terça-feira, 17 de novembro de 2020

Te quiero - Mario Benedetti Su propia voz

   

Te quiero

Tus manos son mi caricia,
Tuas mãos são minha carícia

mis acordes cotidianos;
meus acordes cotidianos

te quiero porque tus manos
te quero porque tuas mãos

trabajan por la justicia.
trabalham pela justiça

Si te quiero es porque sos
Se te quero é porque és

mi amor, mi cómplice, y todo.
meu amor, minha cúmplice e tudo

Y en la calle codo a codo
E na rua, lado a lado,

somos mucho más que dos.
somos muito mais que dois

Tus ojos son mi conjuro
Teus olhos são meu conjuro

contra la mala jornada;
contra a má jornada;

te quiero por tu mirada
te quero por teu olhar

que mira y siembra futuro.
que vê e semeia futuro.

Tu boca que es tuya y mía,
tua boca que é tua e minha,

Tu boca no se equivoca;
Tua boca não se engana;

te quiero por que tu boca
te quero porque tua boca

sabe gritar rebeldía.
sabe gritar rebeldia.

Si te quiero es porque sos
Se te quero é porque és

mi amor mi cómplice y todo.
Meu amor, minha cúmplice e tudo

Y en la calle codo a codo
E na rua, lado a lado,

somos mucho más que dos.
somos muito mais que dois

Y por tu rostro sincero.
E por teu rosto sincero

Y tu paso vagabundo.
E teu passo errante.

Y tu llanto por el mundo.
E teu pranto pelo mundo.

Porque sos pueblo te quiero.
Porque és o povo te quero.

Y porque amor no es aurora,
E porque o amor não é aurora,

ni cándida moraleja,
nem cândida moral,

y porque somos pareja
e porque somos uma casal

que sabe que no está sola.
que sabe que não está só.

Te quiero en mi paraíso;
Te quero em meu paraíso;

es decir, que en mi país
e dizer, que em meu país

la gente viva feliz
as pessoas vivem felizes

aunque no tenga permiso.
embora sem permissão

Si te quiero es por que sos
Se te quero é porque és

mi amor, mi cómplice y todo.
meu amor, minha cúmplice, tudo

Y en la calle codo a codo
E na rua, lado a lado,

somos mucho más que dos.
somos muito mais que dois.

 

Mario Benedetti

domingo, 15 de novembro de 2020

Pobres, gritai comigo: - José Gomes Ferreira


 

Pobres, gritai comigo:

 

Abaixo o D. Quixote

com cabeça de nuvens

e espada de papelão!

-- E viva o Chicote

no silêncio da nossa Mão!

 

Pobres, gritai comigo:

 

Abaixo o D. Quixote

que só nos emperra

de neblina!

-- E viva o Archote

que incendeia a terra,

mas ilumina!

 

Pobres, gritai comigo:

 

Abaixo o cavaleiro

da lança de soluços

e bola de sabão

no elmo de barbeiro!

-- E vivam os nossos Pulsos

que, num repelão

hão-de rasgar o nevoeiro!

 

José Gomes Ferreira

(A Morte de D. Quixote – 1935-1936

sábado, 14 de novembro de 2020

litania da crise - Jorge Castro

 

litania da crise

 

a crise cruza a crise
acrisolada
uma crise em cruz
um ai Jesus
coberta de capuz
crucificada
crise do crash do cash
cheirando a peixe
atrasada
crise p’ra pobre
que cobre
de camisa esburacada
a crise do rico
que sofre
frente a lagosta suada
crise de ter e de haver
ou de ter só p’ra comer
restos de crise
e mais nada
crise de ter
e de ter
e de ter mais
e subir
sobre a montanha de corpos
meios vivos
meios mortos
até já não ter onde ir
ficar p’ra trás
e cair
e ser degrau dessa escada
e ali ao lado
a crescer
basta só querermos ver
outra vontade
outra estrada

 

Jorge Castro

 


quarta-feira, 11 de novembro de 2020

A defesa do poeta - Natália Correia

A defesa do poeta



 

Senhores jurados sou um poeta

um multipétalo uivo um defeito

e ando com uma camisa de vento

ao contrário do esqueleto

 

Sou um vestíbulo do impossível um lápis

de armazenado espanto e por fim

com a paciência dos versos

espero viver dentro de mim

 

Sou em código o azul de todos

(curtido couro de cicatrizes)

uma avaria cantante

na maquineta dos felizes

 

Senhores banqueiros sois a cidade

o vosso enfarte serei

não há cidade sem o parque

do sono que vos roubei

 

Senhores professores que pusestes

a prémio minha rara edição

de raptar-me em crianças que salvo

do incêndio da vossa lição

 

Senhores tiranos que do baralho

de em pó volverdes sois os reis

sou um poeta jogo-me aos dados

ganho as paisagens que não vereis

 

Senhores heróis até aos dentes

puro exercício de ninguém

minha cobardia é esperar-vos

umas estrofes mais além

 

Senhores três quatro cinco e sete

que medo vos pôs por ordem?

que pavor fechou o leque

da vossa diferença enquanto homem?

 

Senhores juízes que não molhais

a pena na tinta da natureza

não apedrejeis meu pássaro

sem que ele cante minha defesa

 

Sou uma impudência a mesa posta

de um verso onde o possa escrever

ó subalimentados do sonho!

a poesia é para comer.

 

natália correia

as maçãs de orestes 1970