quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Bem no Fundo - Paulo Leminski

Bem no Fundo

No fundo, no fundo,
bem no fundo,
a
gente gostaria
de
ver nossos problemas
resolvidos
por decreto

a
partir desta data,
aquela
mágoa sem remédio
é considerada
nula
e
sobre elasilêncio perpétuo

extinto por lei todo o remorso,
maldito seja que olhas pra trás,
pra trás nãonada,
e
nada mais

mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos
domingos saem todos a passear
o
problema, sua senhora
e
outros pequenos probleminhas.

Paulo Leminski


quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Renovação

Renovação

Em cada dia morre um homem em mim.
Em cada dia nasce um homem em mim.
o itinerário é o mesmo, e isso decerto basta.
E eu tenho saudade dos homens que fui!
E eu anseio, espero os homens que serei!
Dia após dia, eu me renovo, sigo sempre.
Meus olhos de ontem não são meus olhos de hoje.
Um mundo morre, outro mundo nasce em cada dia.
o itinerário é o mesmo, e isso decerto basta.
Papiniano Carlos

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

«De cada vez que um governo…» - Jorge de Sena



«De cada vez que um governo…»

De cada vez que um governo necessita de segredos,
por segurança do Estado
ou para melhor êxito
nas negociações internacionais,
é o mesmo que negar,
como negaram sempre desde que o mundo é mundo,
a liberdade.
Sempre que um povo aceita que o seu governo,
ainda que eleito com quantas tricas se sabe,
invoque a lei e a ordem para calar alguém,
como fizeram sempre desde que o mundo é mundo,
nega-se
a liberdade.
Porque, se há algum segredo na vida pública
que todos não podem saber
é porque alguém, sem saber,
é o preço do negócio feito.
E se há uma ordem e uma lei que não inclua
mesmo que seja o último dos asnos e dos pulhas
e o seu direito a ser como nasceu ou o fizeram,
a liberdade
é uma farsa,
a segurança
é uma farsa,
a ordem é uma farsa,
nãonada que não seja uma farsa,
a mesma farsa representada sempre
desde que o mundo é mundo,
por aqueles que se arrogam ser
empresários dos outros
e nem pagam decentemente
senão aos maus actores.
Jorge de Sena
(1919-1978)

domingo, 16 de dezembro de 2012

Yüan Mei - contradições



Contradições (ou o mistério da música)

Ouço as Leçons des Ténèbres, de François Couperin.
 São três peças belíssimas.
Falam de fé mas o que eu ouço é apenas a sombra e o vento, como neste poema:
 

Muito estranho sempre me pareceu
Os
homens adorarem um deus.
E a
vida a esse deus dedicarem
E
diante dele se curvarem.
Que os deuses são feitos por dentro
Da
matéria da sombra ou do vento

Yüan Mei


(1716-1797), China (excerto?),
tradução de Maria Ondina Braga
publicado n'A Rosa do Mundo (Assírio & Alvim)

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

FOME DE CULTURA // POESIA



De onde vem a cidade

quando passeio à noite pela cidade recolhida em íntimo silencio,
olho admirado as ruas e as árvores
e interrogo enigmático
sobre os olhos cerrados dos homens citadinos
o serem
eles o sentido disto tudo.
E
penso nas formosas flores públicas plantadas para todos,
penso na janela clara aberta sobre o mar,
nas
avenidas livres fechando junto ao céu....
então maciamente vou,
espantado de
estar na vida a ser um homem
e a
cumprir o tempo de ser grande,
descerrar as pálpebras descidas dos humanos irmãos emparedadas
e mostrar-lhes
porque existem avenidas,
de
onde vêm as casas e as fábricas
e
porquê quando rente à madrugada
um pássaro cantando entre o cimento e as flores
na
tenra primavera da cidade

EDUARDO VALENTE DA FONSECA

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

RESISTÊNCIA - Luís Veiga Leitão



RESISTÊNCIA

Não. Digo à explosão de ameaça
e à rapada
paisagem do desterro.
E
não. Digo à minha carcaça
encalhada
em bancos de ferro
e ao
cordame dos nervos, fustigado,
a
ranger no silêncio a sós:
Por cada nervo quebrado
que se inventem mais nós.

Luís Veiga Leitão
in "Sonhar a Terra Livre e Insubmissa...", 1973.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

HÚMUS - Raul Brandão




«Desde que se cumpram certas cerimónias ou se respeitem certas fórmulas, consegue-se ser ladrão e escrupulosamente honestotudo ao mesmo tempo. A honradez deste homem assenta sobre uma primitiva infâmia. O interesse e a religião, a ganância e o escrúpulo, a honra e o interesse, podem viver na mesma casa, separados por um tabique. Agora é a vez da honraagora é a vez do dinheiroagora é a vez da religião. Tudo se acomoda, outras coisas heterogéneas se acomodam ainda. Com um bocado de jeito arranja-se-lhes sempre lugar nas almas bem formadas.»
in HÚMUS, vol. 1º

domingo, 9 de dezembro de 2012

Autodefinição - Óscar Niemeyer

Autodefinição

Na folha branca de papel faço o meu risco.
Retas e curvas entrelaçadas.
E prossigo atento e tudo arrisco na procura das formas desejadas.
São templos e palácios soltos pelo ar, pássaros alados, o que você quiser.
Mas se os olhar um pouco devagar, encontrará, em todos,
os encantos da mulher.
Deixo de lado o sonho que sonhava.
A miséria do mundo me revolta.
Quero pouco, muito pouco, quase nada.
A arquitetura que faço não importa.
O que eu quero é a pobreza superada,
a vida mais feliz, a pátria mais amada.
Óscar Niemeyer