domingo, 5 de novembro de 2023
sábado, 4 de novembro de 2023
“O jantar miserável” - César Vallejo
“O jantar miserável”
“Até quando estaremos à espera
do que
não nos devem… e em que
recanto esticaremos
o nosso pobre joelho para sempre!
Até quando
a cruz que nos alenta deterá os seus remos.
Até quando a Dúvida nos brindará honras
por termos padecido…
Já nos sentámos
muito à mesa, com a amargura de
uma criança
que à meia-noite chora de
fome, desvelado…
E quando nos veremos os outros,
na borda
de uma manhã eterna, todos com o
pequeno-almoço tomado!
Até quando este vale de
lágrimas onde
eu nunca pedi que
me trouxessem,
de cotovelos
todo banhado em choro,
repito cabisbaixo.
E vencido. Até quando durará
o jantar.
Há alguém que bebeu muito e
goza connosco
e se aproxima e afasta, como uma
colher negra
de amarga essência humana,
a tumba…
E menos sabe
essa escuridão, até quando o jantar durará!”
quinta-feira, 2 de novembro de 2023
Tempos de violência
O que leva um Ser Humano?
Repensar a partir da catástrofe Israel-Palestina
É a história de uma menina
árabe israelita,
que ao final da tarde decide parar
para sentar-se no chão
e tomar algum tempo a observar
os campos
sentindo a leve brisa partilhada
por várias comunidades…
Da Shoah à Nakba
É a história de um velho
escritor asquenaz dos anos 1970
a quem sintomas pós-traumáticos
do gueto de Varsóvia
reemergem quando observa o que
se passa
nos campos de
refugiados palestinianos…
É a história de um
currículo escolar
e de um
ambiente familiar
baseados no ódio
do Outro,
no estereótipo e
na desumanização…
Levar a sério o Outro
É a história de
um palestiniano
que tenta passar por mais
um checkpoint,
mas percebe que o não-olhar do
soldado israelita
o desconsidera como
Ser Humano…
A falha dos extremos
É a história de um
jovem adulto
que aprende a voar
de parapente
e a passar para o outro lado
do muro…
Constatações reveladoras
É a história de um agricultor
da Cisjordânia
a quem durante a noite
os colonos
cortaram o
olival centenário…
Sentimentos dormentes
É a história de um velho
sefardita israelita
que passou a vida a lutar por
igualdade e justiça
entre árabes e judeus, mas
para quem
os atentados a partir de 7 de
outubro são
a gota d’água ao desespero…
Extraído
do blog BUALA
terça-feira, 31 de outubro de 2023
Os ninguéns - Eduardo Galeano
Os ninguéns
De Eduardo Galeano
As
pulgas sonham em comprar um cão,
e os ninguéns com deixar a pobreza,
que em algum dia mágico de sorte chova a boa sorte a cântaros;
mas a boa sorte não choveu ontem, nem hoje, nem choverá amanhã, nem nunca,
nem uma chuvinha cai do céu da boa sorte,
por mais que os ninguéns a chamem e mesmo que a mão esquerda coce,
ou se levantem com o pé direito, ou comecem o ano mudando de vassoura.
Os
ninguéns: os filhos de ninguém, os dono de nada.
Os ninguéns:
os nenhuns, correndo soltos, morrendo a vida, fodidos e mal pagos:
Que não são embora sejam.
Que não falam idiomas, falam dialetos.
Que não praticam religiões, praticam superstições.
Que não fazem arte, fazem artesanato.
Que não são seres humanos, são recursos humanos.
Que não tem cultura, têm folclore.
Que não têm cara, têm braços.
Que não têm nome, têm número.
Que não aparecem na história universal,
aparecem nas páginas policiais da imprensa local.
Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata.
domingo, 29 de outubro de 2023
(branco) - rui nunes 4.
4.
(
de todas as
chama-se
rui nunes
sábado, 28 de outubro de 2023
Um poema triste
Pelo
que tenham de mais querido
PARTICIPEM!
É
UM GRITO LANCINANTE
QUE
ACABE A BARBÁRIE!
