segunda-feira, 10 de outubro de 2016

A MINHA ALDEIA - Teixeira de Pascoais


A MINHA ALDEIA

Homens, que trabalhais na minha aldeia,
Como as árvores, vós sois a Natureza.
E se vos falta, um dia, o caldo para a ceia
E tendes de emigrar,
Troncos desarreigados pelo vento,
Levais terra pegada ao coração.

E partis a chorar.
Que sofrimento,
Ó Pátria, ver crescer a tua solidão!

domingo, 9 de outubro de 2016

FEIOS, PORCOS E MAUS - JOSÉ MIGUEL SILVA


FEIOS, PORCOS E MAUS

Compram aos catorze a primeira gravata
com as cores do partido que melhor os ilude.
Aos quinze fazem por dar nas vistas no congresso
da jota, seguem a caravana das bases, aclamam
ou apupam pelo cenho das chefias, experimentam
o bailinho das federações de estudantes.
Sempre voluntariosos, a postos sempre,
para as tarefas de limpeza após combate.
São os chamados anos de formação. Aí aprendem
a compor o gesto, a interpretar humores,
a mentir honestamente, aí aprendem a leveza
das palavras, a escolher o vinho, a espumar
de sorriso nos dentes, o sim e o não
mais oportunos. Aos vinte já conhecem
pelo faro o carisma de uns, a menos valia
de outros, enquanto prosseguem vagos estudos
de Direito ou de Economia. Começam, depois
disso, a fazer valer o cartão de sócio: estão à vista
os primeiros cargos, há trabalho de sapa pela frente,
é preciso minar, desminar, intrigar, reunir.
Só os piores conseguem ultrapassar esta fase.
Há então quem vá pelos municípios, quem prefira
os organismos públicos — tudo depende do golpe
de vista ou dos patrocínios que se tem ou não.
Aos trinta e dois é bem o momento de começar
a integrar as listas, de preferência em lugar
elegível, pondo sempre a baixeza em cima de tudo.
A partir do Parlamento, tudo pode acontecer:
director de empresa municipal, coordenador de,
assessor de ministro, ministro, comissário ou
director-executivo, embaixador na Provença,
presidente da Caixa, da PT, da PQP e, mais à frente
(jubileu e corolário de solvente carreira),
o golden-share de uma cadeira ao pôr-do-sol.
No final, para os mais obstinados, pode haver
nome de rua (com ou sem estátua) e flores
de panegírico, bombardas, fanfarras de formol.

JOSÉ MIGUEL SILVA
José Miguel Silva nasceu em Maio de 1969, em Vila Nova de Gaia. Publicou os seguintes livros de poesia:  O Sino de Areia (Gilgamesh, 1999), Ulisses Já Não Mora aqui (&etc, 2002),  Vista Para um Pátio seguido de Desordem (Relógio D’Água, 2003), 24 de Março (2004) Movimentos no Escuro (Relógio D’Água, 2005). Alguns dos seus poemas estão incluídos na antologia Poetas Sem Qualidades (Averno, 2002). José Miguel Silva também é tradutor, colabora esporadicamente em revistas literárias. Movimentos no Escuro (2005)

sábado, 8 de outubro de 2016

Caminhos velhos - José-Augusto de Carvalho




Por que insistes nas velhas estradas

que já sabes aonde vão dar?

Por que tanto receias ousar

rasgar novas estradas

no abandono das terras cansadas

de esperar?


José-Augusto de Carvalho

Alentejo, 29 de Setembro de 2016.

15 - CANTO REBELADO


Nasceu em Viana do Alentejo a 20 de Julho de 1937 onde reside; tem vasta obra poética publicada: “arestas vivas”, 1980, “sortilégio”, 1986, “tempos do verbo”, 1990, “vivo e desnudo”, 1996, “Nós Poesia…” (em parceria com Lisete Abrahão), 2002 e “instante nudez”, 2005. Sob chancela da edium editores publicou em 2008 o título “Da Humana Condição” e como co-autor na “II Antologia Amante das Leituras”, 2008. Está a traduzir para esta chancela “Por terras de Portugal e Espanha” da Miguel de Unamuno e “Selecta Poética” de António Machado.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Mulher proletária - Jorge de Lima




Mulher proletária

Mulher proletária — única fábrica
que o operário tem, (fabrica filhos)
tu
na tua superprodução de máquina humana
forneces anjos para o Senhor Jesus,
forneces braços para o senhor burguês.

Mulher proletária,
o operário, teu proprietário
há de ver, há de ver:
a tua produção,
a tua superprodução,
ao contrário das máquinas burguesas
salvar o teu proprietário.


quinta-feira, 6 de outubro de 2016

A tentação - Murilo Mendes


A tentação


Diante do crucifixo
Eu paro pálido tremendo
“ Já que és o verdadeiro filho de Deus
Desprega a humanidade desta cruz”.


Murilo Mendes
In: Poesia liberdade. Rio de Janeiro, Agir, 1947.