sábado, 13 de abril de 2024

Os Frutos - Francisco Duarte Mangas

 


Os Frutos

a árvore das palavras
povoa-se de frutos
e esses pequeninos frutos
abrigam o silêncio
dos meninos mortos de gaza.

Francisco Duarte Mangas

quinta-feira, 11 de abril de 2024

O abril roxo de um país - João Rasteiro

O abril roxo de um país

“Onde emergimos da noite e do silêncio

E livres habitamos a substância do tempo”

Sophia de Mello Breymer

1.

Oh uivo de corpos ecoado por ratazanas

onde um país mergulha além das rosas

no horizonte da envelhecida visitação

dos cravos só raiz de cimento e alcatrão.

*

As palavras alagam-te, ó Portugal de sol

com tufos negros de peixes negros,

os galhos partidos nos olhos da esperança

dos ramos desalentados são um abril roxo.

*

É como se nenhuma manhã inteira e limpa

sob a névoa, como um tal D. Sebastião,

alguma vez tenha irrompido do seu musgo.

*

Palavras não de sol, palavras de flores secas,

palavras de amor e morte, palavras já só de

esperança ausente e do medo dessas palavras.

 

2.

Uma espera é sempre o puro vislumbre

de um princípio de espaço primaveril,

neste eflúvio mudo do regaço abril

só um cravo partido entre a revolução.

*

já, e o abismo da memória de um país.

E mesmo mudando uns frágeis versos

para perto das águas quentes do rio,

como as rosas tristes, estes cravos são

*

hoje como as grandes escamas secas

de um peixe sufocado no sopro do Tejo.

“Fora existe o mundo”, aqui, a luzente

*

brutalidade da inércia de ti, Portugal:

não, não, esta nunca foi a tua madrugada

esperada, a nossa utopia inteira e limpa!

 

João Rasteiro

segunda-feira, 8 de abril de 2024

REVOLUÇÃO, JÁ? - Filipa Leal

REVOLUÇÃO, JÁ?

A poesia está na rua

Sophia, 25 de Abril de 1974

 

Agora, que já fizemos a revolução,

podemos começar a renovar a habitação?

 

Os professores estão na rua.

Os médicos estão na rua.

Os agricultores estão na rua.

Os polícias estão na rua

(mas não para parar os outros;

estão na rua como os outros lá estão.)

 

Os turistas estão na rua.

Milhões de turistas estão na rua.

Vão parando para tomar café nas agências

imobiliárias, e vão comprando palácios, aqui e ali,

entre um pastel de Belém e uma imperial.

Alguns compram casas com gente lá dentro, e despejam

o lixo e a gente das casas que ficam vazias lá dentro,

mas eles voltam mais cheios lá para fora.

Sentem-se mais vistos.

 

As pessoas estão na rua

(mas não para passear como os turistas;

estão como os turistas não estão:

a dormir na rua, sem habitação.)

 

Os jovens estão na rua.

Comem o pão que a História amassou,

comem pão de ontem em casa dos pais

e os pais ajudam a pagar o bilhete de avião

para que os filhos de amanhã comam pão de amanhã.

E, assim, alguns jovens felizes estão na rua, também,

mas na rua de Sydney, de Londres ou Paris.

Falam bem inglês e até francês.

Sabem bem dizer saudade em português.

Jantam sushi e alugam apartamentos com aquecimento

central zona central, mas telefonam muito à família

e o que queriam era viver em Portugal.

 

As flores não estão na rua,

como no poema de Drummond de 1945.

 

A poesia não está na rua,

como no verso de Sophia de 1974.

 

Agora, que já fizemos a revolução,

porque não amassamos o próprio pão

na nossa própria habitação?

 

Filipa Leal

 

sábado, 6 de abril de 2024

Já faz tempo que escolhi - Thiago de Mello

Já faz tempo que escolhi

 

A luz que me abriu os olhos

para a dor dos deserdados

e os feridos de injustiça,

não me permite fechá-los

nunca mais, enquanto viva.

Mesmo que de asco ou fadiga

me disponha a não ver mais,

ainda que o medo costure

os meus olhos, já não posso

deixar de ver: a verdade

me tocou, com sua lâmina

de amor, o centro do ser.

Não se trata de escolher

entre cegueira e traição.

Mas entre ver e fazer

de conta que nada vi

ou dizer da dor que vejo

para ajudá-la a ter fim,

já faz tempo que escolhi.

 

Thiago de Mello

no livro "Mormaço na floresta"

Civilização Brasileira, 1981.

 

quinta-feira, 4 de abril de 2024

Palestina - José do Carmo Francisco

Palestina

Não são donos sequer da sombra
Que no chão projectam ao passar

Tudo ou quase tudo lhes foi tirado
A terra, os ribeiros, as ovelhas dispersas pela terra
Os títulos de posse das pequenas quintas.

Tudo ou quase tudo
Menos o futuro amarrotado num bolso
Menos a esperança, menos o olhar.

José do Carmo Francisco


quarta-feira, 3 de abril de 2024

Fotos do fogo - Sérgio Godinho

 

Fotos do Fogo

Chega-te a mim
mais perto da lareira
vou-te contar
a história verdadeira

A guerra deu na tv
foi na retrospectiva
corpo dormente em carne viva
revi p´ra mim o cheio aceso
dos sítios tão remotos
e do corpo ileso
vou-te mostrar as fotos
olha o meu corpo ileso

Olha esta foto, eu aqui
era novo e inocente
"às suas ordens, meu tenente!"
E assim me vi no breu do mato
altivo e folgazão
ou para ser mais exacto
saudoso de outro chão
não se vê no retrato

Chega-te a mim
mais perto da lareira
vou-te contar
a história verdadeira

Nesta outra foto, é manhã
olha o nosso sorriso
noite acabou sem ser preciso
sair dos sonhos de outras camas
para empunhar o cospe-fogo e o lança-chamas
estás são e salvo e logo
"viver é bom", proclamas

Eu nesta, não fiquei bem
estou a olhar para o lado
tinham-me dito: eh soldado!
É dia de incendiar aldeias
baralha e volta a dar
o que tiveres de ideias
e tudo o que arder, queimar! no fogo assim te estreias

Chega-te a mim
mais perto da lareira
vou-te contar
a história verdadeira

Nesta outra foto, não vou
dar descanso aos teus olhos
não se distinguem os detalhes
mas nota o meu olhar, cintila
atrás da cor do sangue
vou seguindo em fila
e atrás da cor do sangue
soldado não vacila

O meu baptismo de fogo
não se vê nestas fotos
tudo tremeu e os terremotos
costumam desfocar as formas
matamos, chacinamos
violamos, oh, mas
será que não violamos
as ordens e as normas?

Chega-te a mim
mais perto da lareira
vou-te contar
a história verdadeira

Álbum das fotos fechado
volto a ser quem não era
como a memória, a primavera
rebenta em flores impensadas
num livro as amassamos
logo após cortadas
já foi há muitos anos
e ainda as mãos geladas

Chega-te a mim
mais perto da lareira
vou-te contar
a história verdadeira
quando a recordo
sei que quase logo acordo
a morte dorme parada
nesta morada

Sérgio Godinho

 

sábado, 30 de março de 2024

UMA PEQUENINA LUZ, Jorge de Sena - Catarina Guerreiro

 

Uma Pequenina Luz

Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumière
just a little light
una picolla… em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a adivinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Brilhando indeflectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não é ela que custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:
brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
no meio de nós.
Brilha

Jorge Sena