sábado, 11 de abril de 2026

CARTA DE AGOSTO - Inês Lourenço

 

CARTA DE AGOSTO (1994)

Um ermo de turismo alarve este
calor paleolítico, uma poeira meridional
ateia os objectos ressequidos, um misto
de esquinas e esplanadas de cerveja, homens
de camisa às riscas escarrando na noite e mulheres
de pernas depiladas e axilas com Impulse. Enjoa
este cortejo carnívoro de utentes
de O Mesmo. Nos balcões
toda a posteridade de Sancho Pança estende as mãos
e há nas ruas muitos vendedores de brincos e colares,
honestos emigrantes, decentes empreiteiros, padres, cartomantes,
velhas prostitutas e mais
milhentas entidades cheias de humanas intenções
e ainda mais senso comum. Gostava
de te ouvir por alguns momentos. Envio-te
mensagens telepáticas que repito sete vezes seguidas.
Há palavras gastas que não escrevo nem digo há tanto tempo,
como: Amo-te muito. Meu amor, que saudades. Vem depressa.
E outras ainda mais gastas que digo todos os dias,
como: Foda-se esta merda. (Somos do norte e não somos
castos nem cautos na linguagem). Abundam as reprises
pelos cinemas escassos. Os hits de verão atroam
discotecas. Há jardins ralos. Passeios gordurosos. Bufões
de motocicleta. Os cimos das torres das igrejas
à espera das bátegas de chuva dum íntimo outono
são ainda as únicas glórias do verão.


Inês Lourenço

sexta-feira, 10 de abril de 2026

POR ALGUM MOTIVO AS LÁGRIMAS DESCEM - Egito Gonçalves

  

POR ALGUM MOTIVO AS LÁGRIMAS DESCEM

 

Por algum motivo as lágrimas descem

até à boca.

Mastiga-se o sabor, entra

no sangue o sal,

em vida se transforma, é

sulco que a dor abre, fertiliza,

aberta linha de semeadura onde

poderá surgir um bosque,

uma cidade, uma injustiça...

 

É o gosto da dor

que vitaliza, ascende o palpitar

no coração que sobe à superfície.

 

Descem à boca

por algum motivo as lágrimas.

 

        Egito Gonçalves

 

(1920 - 2001)

In "O Fósforo e a Palha"

(Cadernos de Poesia nº11)

(Edição de Abril de 1970)

segunda-feira, 6 de abril de 2026

O Cristo Vermelho - Eduardo Metzner

  

O Cristo Vermelho

Na antiga catedral de rendas bizantinas,
entre o fumo do incenso a subir, calmo e lento,
chagas em rosa cruz, rubro de turmalinas,
vejo um Cristo vermelho e de olhar truculento.

Evolam-se orações. Lá fora, geme o vento
um responso. No véu fechado de neblinas
vaga a tristeza negra, imensa do tormento
que aflige o mundo todo em convulsões leoninas.

E o Cristo, contemplando a multidão de rojo
a seus pés, a rezar, cheio de tédio e nojo
clamou em voz vibrante, incisiva, estentórea:

– Como Lázaro, o vil leproso de Betânia,
Povo, surge e caminha! Sai da tua insânia!
Acorda, vai cumprir teus destinos na História!

Eduardo Metzner