terça-feira, 19 de maio de 2026

OS NOMES NOVOS - Inês Lourenço

 

OS NOMES NOVOS

Na primeira manhã da revolução

todos os nomes mudaram. As tuas mãos

eram pássaros os teus braços asas

os teus lábios átrios de canções que sobrevoavam

alegrias irrecusáveis. Os milagres sucediam-se

sem qualquer comando divino. Os desapossados

de tudo eram providos da maior esperança. As flores

não murcharam. Os peixes multiplicavam-se

na brasa diária dos afectos. Nas manhãs seguintes.

acordávamos sempre à espera da queda

de mais um velho costume repressivo. A garganta

habitava todas as palavras que lutavam

contra os velhos saberes quantitativos

que só perguntavam quantos dólares tem um lucro

ou quantos litros tem um almude. Trocámos o nome

das praças das pontes e das avenidas. Levantámos

as cabeças curvadas com vozes ao alto. A Utopia

do Bem e da Equidade invadia-nos o peito

e nenhuma morte se atrevia a silenciar

este novo país contaminado de Futuro.

 

Inês Lourenço

 

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Ana e António - Mário Castrim

  

Ana e António

A Ana e o António trabalhavam 

na mesma empresa.

Agora foram ambos despedidos.

Lá em casa, o silêncio sentou-se

em todas as cadeiras

em volta da mesa vazia.

«Neo-Realismo!» dirão os estetas

para quem ser despedido

é o preço do progresso.

Os estetas, esses, nunca

serão despedidos.

Ou julgam isso, ou julgam isso.

 

Mário Castrim


domingo, 10 de maio de 2026

PQP - Domingos da Mota

  

PQP

     (...) Não te sentes feliz
     se o povo reza livremente o terço no país
     e são muito cristãos os nossos governantes?

     Ruy Belo

Desde o berço,
Vai à missa,
Reza o terço,

Não pragueja
(Como manda
A madre igreja).

Só diz, chiça!
Irra! Apre!
Mesmo que

A pqp

Entre
Dentes
Lhe escape.

Domingos da Mota