do soneto terrorista,

porque devo ditar sem pena alguma
a sentença até agora nunca vista
de fuzilar um criminoso ingente

que apesar das suas viagens para a lua
já matou na terra tanta gente,
que até foge o papel e a pena se alevanta

ao escrever o nome do maldito,
do genocida, o da Casa Branca.


Pablo Neruda

(de Incitamento ao Nixonicídio e louvor da Revolução Chilena, tradução de Alexandre O’Neill, Agência Portuguesa de Revistas, 1975 / original: Incitación al nixonicidio y alabanza de la revolución chilena, 1973)