domingo, 2 de outubro de 2022

Le chiffon rouge - Michel FUGAIN / Maurice VIDALIN

 

'Le chiffon rouge'

 

Accroche à ton cœur un morceau de chiffon rouge
Une fleur couleur de sang
Si tu veux vraiment que ça change et que ça bouge
Lève-toi car il est temps

Allons droit devant vers la lumière
En levant le poing et en serrant les dents
Nous réveillerons la terre entière
Et demain, nos matins chanteront

Compagnon de colère, compagnon de combat
Toi que l'on faisait taire, toi qui ne comptais pas
Tu vas pouvoir enfin le porter
Le chiffon rouge de la liberté
Car le monde sera ce que tu le feras
Plein d'amour de justice et de joie

Accroche à ton cœur un morceau de chiffon rouge
Une fleur couleur de sang
Si tu veux vraiment que ça change et que ça bouge
Lève-toi car il est temps

Tu crevais de faim dans ta misère
Tu vendais tes bras pour un morceau de pain
Mais ne crains plus rien, le jour se lève
Il fera bon vivre demain

Compagnon de colère, compagnon de combat
Toi que l'on faisait taire, toi qui ne comptais pas
Tu vas pouvoir enfin le porter
Le chiffon rouge de la liberté
Car le monde sera ce que tu le feras
Plein d'amour de justice et de joie.

 

Michel FUGAIN (letra de Maurice VIDALIN

 

Foi em 1977, durante uma grande festa popular em Le Havre, intitulada 'Um dia de verão num refúgio de paz', que nasceu a música 'Le chiffon rouge'. Interpretado por Michel FUGAIN (letra de Maurice VIDALIN), foi adotado pelos mineiros de Lorraine lutando contra demissões em massa na indústria do aço e rapidamente se tornou famoso na classe trabalhadora. Acompanhará, entre outras coisas, as lutas dos trabalhadores da linha Dieppe-Newhaven SNCF, dos estivadores, dos trabalhadores da fiação de Ouville e dos sítios do Canal. Será o hino dos metalúrgicos que lutaram, em 1979 o encerramento dos altos-fornos e da sua estação de rádio gratuita CGT, 'Loraine Coeur d'Acier'.

sábado, 1 de outubro de 2022

Armindo Mendes de Carvalho - Cantiga do Pobrediabismo de Café

 

CANTIGA DO POBREDIABISMO DE CAFÉ

Intelectuais reconhecidos pelo notário
poetas muitos reconhecidos pela família
romancistas traduzidos lá fora cá pra dentro
o dr. bastante burro que faz mal às musas
o escultor que tateia a senhora escultural
o ensaísta amigo das poetisas lusas
o crítico ficheiral arrumado responsável
irresponsável vespertinamente às quintas-feiras
a viúva abundante devoradora de miúdas
pequenas com muito jeito pró teatro e tudo
mancebos beija aqui beija ali beija acolá e nada
o tatebitatismo do senhor que foi ministro
o fotógrafo de arte que tem dentes postiços
a postiça menina que se atira à dentadura
o profissional contador de anedotas
e a anedota que se conta da esposa
a antiga casta susana entre os velhos
os velhinhos entre a vida e a morte
os artistas suburbanos da amadora
antologistas do verso erótico dos amigos
o declamador nortenho de pronúncia ainda lá
três inventores e meio da filosofia nacional
muitos pintores que chateiam as paredes
muitos senhores que teimam tinta e papel

e se houvesse justiça tinham pena capital

MENDES DE CARVALHO
(de Cantigas de Amor & Maldizer, 1966)

 

sexta-feira, 30 de setembro de 2022

A AURORA DISSOLVE OS MONSTROS - PAUL ELUARD

 

A AURORA DISSOLVE OS MONSTROS

 

Ignoravam

que a beleza do homem é maior do que o homem

 

Viviam para pensar pensavam para se calarem

Viviam para morrer eram inúteis

Ocultavam a sua inocência na morte

 

Tinham posto em ordem

sob o nome de riqueza

sua miséria sua bem-amada

 

Mastigavam flores e sorrisos

Só encontravam um coração na ponta das carabinas

 

Não percebiam a injúria dos pobres

Dos pobres amanhã sem problemas

 

Sonhos sem sol tornavam-nos eternos

Mas para que a nuvem se transformasse em lama

Desciam deixavam de fazer frente ao céu

 

A noite do seu reino a sua morte a sua bela sombra miséria

Miséria para os outros

 

Esqueceremos estes inimigos indiferentes

Em breve uma multidão

Repetirá baixinho a chama clara

A chama para nós dois unicamente paciência

Para nós dois em toda a parte o beijo dos vivos.

 

PAUL ELUARD

(in Algumas das Palavras, traduções de António Ramos Rosa e Luiza Neto Jorge, Publicações Dom Quixote, 1969 / original de Le lit la table, 1944)

 

segunda-feira, 26 de setembro de 2022

Na sombra das coisas - ADONIS, أدونيس (Ali Ahmad Said)

 


Na sombra das coisas

        Gosto de ficar na sombra das coisas
no segredo delas, gosto
de entranhar a criação
de vagar como as ideias
como a arte que se entranha
e, incerto, incauto
renasço a cada dia.

ADONIS, أدونيس ( Ali Ahmad Said )

 


quarta-feira, 21 de setembro de 2022

Saudade - Pablo Neruda

Saudade

Saudade é solidão acompanhada,
é quando o amor ainda não foi embora,
mas o amado já…

Saudade é amar um passado que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca,
é não ver o futuro que nos convida…

Saudade é sentir que existe o que não existe mais…

Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás,
é o gosto de morte na boca dos que continuam…

Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
aquela que nunca amou.

E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudades,
passar pela vida e não viver.

O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido.

 

Pablo Neruda