sábado, 15 de novembro de 2014

UM HINO À AMIZADE – JOSÉ CASANOVA

“O Caminho das Aves”
“Sete dias tem a nossa vida nova e este é o sétimo mas nem por isso descansaremos”

José Casanova, “O Caminho das Aves

Durante sete longos-breves dias, vivemos com o narrador as cinquenta primeiras páginas, que outras não conhecemos assim perfeitas no olhar sobre acontecimento havia tanto ansiado.
É também o primeiro contacto com algumas das personagens deste belo romance, “O Caminho das Aves” de José Casanova, das quais teremos conhecimento retrospetivo das suas vivências, na construção de mais uma importante etapa nesta gesta de gente que faz a história e, porque a não escreve, dela não fica relato; homens e mulheres que, porque humanos são, das suas contradições têm consciência e encontram na amizade o núcleo que congrega forças, aperta laços, levanta pontes a caminho da liberdade.
E assim acompanhados, sem que disso tenhamos consciência, mergulhamos no livro como se não o estivéssemos lendo; dialogamos com as personagens, percorrendo a cidade, o país, agitado por idênticas preocupações, envolvidos pelo suave sentimento da amizade, pilar estruturante deste romance de grande atualidade e utilidade incontestável.
De olhos marejados, frente a um livro que nos enternece, letras, frases, todo o texto surge desfocado pela emoção.
Isto porque “O Caminho das Aves” é um livro impregnado de solidariedade “em nome da amizade do amor e da ternura”, sem deixar de ser um romance de enorme lucidez, alicerçado em valores perenes que nos tocam, de modo indelével, oferecendo-nos os caminhos do futuro.
Se há prazeres que a literatura nos proporciona, são justamente aqueles em que, forçados pela emoção ou retidos pela razão, suspendemos a leitura, deixando o pensamento percorrer “o caminho das aves” e assim, de olhos fechados, sentindo a delícia do sonho ou da aventura, regressarmos à realidade da ficção que nos é proposta.
Se o livro de José Casanova desperta recordações aos que viveram determinada época, mostra aos mais novos o modo como se tece a resistência, se desbravam caminhos e se organiza a revolta, fortalecendo fracas vontades e não menosprezando pequenas razões.
Além do mais, “O Caminho das Aves” empresta asas ao pensamento, à imaginação, ao sonho onde habita o impossível, dando coragem aos que acreditam que “outro mundo é possível”, e mostrando aos céticos que, principalmente nas difíceis encruzilhadas da história, rejeitando oportunismos e afirmando princípios, é possível unir esforços, saberes e compreensão para seguirmos o caminho adequado, ultrapassar barreiras, evitar ciladas e romper cercos.
Sendo “um hino à amizade” como muito corretamente tem sido denominado, “O Caminho das Aves” é também um livro que enfrenta com determinação a história recente que soubemos construir e revisitamos com orgulho, “porque los que son guerreros / verdaderos / no descansan descansando.” Recado que Gil Vicente nos deixou há quase quinhentos anos e o autor perfilha.
Cid Simões
(Setembro de 2002)
«ATÉ SEMPRE, CAMARADA ZÉ»
NOVEMBRO 2014



1 comentário:

Rogerio G. V. Pereira disse...

" falando do Zé, o que parece é. Ele gostava mesmo das pessoas, num gostar genuíno. E era nessa Humanidade que alicerçava a força para a sua luta. Morreu, mas não partiu. Jamais deixaremos partir os nossos mortos!"

Belo, esse hino