domingo, 5 de dezembro de 2021

Concerto - António Rebordão Navarro

 

Concerto

Ao Silvestre Fonseca

Esse milagre de

dar música aos dedos

e às mãos, sob a lua, na rua

iluminada de Pavia.

Esse mistério

de transformar os instrumentos,

mudá-los,

fornecendo-lhes pétalas

suavíssimas, criando os movimentos

do tempo, da esguia figurinha

voltejando no ritmo,

esse jovem mistério

vindo do ventre magnânimo

gerador da poesia.

A majestade humilde,

o riso, o canto,

esse espanto e mistério

de dar às manhãs todos os dias.

 

António Rebordão Navarro

Vila Viçosa, 9-06-1987

in: 27 Poemas. 2008. S. Mamede de Infesta.

 

sábado, 4 de dezembro de 2021

Neblina - Hermann Hesse

 

Neblina

Estranho é caminhar na densa névoa:
Solitária está cada planta ou pedra,
Nenhum arbusto enxerga o seu vizinho,
Cada um está só.

Cheio de amigos era, para mim, o mundo
Quando luminosa ‘inda era minha vida;
Agora, que a névoa caiu,
Ninguém mais é visível.

Não é deveras um sábio
Quem não conhece a escuridão
Que, suavemente, nos separa
De tudo inexorável.

Estranho é caminhar na densa névoa:
Viver é estar solitário
Entre gente que se ignora.
Todos estamos sós!

Hermann Hesse

Tradução de Álvaro Cabral