sábado, 3 de outubro de 2026

ESTE PAÍS - Raquel Nobre Guerra

A importância das pequenas editoras na promoção da poesia em Portugal

 ESTE PAÍS...

Este país que me ensinaram a chamar de meu 
cujo mapa não incluiu as ruas onde cresci 
e me tornei órfã das promessas oficiais 
do pleno emprego, do sol gratuito 
metade do preço, metade do sonho 
na carne magoada da oferta da estação 

este país que continuo a chamar de meu 
há quarenta e oitocentos anos sem troco 
na mentira de não passar fome porque há pão 
e as ilhas de petróleo cospem diesel e whiskey 
do colo marinho para o estômago da capital 

este país de poetas e fabros com direito a tudo 
sabor a sangue e solo vulcânico para a paixão 
este novo desamparo de não haver solidão 
porque a rede eléctrica está cada vez mais forte 

este país de olhos na lua defeituosa e favorável 
o gato preto da companhia ronronando em rendição 
este país que espera ainda os cavaleiros da fé 
para puxar um fantasma mais para a cadeira ao lado 
e atirar um cêntimo ao oceano. 

 Raquel Nobre Guerra

De Postes de Luz para Cães Vadios, Tinta-da-china, 2026   

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

PROGRAMA DE ESTABILIDADE E CRESCIMENTO - Susana Araújo

PROGRAMA DE ESTABILIDADE E CRESCIMENTO

Tu vacilas, não queres ouvir e eu
não vou ter contigo a meio caminho
deposta, abandonada e irrisória
a ponte de ferro quebra-se
assim que o FMI avança

Um casal ainda criança
já refinancia
os seus juros

Não há compensação
para quem sonha severamente
enquanto espera pelo autocarro
durante o horário de Inverno

Vê agora, lá fora: uma
família que forja falsetes
tenta agarrar-se à rede,
frívolos esforços em que
os nossos filhos falham

O estímulo ao investimento
de iniciativa privada promove
a utilização proveitosa dos nossos
recursos: como esta faca de cozinha
que avança para nós com serrilha, sorrindo
combinação certeira entre a ergonomia
o melhor design e a qualidade

Todas as domésticas suturas serão
submetidas a uma rigorosa
análise de sensibilidade

Dorme bem, meu amor e
deixa a manhã reestruturar
a nossa dívida.

Susana Araújo

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

METRO - António Osório

 

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METRO

Perto tinha de si

gente exausta

e livremente

contemplava

tantos rostos,

tanto desespero.

 

Nas mulheres do campo

batia o seu coração

para ajudá-las na saída:

e pelos olhos dos namorados

pedia licença

de passar

como um Inca pelos rios.

 

Era moço de recados,

servente, outra vez criança

num comboio

canceroso

que vai para o hospital,

o aleijado que estende

ali a mão,

soldado que se despede,

emigrante que regressa

mais humilhado.

 

E gota infortunada

ou lágrima

escondida

ao lado do seu povo.

 

António Osório

“Poemas do livro” A Luz Fraterna – Poesia Reunida (1965 – 2009)