terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Declaro-me rebelde… - Vicente Zito Lema

Declaro-me rebelde…

Se o mandato das urnas, é viver para a morte, declaro-me rebelde.
Não matarei ninguém inocente.
Não porei a corda ao pescoço.
Não pisarei a cabeça dos caídos.
Não beijarei os lábios do poder.
Vou abraçar todos os que não baixam os braços.
Vou olhar nos olhos todos os que não querem ver.
Vou apanhar o comboio para as estrelas… Há lugar para todos.

(23 de outubro 2017 num dia de paixões tristes)



Me declaro rebelde…
Si el mandato de las urnas es vivir para la muerte, me declaro rebelde.
No matare a ningún inocente.
No me pondré la soga en el cuello.
No pisare la cabeza del que está caído.
No besare los labios del poder.
Voy a abrazar a todos los que no bajan los brazos.
Voy a mirar en los ojos a todos los que no quieren ver.
Voy a subir al tren a las estrellas… Hay lugar para todos.
Vicente Zito Lema
23 de octubre 2017 en un día de pasiones tristes.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

As belas meninas pardas - Alda Lara

As belas meninas pardas

As belas meninas pardas
são belas como as demais.
Iguais por serem meninas,
pardas por serem iguais.

Olham com olhos no chão.
Falam com falas macias.
Não são alegres nem tristes.
São apenas como são
todos os dias.

E as belas meninas pardas,
estudam muito, muitos anos.
Só estudam muito. Mais nada.
Que o resto, trás desenganos...

Sabem muito escolarmente.
Sabem pouco humanamente.

Nos passeios de domingo,
andam sempre bem trajadas.
Direitinhas. Aprumadas.
Não conhecem o sabor que tem uma gargalhada
(Parecem mal rir na rua!...)

E nunca viram a lua,
debruçada sobre o rio,
às duas da madrugada.

Sabem muito escolarmente.
Sabem pouco humanamente.

E desejam, sobretudo, um casamento decente...

O mais, são histórias perdidas...
Pois que importam outras vidas?...
outras raças?..., outros mundos?...
que importam outras meninas,
felizes, ou desgraçadas?!...

As belas meninas pardas,
dão boas mães de família,
e merecem ser estimadas...


domingo, 4 de fevereiro de 2018

Um punhado de sal - Caio Fernando Abreu

Um punhado de sal

Um punhado de sal
em plena ferida aberta
ou
como um sorvete gelado no nervo
exposto
do dente
ou
que nem uma brasa viva
fechada
dentro da mão
ou
igual arame farpado
no branco escuro do olho
ou
um prego no pé descalço
ou
um soco na cara nua
ou
punhal entrando na tripa

assim te ouvi dizer
- não

Caio Fernando Abreu

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Saudades de tudo! - João Guimarães Rosa


Saudades de tudo!

Saudade, essencial e orgânica,
de horas passadas,
que eu podia viver e não vivi!...
Saudade de gente que não conheço,
de amigos nascidos noutras terras,
de almas órfãs e irmãs,
de minha gente dispersa,
que talvez até hoje ainda espere por mim...

Saudade triste do passado,
saudade gloriosa do futuro,
saudade de todos os presentes
vividos fora de mim!...

Pressa!...
Ânsia voraz de me fazer em muitos,
fome angustiosa da fusão de tudo,
sede de volta final
da grande experiência:
uma só alma em um só corpo,
uma só alma-corpo,
um só,
um!...
Como quem fecha numa gota
o Oceano,
afogado no fundo de si mesmo..."

João Guimarães Rosa