sábado, 5 de janeiro de 2019

L’AFFAIRE SARDINHA - José Paulo Paes

L’AFFAIRE SARDINHA

O bispo ensinou ao bugre
Que pão não é pão, mas Deus
Presente em eucaristia
E como um dia faltasse
Pão ao bugre, ele comeu
O bispo, eucaristicamente
Paródia e intertextualidade


sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Uma menina - João Pedro Mésseder

Uma menina


Quereríamos talvez
falar dos peixes e das redes,
de um veleiro ao largo de Gaza,
falar de trigo, de figos e pistácios
e até dos cardos sábios.

Quereríamos talvez
falar de alperces, de azeitonas,
de palmeiras e folhas de oliveira,
falar de pomares de laranjeiras,
do fino e peregrino império da água. 

Quereríamos talvez
falar da escola, do mercado,
do hospital, da oficina,
falar de praças, de templos, de jardins,
de um porto de mar.

Mas só nos resta aprender com uma menina,
esta menina com seus seios em botão,
que chega dos confins da memória
e crava uma bandeira rubra e preta, branca e verde
num montículo de pedras e poeira.


in A quem pertence a linha do horizonte,
caderno inédito, 2000/2018

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

RONDA DOS RÉPTEIS - Sidónio Muralha



RONDA DOS RÉPTEIS


Rastejam nas leitarias, rastejam entre os trapos
das lojas de fanqueiro, e nos cinemas, e nas conferências,
e nas faculdades, nas fábricas, nos comboios, no futebol, nas touradas,
rastejam, rastejam em toda a parte viscosos como sapos,
e abrem as bocas verdes com dentes verdes de excremências,
e cospem palavras torpes contra as janelas fechadas.

Rastejam nos cafés, nas livrarias e nos portos,
rastejam e envenenam as noites, rastejam e empeçonham os dias,
raivosos babam-se quando falamos, quando lemos,
e olham os vivos de olhos vidrados como mortos,
e rastejam nos hotéis, nas pensões, nas padarias
e mãos de lama tocam o pão que nós comemos.

E as bocas verdes e imundas bafejam, bafejam,
e as rosas fenecem, as rosas são mortas,
e os dedos de lama acusam no escuro,
e eles rastejam, rastejam, rastejam,
colados à sombra, colados às portas,
como cartazes de infâmia colados ao muro.


Sidónio Muralha

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

A canção - Mário Quintana




A canção

"Enquanto os teus olhos ainda estão cerrados sobre os
[mistérios noturnos da alma
E o dia ainda não abriu as suas pálpebras,
Nasce a canção dentro de ti como um rumor de águas,
Nasce a canção como um vento despertando as folhagens…
Não vem de súbito, vem de longe e de muito tempo.
Mas - agora - estás desperto na cidade e não sabes,
Entre tantos rumores e motores,
Como é que tens de súbito esta serenidade
De quem recebesse uma hóstia em pleno inferno.
Deve ser de versos que leste e nem te lembras,
De telas, de estátuas que viste,
De um sorriso esquecido...
E destas sementes de beleza
E que
- às vezes -
No chão do rumoroso deserto em que pisas,
Brota o milagre da canção!"

 - A cor do invisível - pág.22)

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

A rua - Cassiano Ricardo

(1º poema de 2019 e ícone de “voar fora da asa”)
 
A rua

Bem sei que, muitas vezes,
O único remédio
É adiar tudo. É adiar a sede, a fome, a viagem,
A dívida, o divertimento,
O pedido de emprego, ou a própria alegria.
A esperança é também uma forma
De continuo adiamento.
Sei que é preciso prestigiar a esperança,
Numa sala de espera.
Mas sei também que espera significa luta e não, apenas,
Esperança sentada.
Não abdicação diante da vida. 

A esperança
Nunca é a forma burguesa, sentada e tranquila da espera.
Nunca é figura de mulher
Do quadro antigo.
Sentada, dando milho aos pombos.