Uma fotografia de Alfredo Cunha
Ambos têm as espingardas
a prolongar o corpo, um deles
está deitado no alinhamento
da guia do passeio, o outro
com um joelho no asfalto,
mas a um dos soldados não se vê
o rosto, virou-se à curiosidade
da criança que se baixou
para falar com ele, para saber
se a arma dispara balas
verdadeiras, imagine-se
uma revolução em que as
crianças andam nas ruas
a perguntar aos soldados
como funcionam as espingardas
e a quererem saber se as espingardas
disparam balas verdadeiras.
Os adultos têm os olhares
desencontrados, num dos
extremos do enquadramento
há um homem a olhar
na direcção do passado
como se os seus próprios
olhos lá ficassem, no outro extremo
há um homem a olhar o futuro
como se os seus olhos
fossem incapazes de lá ir,
mas só as crianças
interessam, as crianças
que olham os soldados ou
conversam com eles,
é aí que tudo se decide,
as crianças são quatro,
os soldados são dois,
imaginem uma revolução
rm que há mais crianças nas ruas
do que soldados armados.