FAÇAMOS
PELO MENOS UM PEQUENO ESFORÇO PARA NOS SENTIRMOS HUMANOS
Neste momento o povo de Gaza está a ser bombardeado por ar, mar e terra.
sexta-feira, 27 de outubro de 2023
Não iremos embora - Tawfiq Zayyad
Não iremos embora
Aqui
Sobre vossos peitos
Persistimos
Como uma muralha
Em vossas goelas
Como cacos de vidro
Imperturbáveis
E em vossos olhos
Como uma tempestade de fogo
Aqui
Sobre vossos peitos
Persistimos
Como uma muralha
Em lavar os pratos em vossas casas
Em encher os copos dos senhores
Em esfregar os ladrilhos das cozinhas pretas
Para arrancar
A comida de nossos filhos
De vossas presas azuis
Aqui sobre vossos peitos
Persistimos
Como uma muralha
Famintos
Nus
Provocadores
Declamando poemas
Somos os guardiões da sombra
Das laranjeiras e das oliveiras
Semeamos as ideias como o fermento na massa
Nossos nervos são de gelo
Mas nossos corações vomitam fogo
Quando tivermos sede
Espremeremos as pedras
E comeremos terra
Quando estivermos famintos
Mas não iremos embora
E não seremos avarentos com nosso sangue
Aqui
Temos um passado
E um presente
Aqui
Está nosso futuro
Palestino de Nazaré - 1929-1994
“
A

quarta-feira, 25 de outubro de 2023
OS MENINOS NASCEM - Papiniano Carlos
OS MENINOS
NASCEM
Vós podeis, tiranos, forjar ainda mais sólidas algemas,
chapear de aço as paredes das nossas e vossas cadeias,
e fazê-lo-eis;
Vós podeis, tiranos, cravar mais fundo as vossas baionetas,
esmagar-nos nas ruas debaixo das patas dos vossos cavalos,
e fazê-lo-eis;
Vós podeis, tiranos, roubar, incendiar, fuzilar sem descanso,
vedar os caminhos ainda livres, envenenar as fontes ainda puras,
e fazê-lo-eis;
Vós podeis, tiranos, vir de novo descarregar a vossa cólera
sobre Oradour,
lançar vossa chuva de raios sobre nosso humano desejo de viver,
e fazê-lo-eis,
Vós podeis, tiranos, inventar ainda piores suplícios,
mordaças mais espessas, baixezas mil vezes mais desumanas
para Buchenwald,
inutilmente o fareis:
Esta simples criancinha dormindo em seu berço,
este menino ainda na barriga de sua mãe, olhai
como vos fitam
serenos e terríveis.
Papiniano Carlos
terça-feira, 24 de outubro de 2023
6 de dezembro de 1945 - Nazim Hikmet
6 de dezembro de
1945
Eles
são inimigos da esperança, meu amor,
são
inimigos da água corrente,
da árvore que está
frutificando,
da vida que está se
desenvolvendo.
Porque
a morte carimbou as suas testas:
– dentes apodrecendo,
carne se deteriorando –,
vão
ser destruídos e nunca mais voltarão.
E
sem dúvida, meu amor, sem dúvida,
a
liberdade caminhará livremente neste país lindo
com
a sua melhor roupa:
o uniforme de operário...
segunda-feira, 23 de outubro de 2023
O DILÚVIO E A ÁRVORE - Fadwa Tuqan
O DILÚVIO E
A ÁRVORE
Quando a
tempestade satânica chegou e se espalhou
No dia do dilúvio negro lançado
Sobre a boa terra verdejante
“Eles” contemplaram.
Os céus ocidentais ressoaram com explicações de regozijo:
“A Árvore caiu!
O grande tronco está esmagado! O dilúvio deixou a Árvore sem vida!”
Caiu
realmente a Árvore?
Nunca! Nem com os nossos rios vermelhos correndo para sempre,
Nem enquanto o vinho dos nossos membros despedaçados
Saciar nossas raízes sequiosas
Raízes árabes vivas
Penetrando profundamente na terra.
Quando a
Árvore se erguer, os ramos
Vão florir verdes e viçosos ao sol
O riso da Árvore desfolhará
Debaixo do sol
E os pássaros voltarão
Sim, os pássaros voltarão com certeza
Voltarão.
domingo, 22 de outubro de 2023
À Espera dos Bárbaros - Konstantinos Kaváfis
À Espera dos Bárbaros
O que esperamos na ágora
reunidos?
É que os bárbaros chegam hoje.
Por que tanta apatia no senado?
Os senadores não legislam mais?
É que os bárbaros chegam hoje.
Que leis hão de fazer os senadores?
Os bárbaros que chegam as farão.
