terça-feira, 31 de julho de 2012

as coisas elementares


(António José Cravo)

as coisas elementares (aqui)
falo das coisas mais
elementares
o
sino da igreja
onde um galo não canta
um seixo rolado
guardando o
tempo
dentro de si
um torrão de terra
grávido de uma
semente
mais elementares ainda
os
sorrisos presos nos lábios
das
crianças tristes
as
lágrimas
rios de salgados
nos leitos dos rostos abandonados
nos lares/depósitos
falo porque
estou
cansado de comer silêncio
e
ler poemas de amor
com tanto desamor
a
caminhar por
as
coisas mais elementares
são as que deviam ocupar
o
ventre das palavras por parir

quinta-feira, 5 de julho de 2012

CARL SANDBURG

 CARL SANDBURG

1878 - 1967


 OPERÁRIAS

As raparigas operárias que de madrugada vão para
     o
trabalho, caminham em longas filas entre as
    
lojas e as fábricas da cidade baixa. São milhares.
     Trazem
debaixo do braço o almoço embrulhado
    
em papel de jornal.
Todas as manhãs, quando me cruzo com este rio de
    
jovens vidas femininas, pergunto a mim mesmo
    
para onde vai ele, para onde vão faces aveludadas
     de
juventude, risos de lábios róseos e recordações,
    
nos olhos, das danças da noite anterior, de
    
brincadeiras e passeatas.
Verdes e cinzentas correntes vão lado a lado no
    
mesmo rio: também aquisempre as outras,
     as
que concluíram a vida, as que conhecem
     o
fim do jogo que é a vida, o sentido que ela tem,
     o
do problema, o como e o porquê das danças
     e dos
dedos que lhes acariciaram os cabelos.
Passam caras e nelas está escrito: "Sei tudo, sei onde
    
vão acabar a frescura e o riso. Tenho as minhas
     recordações", e caminham
com pés mais
    
vagarosos: mostram experiência em lugar da
    
beleza que as outras ostentam.
Assim o verde e o cinzento correm misturados, de
     manhãzinha, pelas
ruas da cidade baixa.

Carl Sandburg
trad. Alexandre O'Neill

 
A GRADE

Agora, a mansão à beira do lago está
        concluída, e os
trabalhadores estão
        começando a
grade.São barras de ferro com pontas de aço, capazes
        de
tirar a vida de qualquer um que se
        arrisque
sobre elas.Como grade, é uma obra-prima e impedirá a
       
entrada de todos os famintos e vagabundos
        e de todas as
crianças vadias à procura de
       
um lugar para brincar.Entre as barras e sobre as pontas de aço nada
        passará,
exceto a Morte, a Chuva e o Dia de
       
Amanhã.
Carl Sandburg
Tradução: Carlos Machado

domingo, 24 de junho de 2012

A esperança


«A esperança não é um suplemento de alma vaporosonem um suprimento ficcionado para compensatório consolo das muitas misérias circundantes que afligem.

A esperança não é uma espera – encomendada à resignação submissa, aqui e ali, colorida por salpicados assomos de rebeldia avulsa.

A esperança é um horizonte trabalhado do ser – é do concreto trabalho das realidades que ela nasce, e renasce.

Por vezes, esperamos pelo tempo. Esperamos muito do tempo. Agastamo-nos com o tempo que se perde, que se gasta, que se desaproveita. Tememos que o tempo apenas tarde, ou demasiado tarde, venha a chegar. Colocamo-nos de fora do tempo, em posição aprumada de exterioridade expectante – e ficamos à espera do espectáculo… vendo passar os comboios na velocidade que levarem, ou procurando avistar os navios por entre o nevoeiro. Sem perceber que somos caminheiros da viagem; sem tomar a cargo os passos do caminho.

Rebate.

Não será tempo de cultivar a esperança trabalhada?
Não será tempo de não abdicar da lavrança de uma história que – no tempo que é o nosso – sofremos, sem dúvida, mas que, dentro das nossas limitações e na mobilização das capacidades de que dispomos, vamos também afeiçoando (como o artesão a pedra) e, no limite (qual material tornado obra de escultura), transformando?
Não será tempo de tomar a sério, e nas mãos, a exigente tarefa de viverum bem que apenasenquanto dura?

José Barata Moura
Lisboa, Nov. de 2010
“O tempo e a História, Tão-só um soturno, e mal-alinhavado, aperitivo
VÉRTICE – Nov./Dez.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

A CANÇÃO DA FOME - Das Hungerlied


(1822-1856)

GEORG WEERTH


A CANÇÃO DA FOME

Prezado senhor e rei,
Sabes a
notícia grada?
Segunda comemos pouco,
Terça não comemos nada.

Quarta sofremos miséria,
E
quinta passámos fome;
Na
sexta quase nos fomos -
Não se aguenta quem não come!

Por isso se no sábado
Mandas
cozer o pãozinho,
Senão no domingo, ó rei,
Vamos comer-te inteirinho!


Das Hungerlied

Verehrter Herr und König,
Kennst du die schlimme Geschicht?
Am Montag aßen wir wenig,
Und am Dienstag aßen wir nicht.

Und am Mittwoch mussten wir darben
Und am Donnerstag litten wir Not;
Und ach, am Freitag starben
Wir fast den Hungertod!

Drum lass am Samstag backen
Das Brot fein säuberlich -
Sonst werden wir Sonntags packen
Und fressen, o König, dich!

 

Tradução de João Barrento
"in
Rosa do Mundo 2001 poemas para o futuro"

Hungerlied  (Canção da Fome)

o
poema é do ano 1844

O Georg Weerth passou a
maior parte do tempo quer em Wuppertal (onde nasceu o Engels), Bonn ou na Inglaterra (a partir de 1843) ligado ao trabalho dos tecelões.
Na Inglaterra
onde deve ter escrito o poema devido à terrivel exploração que ali reinava, conheceu o Engels e encontrou-se com o Marx na Bélgica no Verão de 1845. Ligou-se aos comunistas, através do Comité de Correspondencia Comunista fundado 1946 por Marx e Engels. E trabalhou como correio devido às sua numerosas viagens para a Liga dos Comunistas. Engels disse que Weerth tinha sido o primeiro poeta alemao comunista.
A
partir de 1846 fixou-se em Bruxelas numa tecelagem, mas logo que rebentou a revolução em França em Fevereiro/Marco de 1848 (ano do Manifesto)
arrancou
para Paris para participar na revolução.