segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Os Pobres - ROBERTO SOSA


Os Pobres

Os pobres são muitos
e por isso
é impossível ignorá-los.

Seguramente
vêem
nos amanheceres
múltiplos edifícios
onde eles
quiseram viver com seus filhos.

Podem
levar nos ombros
o féretro de uma estrela.

Podem
destruir o ar como aves furiosas,
nublar o sol.

Mas desconhecendo seus tesouros
entram e saem por espelhos de sangue;
caminham e morrem lentamente.

Por isso
é impossível ignorá-los.

Tradução de Gustavo Felicíssimo


Los pobres

Los pobres son muchos
y por eso
es imposible olvidarlos.

Seguramente
ven
en los amaneceres
múltiples edificios
donde ellos
quisieran habitar con sus hijos.

Pueden
llevar en hombros
el féretro de una estrella.

Pueden
destruir el aire como aves furiosas,
nublar el sol.

Pero desconociendo sus tesoros
entran y salen por espejos de sangre;
caminan y mueren despacio.

Por eso
es imposible olvidarlos.


sábado, 24 de agosto de 2019

Neo-Bucólica - Inês Lourenço



Neo-Bucólica

Que bem luzem nos discursos
da boa consciência
onanista e nos poemas light dos
neo-bucólicos as casinhas
com papás, vovós e manos, talvez
com uma sentida perda
de um talher à mesa e uma
horta, couves, alfaces, a doméstica
economia dos quintalórios
com um cão cativo a ladrar
à sina e à honestidade das batatas
que as mães ou avós ainda esmagam
na sopa com uns pingos de azeite e
enfado. Pequeno país do
gasóleo e do futebol, memórias
de mercados e feiras buliçosas,
de escolinhas rústicas, agora desertas,
com a cruz e os presidentes na parede,
pequeno país de bravia
palavra, sofrida crueza
de mato ardido e estrumes, sucatas,
detritos, o hábito endurecido dos
pequenos holocaustos
diários.

“Logros Consentidos”.
Lisboa, &Etc, 2005, p. 19

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Elogio da Dialética - Bertolt Brecht



Elogio da Dialética



A injustiça avança hoje a passo firme
Os tiranos fazem planos para dez mil anos
O poder apregoa: as coisas continuarão a ser como são
Nenhuma voz além da dos que mandam
E em todos os mercados proclama a exploração;
isto é apenas o meu começo

Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem
Aquilo que nós queremos nunca mais o alcançaremos

Quem ainda está vivo não diga: nunca
O que é seguro não é seguro
As coisas não continuarão a ser como são
Depois de falarem os dominantes
Falarão os dominados
Quem pois ousa dizer: nunca
De quem depende que a opressão prossiga? De nós
De quem depende que ela acabe? Também de nós
O que é esmagado que se levante!
O que está perdido, lute!
O que sabe ao que se chegou, que há ai que o detenha
E nunca será: ainda hoje
Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã


Bertolt Brecht

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Identidade - Miguel Torga

Identidade


Matei a lua e o luar difuso.
Quero os versos de ferro e de cimento.
E em vez de rimas, uso
As consonâncias que há no sofrimento.

Universal e aberto, o meu instinto acode
A todo o coração que se debate aflito.
E luta como sabe e como pode:
Dá beleza e sentido a cada grito.

Mas como as inscrições nas penedias
Têm maior duração,
Gasto as horas e os dias
A endurecer a forma da emoção.

Miguel Torga
'Penas do Purgatório'


quarta-feira, 21 de agosto de 2019

MARÉ - SARAIVA BATARDA



MARÉ

E nascemos sem nós querermos,
E vivemos sem saber
A razão porque vivemos.
Onda desfeita no ar,
Esperança que brada em espuma
Contra a muralha de pedra
Dum desconhecido destino.
E a maré, vida em fermento,
Nunca cansa de bater
Contra esse muro de granito
Na ânsia de o desfazer.

SARAIVA BATARDA
(Poeta Moçambicano)

- É a única referência que tenho: Poeta Moçambicano.
  agradeço a quem me possa dar alguns elementos sobre este poeta.