Por que o imperador se ergueu
tão cedo
e de coroa solene se assentou
em seu trono, à porta magna da cidade?
É que os bárbaros chegam hoje.
O nosso imperador conta saudar
o chefe deles. Tem pronto para dar-lhe
um pergaminho no qual estão escritos
muitos nomes e títulos.
Por que hoje os dois cônsules e
os pretores
usam togas de púrpura, bordadas,
e pulseiras com grandes ametistas
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
Por que hoje empunham bastões tão preciosos
de ouro e prata finamente cravejados?
É que os bárbaros chegam hoje,
tais coisas os deslumbram.
Por que não vêm os dignos
oradores
derramar o seu verbo como sempre?
É que os bárbaros chegam hoje
e aborrecem arengas, eloquências.
Por que subitamente esta
inquietude?
(Que seriedade nas fisionomias!)
Por que tão rápido as ruas se esvaziam
e todos voltam para casa preocupados?
Porque é já noite, os bárbaros
não vêm
e gente recém-chegada das fronteiras
diz que não há mais bárbaros.
Sem bárbaros o que será de nós?
Ah! eles eram uma solução.
Konstantinos Kaváfis
(Do livro Poesia Moderna da Grécia – Seleção, tradução direta do grego, Editora
Guanabara, Rio de Janeiro, 1986.)
sábado, 21 de outubro de 2023
Rafeef Ziadah e o seu poema «As tonalidades da ira» Palestina
Rafeef Ziadah e o seu
poema «As tonalidades da ira» Palestina
Deixem-me falar na minha língua
árabe
antes que também ocupem minha
língua.
Deixem-me falar na minha língua
materna
antes que também colonizem sua
memória.
Sou uma mulher árabe de cor
e viemos em todas as tonalidades da
ira.
Tudo o que meu avô sempre quis fazer
foi levantar-se ao alvorecer e
observar-me
a avó prostrar-se a rezar
numa aldeia escondida entre Jafa e
Haifa.
Minha mãe nasceu sob uma oliveira
num chão que, dizem, já não é meu;
mas vou cruzar as barreiras, o checkpoint,
os muros loucos do apartheid e
voltarei para casa.
Sou uma mulher árabe de cor
e viemos em todas as tonalidades da
ira.
Ouviram ontem os gritos da minha
irmã,
quando dava à luz num checkpoint
com soldados israelitas olhando
entre as suas pernas a próxima ameaça demográfica?
à filha nascida chamou-lhe, Jenin.
E ouviram alguém gritar
«estamos de voltando à Palestina!»
atrás das grades da prisão,
enquanto disparavam gás lacrimogéneo
para a cela?
Eu sou uma mulher árabe de cor
e viemos em todas as tonalidades da
ira.
Mas dizes-me que esta mulher que há dentro
de mim
só te trará o teu próximo
terrorista:
barbudo, armado, lenço na cabeça, negro.
dizes-me que mando os meus filhos
para morrer?
mas esses são os teus helicópteros,
os teus F-16 no nosso céu.
E falemos um pouco sobre esta
questão do terrorismo...
Não foi a CIA que matou Allende e
Lumumba?
E quem primeiro treinou Osama?
Meus avós não corriam em círculo,
como palhaços,
com capas e capuzes brancos na
cabeça
linchando negros.
Eu sou uma mulher árabe de cor
e viemos em todas as tonalidades da
ira.
«Quem é essa mulher morena gritando
na
manifestação?»
Desculpe. Não deveria gritar?
Esqueci de ser todos os teus sonhos
orientais?
O génio da garrafa,
bailarina da dança do ventre,
mulher do harém,
voz suave,
mulher árabe,
Sim, senhor.
Não, senhor.
Obrigado pelas sandwiches de amendoim
que nos atiras dos teus f-16, gosto.
Sim, os meus libertadores estão aqui
para matar os meus filhos
chamando-lhe «dano colateral.»
Eu sou uma mulher árabe de cor
e viemos em todas as tonalidades da
ira.
Assim, deixa-me dizer-te, que esta
mulher que há dentro de mim
só te trará teu próximo rebelde.
Terá uma pedra numa mão e uma
bandeira palestina na outra,
Sou uma mulher árabe de cor...
Tem cuidado, tem cuidado,
com a minha ira.
اسمح لي أن أتكلم بلساني العربي قبل أن يحتل لغتي
أيضا
Permita me
falar minha língua árabe antes que eles ocupem minha língua também.
