segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Um Comunista - Canção de Caetano Veloso ‧ 2012

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Um Comunista

Canção de Caetano Veloso ‧ 2012

Um mulato baiano, muito alto e mulato
Filho de um italiano e de uma preta hauçá

Foi aprendendo a ler olhando mundo à volta
E prestando atenção no que não estava à vista
Assim nasce um comunista

Um mulato baiano que morreu em São Paulo
Baleado por homens do poder militar
Nas feições que ganhou em solo americano
A dita guerra fria, Roma, França e Bahia

Os comunistas guardavam sonhos
Os comunistas, os comunistas

O mulato baiano, mini e manual
Do guerrilheiro urbano que foi preso por Vargas
Depois por Magalhães por fim, pelos milicos
Sempre foi perseguido nas minúcias das pistas
Como são os comunistas?

Não que os seus inimigos estivessem lutando
Contra as nações terror que o comunismo urdia

Mas por vãos interesses de poder e dinheiro
Quase sempre por menos, quase nunca por mais

Os comunistas guardavam sonhos
Os comunistas, os comunistas

O baiano morreu, eu estava no exílio
E mandei um recado que eu que tinha morrido
E que ele estava vivo, mas ninguém entendia
Vida sem utopia, não entendo que exista
Assim fala um comunista

Porém, a raça humana, segue trágica, sempre
Indecodificável, tédio, horror, maravilha

Ó, mulato baiano, samba o reverencia
Muito embora não creia em violência e guerrilha
Tédio, horror e maravilha

Calçadões encardidos, multidões apodrecem
Há um abismo entre homens e homens, o horror

Quem e como fará com que a terra se acenda?
E desate seus nós discutindo-se Clara
Iemanjá, Maria, Iara
Iansã, Catijaçara

O mulato baiano já não obedecia
As ordens de interesse que vinham de Moscou
Era luta romântica, era luz e era treva
Feita de maravilha, de tédio e de horror

Os comunistas guardavam sonhos
Os comunistas, os comunistas
Os comunistas guardavam sonhos
Os comunistas, os comunistas
Os comunistas guardavam sonhos
Os comunistas, os comunistas
Os comunistas guardavam sonhos
Os comunistas, os comunistas
Os comunistas guardavam sonhos
Os comunistas, os comunistas
Os comunistas guardavam sonhos
Os comunistas, os comunistas
Os comunistas guardavam sonhos
Os comunistas, os comunistas
Os comunistas guardavam sonhos
Os comunistas, os comunistas
Os comunistas guardavam sonhos
Os comunistas, os comunistas

 


terça-feira, 8 de setembro de 2026

O Costume - Vijay Prashad

  

O Costume

Aos que morreram no ataque dos EUA

 em Kuhestak, Sirik, Hormozgan e no Irão em 1 de setembro de 2026.

Primeiro costume, descem-se os tapetes

e varre-se o pátio;

os primos vêm de cidades distantes,

a noiva sai vestida de verde.

 

Por tradição preparam o arroz e o cordeiro,

o tio mais velho canta;

uma criança dormita ao colo,

uma mãe conta os seus anéis.

 

Em Uruzgan, as armas falam,

como falam nos casamentos

seu pequeno trovão louvava a noiva

dividindo a noite em azul.

 

Mas do alto, outra prática

estudava a alegria buscando sinais:

um ecrã ficou branco, um cursor moveu-se,

e a morte fulminou.

 

Em Nangarhar, levaram a noiva a passear

por veredas da montanha;

a primeira bomba atingiu as crianças,

a segundo os que correram a socorrê-las.

 

A terceira também respeitou a tradição:

atingiu a noiva que fugia.

Sepultaram quarenta e sete vidas

em vinte e oito leitos.

 

Em Anbar, alguém filmou o baile,

o cantor e a festa;

ao amanhecer os filmes sabiam mais

do que os generais nos seus ecrãs.

 

Em Rada‘a, onze carros partiram,

panos brilhantes presos às portas;

quatro mísseis juntaram-se à velha rotina:

um casamento, depois nada mais.

 

Em Sirik, os chinelos enchiam a casa,

pequenos, prateados, vermelho e azuis;

a noiva mal havia atravessado o quarto

quando o costume entrou também.

 

Porque o costume é aquilo que volta,

tradição, o que se faz:

a mesma desculpa, o mesmo relatório,

o nascer do sol.

 

“Nosso objetivo era um homem perigoso”.

“Agimos sob uma ameaça”.

Os nomes das crianças saem da página;

Ainda a tinta não secou.

 

O casamento tem suas leis antigas:

dar pão, criar espaço, aproximar.

o bombardeiro também tem tradições:

negar, rever, desaparecer.

 

Algo emprestado cruzou o céu,

algo antigo foi dito;

algo novo se converteu em túmulo,

algo azul ficou vermelho.

 

Então, não cantem nenhuma canção à noiva ou ao noivo,

não façam ribombar tambores nem soar sinos.

Os Estados-Unidos conservam ainda os seus costumes,

e sabem conservá-los muito bem.

Vijay Prashad

Este poema baseia-se nos ataques dos EUA a festas de casamento em Kakarak em Uruzgan (Afghanistão) em 2002, Mogr al-Deeb em Anbar (Iraque) em 2004, Haska Meyna em Nangarhar (Afeganistão) em 2008, Wech Baghtu (Afeganistão) em 2008, e Aqabat Za'j perto de Rada' (Iêmen) em 2013.