quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

AGÊNCIA IMOBILIÁRIA - Antonio Orihela

  

AGÊNCIA IMOBILIÁRIA

(Para Montse Villar)

A nossa casa são os outros.

 

Quando descobrirmos isto, tão simples,

começaremos a militar o amor,

 

quando descobrirmos isto,

tão simples.

 

Antonio Orihela

(Espanha, 1965 - )

In "Sem Fim" (Antologia Pessoal)

(Tradução de Carlos D´Abreu e Albino Matos)

(do blog ‘ajuda-me a ver e a ler’)

 

M
T
G
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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Abril 74/Abril 24 - António Carlos Cortez

Abril 74/Abril 24


Vozes que vazaram onde vão, diz um poeta
de outrora seu eco desaguando neste texto.
Estamos no olho do furacão no tempo errado?

Abril é memória convulsiva e dizes
“Onde vão as vozes que vazaram”
repetindo outra era, outro pó e outro estado

Na fotografia antiga um soldado no largo
onde tanques mergulhados estavam por
uma multidão sanguínea, crianças com flores


de paz despediam-se dum tempo escuro e frio
Abril tinha ainda no rio as formas trágicas e
heróicas e era uma porta aberta ao dia claro

Mas quem cerrou o tempo ao ido grito
de uma esperança refractada?
Abril de mil novecentos e setenta e quatro

guardo como uma idade mágica não vivida
mas sentida ao longo destes anos em que nada
o teu calor intempestivo pode apagar

Ó vozes que vieram na vazante – a nossa vida
(a nossa – os que depois de vocês, nascidos
para o dia lusíada e não reencontrado) –

em nós Abril é a voz carnal
um fogo posto no país amado

António Carlos Cortez

 

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

ÚNICA DÁDIVA - GABRIEL MARIANO

 

ÚNICA DÁDIVA

Os engajadores levaram
a nossa única dádiva
e já ninguém devolve - 
o que nos foi roubado.

                Longa è a ladeira que a fome alonga.

Enquanto eu vivo
as perguntas duram
E eu vivo da fome
interrogativamente.

                Longa è a ladeira que a fome alonga.

Como podem ladrões
rondar meus olhos
se amor só
meus olhos tem?

                Longa è a ladeira que a fome alonga
                terralonginquamente.

GABRIEL MARIANO

 (12 Poemas de Circunstância, Praia, Minerva, 1965)
                

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

REGRESSO - Miguel Torga

 

REGRESSO


Pátria magra - meu corpo figurado...
Meu pobre Portugal de pele e osso!
Nada na tua imagem se alterou:
A casca e o caroço
Dum sonho que mirrou...

 

Miguel Torga

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Absurdo - Beatriz Nascimento

 

Absurdo

[01.09.1987]

De longe de muito longe ouço um toque de jazz

De longe de muito longe ouço um acordo de paz

De jazz se é coerente

De paz se é concernente

De longe muito longe ouço notícia de ontem

No mundo o que aconteceu?

Nasceu um ser humano, enquanto outro morreu.

De longe de muito longe ouço um pedido de trégua

Mas por aqui só há guerra

O que foi mesmo que ouvi?

De longe muito longe ouço ruído de risos

Mas por aqui, só gemidos

Me indicam o que há de concreto

O jazz continua pelo espaço

Em sons de cordas em acordes

Os acordos não concluíram, estancaram

Que entre risos e gemidos permaneça o

Som vigoroso do jazz

Em intervalos de paz

Beatriz Nascimento