Permita me
falar minha língua materna antes que eles colonizem sua memória também.
Eu sou uma
mulher árabe de cor e nós vimos em todos os tons de fúria
Tudo o que
meu avô sempre quis foi acordar ao amanhecer e ver minha avó ajoelhar e rezar
em uma vila escondida entre Yaffah e Haifa
Minha mãe
nasceu sob uma oliveira em um solo que eles dizem que não mais é meu
Mas eu
cruzarei suas barreiras, seus checkpoints, seus malditos muros do apartheid e
retornarei para minha terra natal
Eu sou uma
mulher árabe de cor e nós vimos em todos os tons de fúria
E você
ouviu minha irmã gritando ontem, quando ela deu a luz em um checkpoint com
soldados israelenses olhando entre as pernas dela para a sua nova ameaça
demográfica? Chamou sua bebê de Jenin.
E você
ouviu Amna Muna gritando atrás das grades enquanto eles jogavam gás
lacrimogêneo em sua cela?
Estamos
retornando para a Filastin
Eu sou uma
mulher árabe de cor e nós vimos em todos os tons de fúria
Mas você
me diz que este útero dentro de mim gerará apenas o seu próximo terrorista
Usando
barba, agitando armas, cabeça de toalha, negro da areia
Você me
diz que eu envio meus filhos pra morrer
Mas são os
seus helicópteros, os seus F-16’s nos nossos céus
E vamos
conversar sobre esse negócio de terrorismo por um segundo:
Não foi a
CIA que matou Allende e Lumumba?
E quem
treinou Bin Laden, em primeiro lugar?
Meus avós
não correram por aí como palhaços com capas brancas e capuzes brancos linchando
negros!
Eu sou uma
mulher árabe de cor e nós vimos em todos os tons de fúria
Então,
quem é aquela mulher marrom gritando em um protesto?
Desculpe,
eu não deveria gritar?
Eu me
esqueci de ser seu sonho orientalista, gennie in a bottle, dançarina do ventre,
garota de harém, mulher árabe de fala mansa
- “Sim,
mestre! Não, mestre! Obrigado pelos sanduíches de manteiga de amendoim chovendo
dos seus F-16’s sobre nós, mestre!”
Sim, meus
libertadores estão aqui para matar meus filhos e chamá-los de dano colateral
Eu sou uma
mulher árabe de cor e nós vimos em todos os tons de fúria
Então
permita-me lhe dizer que este útero dentro de mim lhe trará apenas a sua
próxima rebelde.
Ela terá
uma pedra em uma mão e uma bandeira Palestina na outra
Eu sou uma
mulher árabe de cor
Cuidado,
tenha cuidado com minha fúria
*Tradução:
Plínio Zúnica
quinta-feira, 19 de outubro de 2023
Talvez perca - se desejares - minha subsistência - Samih al Qasim سميح القاسم
Talvez perca - se
desejares - minha subsistência
Talvez
perca — se desejares — minha subsistência
Talvez venda minhas roupas e meu colchão
Talvez trabalhe na pedreira... como
carregador... ou varredor
Talvez procure grãos no esterco
Talvez fique nu e faminto
Mas não me venderei
Ó inimigo do sol
E até a última pulsação de minhas veias
Resistirei
Talvez me despojes da última polegada da minha
terra
Talvez aprisiones minha juventude
Talvez me roubes a herança de meus
antepassados
Móveis... utensílios e jarras
Talvez queimes meus poemas e meus livros
Talvez atires meu corpo aos cães
Talvez levantes espantos de terror sobre nossa
aldeia
Mas não me venderei
Ó inimigo do sol
E até a última pulsação de minhas veias
Resistirei
Talvez apagues todas as luzes de minha noite
Talvez me prives da ternura de minha mãe
Talvez falsifiques minha história
Talvez ponhas máscaras para enganar meus
amigos
Talvez levantes muralhas e muralhas ao meu
redor
Talvez me crucifiques um dia diante de
espetáculos indignos
Mas não me venderei
Ó inimigo do sol
E até a última pulsação de minhas veias
Resistirei
Ó inimigo do sol
O porto transborda de beleza... e de signos
Botes e alegrias
Clamores e manifestações
Os cantos patrióticos arrebentam as gargantas
E no horizonte... há velas
Que desafiam o vento... a tempestade e
franqueiam os obstáculos
É o regresso de Ulisses
Do mar das privações
O regresso do sol... de meu povo exilado
E para seus olhos
Ó inimigo do sol
Juro que não me venderei
E até a última pulsação de minhas veias
Resistirei
Resistirei
Resistirei
Samih al Qasim
سميح
القاسم
quarta-feira, 18 de outubro de 2023
terça-feira, 17 de outubro de 2023
segunda-feira, 16 de outubro de 2023
(Brasil, 1945) - Pablo Neruda
Luís Carlos Prestes 1898-1990 Pablo Neruda 1904-1973
(Brasil, 1945)
Quantas coisas quisera hoje dizer, brasileiros,
quantas histórias, lutas, desenganos, vitórias,
que levei anos e anos no coração para dizer-vos,
pensamentos
e saudações. Saudações das neves andinas,
saudações do Oceano Pacífico, palavras que me
disseram
ao passar os operários, os mineiros, os pedreiros,
todos
os povoadores de minha pátria longínqua.
