quinta-feira, 2 de abril de 2026

IDIOTAS, PALHAÇOS E BANDIDOS - Armindo Rodrigues

4 poemas de Armindo Rodrigues » Recanto do Poeta

IDIOTAS, PALHAÇOS E BANDIDOS

 

Idiotas, palhaços e bandidos,

enfatuados, ocos, ignorantes,

do capital humildes servidores,

ante os trabalhadores majestosos,

melífluos, devotos, afetados,

hipócritas, sem escrúpulos, grosseiros,

no apetite à solta insaciáveis,

na total desvergonha sem remédio,

agiotas vorazes para os pobres,

para os ricos mãos rotas sem medida,

impávidos na asneira triunfal,

relapsos no logro e na mentira,

useiros e vezeiros na traição,

são os que nos governam e eu desprezo.

 

Armindo Rodrigues

 

terça-feira, 24 de março de 2026

MORDAÇA - Sebastião da Gama

 

MORDAÇA

 Puseram-lhe na boca uma mordaça…

Mas o Poeta era Poeta...
E tinha que falar.

Fez um esforço enorme,
puxou a voz como quem golfa sangue
e a mordaça soltou-se-lhe da boca.

Porém, não era já mordaça:

Agora,
era um poema a queimar
os ouvidos das turbas inimigas
que, na praça,
o tinham querido calar

Sebastião da Gama

in Itinerário

domingo, 22 de março de 2026

Um espelho Para quem nele se reveja - Miguel Torga, in Diário XIII

  

Um espelho Para quem nele se reveja

Coimbra, 1 de Março de 1979

A política é para eles uma promoção e para mim uma aflição. E não há entendimento possível entre nós, apesar do meu esforço. Separa-nos um fosso da largura da verdade. Radicalmente insinceros, nenhum pudor os inibe. Mentem com tal convicção que se enganam a si próprios, e acabam por acreditar que são o que fingem ser. Levam-se a sério no papel de homens providenciais que dão ordem à desordem, virtude ao vício, luz à escuridão. Que outorgam a liberdade apenas a nomeá-la do alto das tribunas. E nem sequer consigo fazê-los compreender que representam sem originalidade uma farsa velha como os tempos, e que os aplausos que recebem já outros os receberam, igualmente inconsequentes e requentados. Narcisos numa sala de espelhos, confirmam-se em cada imagem multiplicada. A circunstância não os circunstancia. Pelo contrário. Vaticina-lhes a duração. O efémero é um anátema dos outros. Vêem na presença actual do nome nos jornais a garantia da perpetuação nos anais da História.

Miguel Torga, in Diário XIII 

quinta-feira, 19 de março de 2026

Sei que os tempos são difíceis - Thiago de Mello

 

Sei que os tempos são difíceis

 

Sei que os tempos são difíceis,

sei que os tempos são de dores,

sei que os dias são ásperos demais

e que o inimigo do homem cada dia

se disfarça menos.

Pois apesar de tudo

eu te digo simplesmente:

resiste!

Resiste, companheiro capricórnio,

resiste, companheiro de qualquer signo!

Resiste, porque o zodíaco é um sol

para quem vive ofendido

no mais profundo da vida.

Resiste, companheiro,

é o que digo a teu amor

porque sei que vais vencer

a luta que é a tua vida

na alegria do teu povo.

Ainda que os braços do inimigo

pareçam tão largos como asas de moinho,

luta, avança, companheiro,

não desanimes nunca,

- e verás a verdade chegar

dentro da manhã

manhã geral de amor

que vai chegar.

 

Thiago de Mello

no livro "Horóscopo para os que estão vivos". Martins Fontes, 1978.

 

segunda-feira, 16 de março de 2026

A minha poesia sou eu - Amílcar Cabral

 Amílcar Lopes Cabral – Museu do Aljube 

A minha poesia sou eu

… Não, Poesia:
Não te escondas nas grutas de meu ser, 
não fujas à Vida.
Quebra as grades invisíveis da minha prisão, 
abre de par em par as portas do meu ser
— sai…
Sai para a luta (a vida é luta)
os homens lá fora chamam por ti, 
e tu, Poesia és também um Homem. 
Ama as Poesias de todo o Mundo,
— ama os Homens
Solta teus poemas para todas as raças,
para todas as coisas.
Confunde-te comigo…
Vai, Poesia:
Toma os meus braços para abraçares o Mundo,
dá-me os teus braços para que abrace a Vida. 
A minha Poesia sou eu.

Amílcar Cabral

 Revista Seara Nova