sábado, 25 de agosto de 2018

OS ALEGRES PROPÓSITOS - Alexandre O’Neill

OS ALEGRES PROPÓSITOS

pincharam para fora.

Está vazia a gamela?
É o que há.

Vamos ferver o osso da pobreza,
que é, desta vez, alegremente nossa?

É que a mesa corrida já está posta.


1975

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

A Besta - Maria João Cantinho

A Besta

De que tempo somos, agora
que a tempestade sopra de novo
e ao céu sobe este monte de ruínas
devastação anoitecendo o mundo

tenta lembrar-te de que lado
veio um dia o alerta, de que armário
saiu este cortejo de sombras
onde se gravou o que a história
deixou escapar, nas malhas do mito

para de novo retornar
a besta silenciosa, a que vigia
sem que as pálpebras lhe desçam
uma única vez. Silente

talvez estivéssemos nós, os do Sul,
embriagados pela torpeza do metal
e por isso ela moveu-se devagar
como se fosse cinza na minha memória

MJC, «Do Ínfimo», Editado pela editora Penalux, Brasil, 2018.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Bares - Nicolás Guillén (Tradução de Albano Martins)

Bares

Amo os bares e as tabernas
junto ao mar,
onde as pessoas conversam e bebem
apenas para beber e conversar.
Onde João Ninguém chega e pede
o seu trago elementar,
onde estão João Bronco e João Navalha
e João Narizes e até o João
sem mais, o apenas, o simplesmente
João.

Ali bate a onda branca
da amizade,
uma amizade de gente sem retórica,
uma onda de olá! e como estás?
Ali cheira a peixe,
a mangue, a rum, a sal
e a camisa suada a secar ao sol.

Procura me, irmão, e achar me ás
(em Havana, no Porto
em Jacmel, em Xangai)
com a gente simples
que apenas para beber e conversar
enche os bares e as tabernas
junto ao mar


(Tradução de Albano Martins)

terça-feira, 21 de agosto de 2018

Chicago - Carl Sandburg

Chicago

Chacinadora de porcos para o mundo,
fabricante de máquinas, ensiladora de trigo,
tu que brincas com as ferrovias e transportas os produtos do país:
tumultuosa, grosseira, sempre aos gritos,
ó cidade das costas largas:

Dizem-me que és selvagem e eu acho que sim: vi as tuas mulheres
pintadas seduzirem os rapazes do campo à luz dos lampiões.
Dizem-me que és injusta e eu respondo: é verdade; vi pistoleiros matarem e ficarem livres para continuarem a matar.
E dizem-me que és brutal. A minha resposta é: nas caras
das mulheres e das crianças vi as marcas de uma fome tenaz.
Foi o que respondi. E voltando-me mais uma vez para aqueles que escarnecem da minha
cidade,  por meu turno escarneci deles, dizendo:
Mostrai-me outra cidade que de cabeça levantada cante assim, orgulhosa de estar viva e de ser rumorosa e forte e astuta.
Lançando magnéticas pragas, acumulando afadigamente fainas sobre fainas, eis a grande ardorosa lutadora erguendo-se viva entre as pequenas cidades efeminadas;
feroz como um mastim de língua pendente, pronto para o assalto, ardilosa como um selvagem que defronta a hostilidade do deserto,
de cabeça nua
amontoas
arrasas
planificas
constróis, destróis, reconstróis,
por entre o fumo, a boca cheia de pó, rindo com brancos dentes,
sob o peso terrível do destino rindo como riem os jovens,
rindo como ri um lutador ignorante que nunca perdeu um combate.
rindo gabarola, rindo de sentires o sangue a pulsar-te nas veias,
rindo de sentires no peito o coração do povo!
Rindo o sonoro, rude, tempestuoso riso da mocidade semi-nua, suarenta, orgulhosa de seres a chacinadora de porcos para o mundo, a fabricante de máquinas, a cidade que brinca com as ferrovias e transporta os produtos do país.

 Carl Sandburg
(tradução de Alexandre O'Neil)

sábado, 18 de agosto de 2018

Poema do Acordo Ortográfico - Arquimedes da Silva Santos



Poema do Acordo Ortográfico

Pois o que havia de acontecer à língua
assim, sem mais nem menos, logo agora...
Qual será o factor, perdão, fator que o explica?
coisa tão inusitada, a mudança. Ou não?
Mas enquanto os Velhos do Restelo vociferam
e os defensores vivem a primavera da vitória,
as palavras chegam-nos despidas do velho,
límpidas e exatas no corpo que as diz.
Nada me pesa na ação, na atividade, no atual.
Adoto facilmente o novo, não sou cético - sou arquiteto
das origens renovadas pelo uso e desuso.
Faço coleção de pequenos meses, dias e estações
e de obras, ruas, sabedorias e pessoas superiores
que me surgem como querem que elas surjam.
Não hei-de, perdão, não hei de queixar-me
daquele sinal que separa os elementos que se querem casar,
porque vou fazer um inter-rail, pois sou pró-europeu
e sou super-resistente (até porque uso anti-histamínicos)
e gosto de ver amores-perfeitos pelas ruas em perspetiva,
e porque há tantos outros que se casam
num fim de semana ao pôr do sol:
autorretrato, coautor, cosseno, subregião
e até a minissaia fica mais longa, mas mais perto...
A todos aqueles que me lêem, perdão, leem,
saibam que encontrámos muitos casos giros
porque para o pelo para sair pelo pau onde pelo pêssegos
ou porque o egípcio vive no Egito e não no Egipto
e não é porque há reivindicações por lá.
E porque tudo isto vai já longo - verdadeiros heróis
que me creem de bem com esta paranoia
vamos sair para todas as rosas dos ventos,
olhar o maio deste acordo outonal -
- a dúvida é ficção desmontada dia a dia
e o sol ainda nos chama para o cor de laranja
lá fora.

Arquimedes da Silva Santos