sábado, 15 de outubro de 2016

Amaria Gostava - Miguel Martins




Amaria

  Gostava.

  E digo gostava até
que o mar invadisse
os olhos,

ou chegasse a atingir
a pureza de uma
rosa ao nascer do
dia,

quando suas fragrâncias
são uma nuvem
dispersa
e alimentam aquilo
que de mais sensível
desperta
num ser incauto
procurando o extremo
da beleza,

ou em alguém
cujo único propósito
é conseguir abraçar
o mais rebuscado
mas mais belo dos
propósitos abstractos.

  Gostava de
conseguir oferecer
completamente
a nuvem de motivos
etéreos que preenchem
completamente
mas depois levam
a flutuar.

  Pois é:

  Gostava,
Mas não só!

  Amaria!

  Amaria que,
um dia,
as palavras
que surgissem
transformassem até
aquelas consciências
que estão amarradas
amargamente
aos dias sujos
e à lama do
desconsolo.

Miguel Martins
(Pedro Miguel Vieira Martins Lucas)

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Soprando ao Vento - BobDylan


 

Soprando ao Vento

Quantas estradas um homem precisará andar
Antes que possam chamá-lo de homem?
Quantos mares uma pomba branca precisará sobrevoar
Antes que ela possa dormir na areia?
Sim, e quantas balas de canhão precisarão voar
Até serem para sempre banidas?
A resposta, meu amigo, está soprando ao vento
A resposta está soprando ao vento
Sim, e quantos anos uma montanha pode existir
Antes que ela seja dissolvida pelo mar?
Sim, e quantos anos algumas pessoas podem existir
Até que sejam permitidas a serem livres?
Sim, e quantas vezes um homem pode virar sua cabeça
E fingir que ele simplesmente não vê?
A resposta, meu amigo, está soprando ao vento
A resposta está soprando ao vento
Sim, e quantas vezes um homem precisará olhar para cima
Antes que ele possa ver o céu?
Sim, e quantas orelhas um homem precisará ter
Antes que ele possa ouvir as pessoas chorar?
Sim, e quantas mortes ele causará até saber
Que pessoas demais morreram
A resposta, meu amigo, está soprando ao vento
A resposta está soprando ao vento?


Blowin' In The Wind

How many roads must a man walk down
Before you can call him a man?
How many seas must a white dove sail
Before she can sleep in the sand?
Yes and how many times must cannonballs fly
Before they're forever banned?
The answer, my friend, is blowin' in the wind
The answer is blowin' in the wind
Yes and how many years can a mountain exist
Before it's washed to the seas (sea)
Yes and how many years can some people exist
Before they're allowed to be free?
Yes and how many times can a man turn his head
Pretend that he just doesn't see?
The answer, my friend, is blowin' in the wind
The answer is blowin' in the wind
Yeah and how many times must a man look up
Before he can see the sky?
Yes and how many ears must one man have
Before he can hear people cry?
Yes and how many deaths will it take till he knows
That too many people have died
The answer, my friend, is blowin' in the wind
The answer is blowin' in the wind?

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

A Sensibilidade Humanizada - Álvaro de Campos


A Sensibilidade Humanizada

Que lindos olhos de azul inocente os do pequenito do agiota!
Santo Deus, que entroncamento esta vida!
Tive sempre, feliz ou infelizmente, a sensibilidade humanizada.
E toda a morte me doeu sempre pessoalmente,
Sim, não só pelo mistério de ficar inexpressivo o orgânico,
Mas de maneira directa, cá do coração.

Como o sól doura as casas dos réprobros!
Poderei odiá-los sem desfazer no sol?

Afinal que coisa a pensar com o sentimento distraído
Por causa dos olhos de criança de uma criança ...

Álvaro de Campos
 in "Poemas"

terça-feira, 11 de outubro de 2016

A refeição - Georges Haldas


a refeição

Nada mais que a toalha bem posta sobre a mesa
E as palavras e as vozes
Um pouco de azeite?
Estou servido
E tu?
        Georges Haldas

Le repas

Et rien que sur la table cette nappe bien mise
Et les mots et les voix
Un peu d'huile d'olive ?
Je suis servie
Et toi ?