FEIOS, PORCOS E MAUS
Compram aos catorze a primeira gravata
com as cores
do partido que
melhor os ilude.
Aos quinze fazem por dar
nas vistas no congresso
da jota, seguem a caravana
das bases, aclamam
ou apupam pelo
cenho das chefias,
experimentam
o bailinho das federações de estudantes.
Sempre voluntariosos,
a postos sempre,
para as tarefas
de limpeza após combate.
São os chamados anos
de formação. Aí
aprendem
a compor o gesto,
a interpretar humores,
a mentir honestamente,
aí aprendem a leveza
das palavras, a escolher
o vinho, a espumar
de sorriso nos
dentes, o sim
e o não
mais oportunos.
Aos vinte já conhecem
pelo faro o carisma de uns, a menos
valia
de outros, enquanto
prosseguem vagos estudos
de Direito ou
de Economia. Começam, depois
disso, a fazer valer o cartão de sócio: estão à vista
os primeiros cargos,
há trabalho de sapa
pela frente,
é preciso minar,
desminar, intrigar, reunir.
Só os piores
conseguem ultrapassar esta fase.
Há então
quem vá pelos
municípios, quem
prefira
os organismos públicos
— tudo depende do golpe
de vista ou
dos patrocínios que
se tem ou não.
Aos trinta e dois é bem o
momento de começar
a integrar as listas,
de preferência em
lugar
elegível, pondo sempre
a baixeza em
cima de tudo.
A partir do Parlamento, tudo
pode acontecer:
director de empresa municipal, coordenador de,
assessor de ministro,
ministro, comissário
ou
director-executivo, embaixador na
Provença,
presidente da Caixa,
da PT, da PQP e, mais à frente
(jubileu e corolário
de solvente carreira),
o golden-share de uma cadeira ao pôr-do-sol.
No final, para
os mais obstinados,
pode haver
nome de rua
(com ou
sem estátua)
e flores
de panegírico, bombardas, fanfarras de formol.
JOSÉ MIGUEL SILVA
José
Miguel Silva nasceu
em Maio de 1969, em Vila Nova de Gaia. Publicou os seguintes livros
de poesia: O Sino de Areia (Gilgamesh, 1999), Ulisses
Já Não Mora aqui (&etc, 2002), Vista Para um
Pátio seguido de Desordem (Relógio D’Água, 2003), 24 de
Março (2004) e Movimentos no Escuro (Relógio
D’Água, 2005). Alguns dos seus poemas estão incluídos na antologia Poetas
Sem Qualidades (Averno, 2002). José Miguel Silva também é tradutor,
colabora esporadicamente em revistas literárias.
Movimentos no Escuro (2005)