Quereríamos
talvez
falar dos peixes e das redes,
de um veleiro ao largo de Gaza,
falar de trigo, de figos e pistácios
e até dos cardos sábios.
Quereríamos
talvez
falar de alperces, de azeitonas,
de palmeiras e folhas de oliveira,
falar de pomares de laranjeiras,
do fino e peregrino império da água.
Quereríamos
talvez
falar da escola, do mercado,
do hospital, da oficina,
falar de praças, de templos, de jardins,
de um porto de mar.
Mas só
nos resta aprender com uma menina,
esta menina com seus seios em botão,
que chega dos confins da memória
e crava uma bandeira rubra e preta, branca e verde
num montículo de pedras e poeira.
Rastejam nas leitarias, rastejam
entre os trapos
das lojas de fanqueiro, e nos cinemas, e nas conferências,
e nas faculdades, nas fábricas, nos comboios, no futebol, nas touradas,
rastejam, rastejam em toda a parte viscosos como sapos,
e abrem as bocas verdes com dentes verdes de excremências,
e cospem palavras torpes contra as janelas fechadas.
Rastejam nos cafés, nas
livrarias e nos portos,
rastejam e envenenam as noites, rastejam e empeçonham os dias,
raivosos babam-se quando falamos, quando lemos,
e olham os vivos de olhos vidrados como mortos,
e rastejam nos hotéis, nas pensões, nas padarias
e mãos de lama tocam o pão que nós comemos.
E as bocas verdes e imundas
bafejam, bafejam,
e as rosas fenecem, as rosas são mortas,
e os dedos de lama acusam no escuro,
e eles rastejam, rastejam, rastejam,
colados à sombra, colados às portas,
como cartazes de infâmia colados ao muro.
Bem sei que, muitas vezes,
O único remédio
É adiar tudo. É adiar a sede, a fome, a viagem,
A dívida, o divertimento,
O pedido de emprego, ou a própria alegria.
A esperança é também uma forma
De continuo adiamento.
Sei que é preciso prestigiar a esperança,
Numa sala de espera.
Mas sei também que espera significa luta e não, apenas,
Esperança sentada.
Não abdicação diante da vida.
A
esperança
Nunca é a forma burguesa, sentada e tranquila da espera.
Nunca é figura de mulher
Do quadro antigo.
Sentada, dando milho aos pombos.