domingo, 19 de maio de 2019

SONETO EXPOSTO - Amadeu Baptista



SONETO EXPOSTO

(ou uma certa ideia de memória do país)

O desengonçado trânsito cavernícola.
 A eterna crise com os dentes afiados.
 Um país de paisagens marítimas e vinícolas,
 em que uns são filhos e outros enteados.

O recorte da serra na distância.
 Os pardais semoventes sobre as praças.
 Alguns homens sombrios com a ânsia
 de não serem roídos pelas traças.

O redil organizado como um caos.
 Uns quantos menos bons e outros muito maus.
 Uma planície, uma cidade, um chaparral.

E em volta disto o mar, sempre indiferente
 do que queira ou não queira a sua gente.
 E fica no soneto exposto Portugal.

sexta-feira, 17 de maio de 2019

"mãos dadas".quadras - Manuel Cunha (pité)

quadras
"mãos dadas". 

Há mãos que se dão
E mãos que nos dão
Toma a minha mão
Não digas que não

Há mãos que são mães
Outras que são pão
E estão quando vens
E nunca se vão

Há mãos que nos dedos
Têm tal talento
Que rasgam sem medos
Caminhos pró vento

Há mãos que ao fazer
Brotam dignidade
Orgulho de ter
Tal capacidade

Há mãos para sonhar
E para proteger
Mãos para encantar
Ao adormecer

Há punhos erguidos
Em plena união
Garantes profundos
Da revolução

Ao darmos as mãos
Nós somos mais fortes
Rompemos as rimas
Sem medos da morte

E se as mãos não falam
É pura ilusão
Elas não se calam
Quer queiram, quer não

Mas mesmo sem mãos
Teremos carinhos
Dedos da emoção
De estarmos juntinhos

(do blog Chaves) 
Se Abril é o mês da Liberdade, Maio cheira ainda a cravos vermelhos e a trabalho...
É bom associarmos o trabalho às mãos, até porque este é humano e estas são também humanas.


quarta-feira, 15 de maio de 2019

Os muros - Jacinta Passos



Os muros

Minha cidade tem muros
de pedra, cimento e cal
tem muros que são tribunas,
painéis, cartilha e coral. 

Quem de noite faz as letras

que aparecem de manhã?

Será a mão do poeta

ou a mão da tecelã?

Viva Luiz Carlos Prestes!
O petróleo é nosso!

Fora com os americanos!

A polícia apaga e as letras

aparecem de manhã.
Será a mão do poeta
ou a mão da tecelã?

Minha cidade tem muros
brancos, cinzentos, de cores,

riscos de piche e carvão,

ó, pintores, vinde ver!

Vinde ler a história escrita
nos muros, cada manhã.
Será a mão do poeta
ou a mão da tecelã?

(São Paulo, 1953)   
Este poema, publicado no Suplemento Cultural do jornal comunista “Imprensa Popular“ em  25/07/1954, até agora jamais havia sido republicado. Ele me foi gentilmente enviado pelo pesquisador João Nascimento, a quem muito agradeço.
“Os Muros” foi escrito por Jacinta Passos em 1953, ano em que voltou a ser internada na Clínica Psiquiátrica Charcot, em São Paulo, onde já estivera no ano anterior, as duas vezes com o diagnóstico de esquizofrenia paranoide. Não se sabe se Jacinta compôs este poema durante sua segunda internação no Charcot (quando comprovadamente redigiu o longo poema "A Coluna", depois publicado em livro), ou durante o período em que morou em casa de sua irmã Dulce Passos, também na capital paulista, entre os dois internamentos. “Os Muros” integra a série de poemas políticos de Jacinta.

domingo, 12 de maio de 2019

LEGENDA PARA UM LIVRO FUTURO - Carlos de Oliveira

LEGENDA PARA UM LIVRO FUTURO

Aço na forja dos dicionários, as palavras são feitas de aspereza: O primeiro vestígio da beleza é a cólera dos versos necessários.


90 - Carlos de Oliveira - Colheita Perdida,
Coimbra, Sob o Signo do Galo, 1948, p. 61.