Porque
não sobem à ribalta os artífices que nos permitem usufruir de tanta beleza, hoje
presto a devida homenagem a um mestre que os projetores desconhecem.
domingo, 16 de agosto de 2015
quinta-feira, 13 de agosto de 2015
O homem que contempla - Rainer Maria Rilke
Rainer Maria Rilke
[1875-1926]
O homem
que contempla
Vejo que
as tempestades vêm aí
pelas árvores que, à medida que os dias se tomam mornos,
batem nas minhas janelas assustadas
e ouço as distâncias dizerem coisas
que não sei suportar sem um amigo,
que não posso amar sem uma irmã.
pelas árvores que, à medida que os dias se tomam mornos,
batem nas minhas janelas assustadas
e ouço as distâncias dizerem coisas
que não sei suportar sem um amigo,
que não posso amar sem uma irmã.
E a tempestade rodopia,
e transforma tudo,
atravessa a floresta e o tempo
e tudo parece sem idade:
a paisagem, como um verso do saltério,
é pujança, ardor, eternidade.
atravessa a floresta e o tempo
e tudo parece sem idade:
a paisagem, como um verso do saltério,
é pujança, ardor, eternidade.
Que pequeno
é aquilo contra
que lutamos,
como é imenso, o que contra nós luta;
se nos deixássemos, como fazem as coisas,
assaltar assim pela grande tempestade, —
chegaríamos longe e seríamos anónimos.
como é imenso, o que contra nós luta;
se nos deixássemos, como fazem as coisas,
assaltar assim pela grande tempestade, —
chegaríamos longe e seríamos anónimos.
Triunfamos
sobre o que
é Pequeno
e o próprio êxito torna-nos pequenos.
Nem o Eterno nem o Extraordinário
serão derrotados por nós.
e o próprio êxito torna-nos pequenos.
Nem o Eterno nem o Extraordinário
serão derrotados por nós.
Este é o anjo
que aparecia
aos lutadores do Antigo Testamento:
quando os nervos dos seus adversários
na luta ficavam tensos e como metal,
sentia-os ele debaixo dos seus dedos
como cordas tocando profundas melodias.
aos lutadores do Antigo Testamento:
quando os nervos dos seus adversários
na luta ficavam tensos e como metal,
sentia-os ele debaixo dos seus dedos
como cordas tocando profundas melodias.
Aquele que
venceu este anjo
que tantas vezes renunciou à luta,
esse caminha erecto, justificado,
e sai grande daquela dura mão
que, como se o esculpisse, se estreitou à sua volta.
que tantas vezes renunciou à luta,
esse caminha erecto, justificado,
e sai grande daquela dura mão
que, como se o esculpisse, se estreitou à sua volta.
Os triunfos já
não o tentam.
O seu crescimento
é: ser o profundamente
vencido
por algo cada vez maior.
por algo cada vez maior.
Tradução de Maria João Costa Pereira
terça-feira, 11 de agosto de 2015
Sou barco - António Borges Coelho - (Luís Cília)
Sou barco
Sou barco abandonado
Na praia ao pé do mar
E os pensamentos são
Meninos a brincar
Ei-lo que salta bravo
E a onda verde-escura
Desfaz-se em trigo
De raiva e amargura.
Ouço o fragor da vaga
Sempre a bater ao fundo,
Escrevo, leio, penso,
Passeio neste mundo
De seis passos
E o mar a bater ao fundo.
Agora é todo azul,
Com barras de cinzento,
E logo é verde, verde
Teu brando chamamento
Ó mar, venha a onda forte
Por cima do areal
E os barcos abandonados
Voltarão a Portugal.
António Borges Coelho
"Sou barco" -
(António Borges Coelho/Luís Cília)domingo, 9 de agosto de 2015
Falo do que é físico - ANA HATHERLY
(1929-2015)
Falo do que
é físico
Falo do que é físico porque não
tenho outra realidade.
Falo do corpo
do mundo
do que ainda não sabemos e chamamos
divino.
Falo do que é físico
porque tudo o que é real tem corpo e
ocupa espaço.
Falo disso.
Falo do que existe
e tudo é tanto que nunca chega o
tempo
nunca chega o fôlego.
Vejo até à asfixia
gente, coisas, o invisível.
Tudo me faz estar em permanente
frêmito
sair para a rua de noite
e andar até cair de cansaço.
Pensando em tudo isso
extremamente sobreposto
como se uma grande dor não anulasse
outra
como se fosse possível
pensar em mais de uma coisa de uma
só vez
sentindo o simultâneo impossível
querendo abranger
a incontrolável voracidade dentro de
tudo.
Corro por mim fora
como um grande atleta
campeão de barreiras e distâncias
invencíveis
tentando vencer
mas tudo é enorme e intrincado
tudo em mim são olhos vigilantes
sem jamais pálpebra.
Mas tudo isso não chega.
Tudo é enorme
e morro tão depressa.
aNA HATHERLY
quinta-feira, 6 de agosto de 2015
Esta Gente / Essa Gente - Ana Hatherly (1929-2015)
Esta Gente / Essa Gente
O que é preciso é gente
gente com dente
gente que tenha dente
que mostre o dente
Gente que não seja decente
nem docente
nem docemente
nem delicodocemente
Gente com mente
com sã mente
que sinta que não mente
que sinta o dente são e a mente
Gente que enterre o dente
que fira de unha e dente
e mostre o dente potente
ao prepotente
O que é preciso é gente
que atire fora com essa gente
Essa gente dominada por essa gente
não sente como a gente
não quer
ser dominada por gente
NENHUMA!
A gente
só é dominada por essa gente
quando não sabe que é gente
gente com dente
gente que tenha dente
que mostre o dente
Gente que não seja decente
nem docente
nem docemente
nem delicodocemente
Gente com mente
com sã mente
que sinta que não mente
que sinta o dente são e a mente
Gente que enterre o dente
que fira de unha e dente
e mostre o dente potente
ao prepotente
O que é preciso é gente
que atire fora com essa gente
Essa gente dominada por essa gente
não sente como a gente
não quer
ser dominada por gente
NENHUMA!
A gente
só é dominada por essa gente
quando não sabe que é gente
ana Hatherly
in "Um Calculador de Improbabilidades"
(1929-2015)
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