As palavras da língua, talvez
ou Poema sobre a Língua Portuguesa
as minhas palavras são nesta língua
que lambe o coiro da realidade,
o meu silêncio também é em português,
os meus tímpanos é que são, vibrando,
a parte internacionalista do meu corpo,
as minhas palavras induzem em erro, levam
os demais à beira do poço, aí está a língua
vermelha, extraordinariamente vermelha,
com que escrevo à luz de um candeeiro
em forma de vocábulos, de sons híbridos,
vês as minhas mãos nos seios da frase?
vês a história como se constrói diante
dos teus olhos? ouves a respiração da língua
em cada um dos meus instantes?
olha, este canivete rasga as linhas das letras,
a língua, mesmo a língua das palavras,
lambe o silêncio em vão, por isso aparecem
todos esses livros ao virar de uma esquina.
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