Que me disse a neve, a nuvem, a bandeira?
Que segredo me disse o marinheiro?
Que me disse a menina pequenina dando-me
espigas?
Uma mensagem tinham: Era: Cumprimenta Prestes.
Procura-o, me diziam, na selva ou no rio.
Aparta suas prisões, procura sua cela, chama.
E se não te deixam falar-lhe, olha-o até cansar-te
e nos conta amanhã o que viste.
Hoje estou orgulhoso de vê-lo rodeado
por um mar de corações vitoriosos.
Vou dizer ao Chile: Eu o saudei na viração
das bandeiras livres de seu povo.
Me lembro em Paris, há alguns anos, uma noite
falei à multidão, fui pedir auxílio
para a Espanha Republicana, para o povo em sua
luta.
A Espanha estava cheia de ruínas e de glória.
Os franceses ouviam o meu apelo em silêncio.
Pedi-lhes ajuda em nome de tudo o que existe
e lhes disse: Os novos heróis, os que na Espanha
lutam, morrem,
Modesto, Líster, Pasionaria, Lorca,
são filhos dos heróis da América, são irmãos
de Bolívar, de O’Higgins, de San Martín, de Prestes.
E quando disse o nome de Prestes foi como um
rumor imenso
no ar da França: Paris o saudava.
Velhos operários de olhos úmidos
olhavam para o fundo do Brasil e para a Espanha.
Vou contar-vos outra pequena história.
Junto às grandes minas de carvão, que avançam
sob o mar,
no Chile, no frio porto de Talcahuano,
chegou uma vez, faz tempos, um cargueiro
soviético.
(O Chile não mantinha ainda relações
com a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.
Por isso a polícia estúpida
proibiu que os marinheiros russos descessem,
e que os chilenos subissem).
Quando a noite chegou
vieram aos milhares os mineiros, das grandes
minas,
homens, mulheres, meninos, e das colinas,
com suas pequenas lâmpadas mineiras,
a noite toda fizeram sinais, acendendo e apagando,
para o navio que vinha dos portos soviéticos.
Aquela noite escura teve estrelas:
as estrelas humanas, as lâmpadas do povo.
Também hoje, de todos os rincões
da nossa América, do México livre, do Peru
sedento,
de Cuba, da Argentina populosa,
do Uruguai, refúgio de irmãos asilados,
o povo te saúda, Prestes, com suas pequenas
lâmpadas
em que brilham as altas esperanças do homem.
Por isso me mandaram, pelo vento da América,
para que te olhasse e logo lhes contasse
como eras, que dizia o seu capitão calado
por tantos anos duros de solidão e sombra.
Vou dizer-lhe que não guardas ódio.
Que só desejas que a tua pátria viva.
E que a liberdade cresça no fundo
do Brasil como árvore eterna.
Eu quisera contar-te, Brasil, muitas coisas
caladas.
carregadas por estes anos entre a pele e a alma,
sangue, dores, triunfos, o que devem se dizer
o poeta e o povo: fica para outra vez, um dia.
Peço hoje um grande silêncio de vulcões e rios.
Um grande silêncio peço de terras e varões.
Peço silêncio à América da neve ao pampa.
Silêncio: com a palavra o Capitão do Povo.
Silêncio: Que o Brasil falará por sua boca.
Canto Geral
Tradução de Paulo Mendes Campos
Revista por Maria José de Queiroz
Difel/Difusão Editorial – edição 1979