sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Canção do Tamoio - Antonio Gonçalves Dias


Canção do Tamoio

Não chores, meu filho;

Não chores, que a vida
É luta renhida:
Viver é lutar.
A vida é combate,
Que os fracos abate,
Que os fortes, os bravos
Só pode exaltar.
         II
Um dia vivemos!
O homem que é forte
Não teme da morte;
Só teme fugir;
No arco que entesa
Tem certa uma presa,
Quer seja tapuia,
Condor ou tapir.
          III
  O forte, o cobarde
  Seus feitos inveja
  De o ver na peleja
  Garboso e feroz;
  E os tímidos velhos
  Nos graves concelhos,
  Curvadas as frontes,
  Escutam-lhe a voz!
          IV
  Domina, se vive;
  Se morre, descansa
  Dos seus na lembrança,
  Na voz do porvir.
  Não cures da vida!
  Sê bravo, sê forte!
  Não fujas da morte,
  Que a morte há de vir!
         V
  E pois que és meu filho,
  Meus brios reveste;
  Tamoio nasceste,
  Valente serás.
  Sê duro guerreiro,
  Robusto, fragueiro,
  Brasão dos tamoios
  Na guerra e na paz.
         VI
  Teu grito de guerra
  Retumbe aos ouvidos
  D’imigos transidos
  Por vil comoção;
  E tremam d’ouvi-lo
  Pior que o sibilo
  Das setas ligeiras,
  Pior que o trovão.
          VII
  E a mão nessas tabas,
  Querendo calados
  Os filhos criados
  Na lei do terror;
  Teu nome lhes diga,
  Que a gente inimiga
  Talvez não escute
  Sem pranto, sem dor!
          VIII
  Porém se a fortuna,
  Traindo teus passos,
  Te arroja nos laços
  Do inimigo falaz!
  Na última hora
  Teus feitos memora,
  Tranqüilo nos gestos,
  Impávido, audaz.
         IX
  E cai como o tronco
  Do raio tocado,
  Partido, rojado
  Por larga extensão;
  Assim morre o forte!
  No passo da morte
  Triunfa, conquista
  Mais alto brasão.
          X
  As armas ensaia,
  Penetra na vida:
  Pesada ou querida,
  Viver é lutar.
  Se o duro combate
  Os fracos abate,
  Aos fortes, aos bravos,
  Só pode exaltar.

Antonio Gonçalves Dias



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