domingo, 25 de janeiro de 2026

"Novas Sugestões" - Ahmed Dahbur

 

NOVAS SUGESTÕES

De que covil fugiram os tiranos da Terra?

Nero incendiou Roma duas vezes e compôs depois uma melodia dissonante

E tocou-a até que a cidade cantasse com ele.

Hulagu herdou a mesma melodia

Deitou fogo às bibliotecas deste mundo,

Correu tinta no rio

E das cinzas surgiu a linguagem dos gafanhotos

Que se levantaram para agradecer ao louco.

Depois das saudações à loucura, veio o Hitler

Que fez dos mortos barras de sabão;

Mas incapaz de ser aquietado,

Teve de incluir o mar

Na sua destruição vital.

Guerra no mar, agitação em terra,

Combinadas na sua terrível combustão

Também eu vi um tirano -

Com poder menor ao dos outros três.

Cometeu todas a barbárie,

Continua: no seu tempo

Foram cinco os poetas

Que levou ao silêncio.


AHMED DAHBUR

 Este poema foi inspirado pela morte de um amigo e camarada do poeta, Muhammad Najib Abu Rayya, que morreu

numa explosão que destruiu um edifício de nove andares em Fakhani, uma zona de Beirute Ocidental habitada

principalmente por palestinos. Abu Rayya foi morto conjuntamente com a mulher e os oito filhos. Era sapateiro e

ofereceu muitos sapatos aos combatentes e aos pobres. Por trás do seu riso sarcástico carregava a memória de sete

anos perdidos na prisão quando era jovem, por causa do seu combate político

AHMED DAHBUR (1946)

Nasceu em Haifa, em 1946, mas viveu no exílio desde 1948. Trabalhou como editor político

na Agência de Radiodifusão Palestina na Síria. Foi também repórter do Jornal do Fatah e

editor-chefe do Tunis Magazine. Regressou à Palestina para trabalhar no Ministério da

Cultura. Devido a razões de ordem material não recebeu uma educação académica mas é

um leitor voraz. A sua poesia, de grande sensibilidade, é dedicada à causa palestina.

Publicou diversas colectâneas de poesia e foi galardoado com o Prémio Palestino de Poesia

1998.

 


sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

A Idade de Ser Feliz - Geraldo Eustáquio de Souza (Letícia Lanz)

 

A Idade de Ser Feliz

Existe somente uma idade para a gente ser feliz,

somente uma época na vida de cada pessoa

em que é possível sonhar e fazer planos

e ter energia bastante para realizá-las

a despeito de todas as dificuldades e obstáculos.

Uma só idade para a gente se encantar

com a vida e viver apaixonadamente

e desfrutar tudo com toda intensidade

sem medo, nem culpa de sentir prazer.

Fase dourada em que a gente pode criar e recriar a vida,

a nossa própria imagem e semelhança

e vestir-se com todas as cores

e experimentar todos os sabores

e entregar-se a todos os amores

sem preconceito nem pudor.

Tempo de entusiasmo e coragem

em que todo o desafio é mais um convite à luta

que a gente enfrenta com toda disposição

de tentar algo novo, de novo e de novo

e quantas vezes for preciso.

Essa idade tão fugaz na vida da gente

chama-se presente

e tem a duração do instante que passa

 

Geraldo Eustáquio de Souza (Letícia Lanz)

 

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Louvor e Simplificação de Álvaro de Campos de Mário Cesariny

(fragmento)

Terceiro:

  (e aqui começa, talvez, o desembróglio)

 

vi também um vapor que ia para o Barreiro

 

e tive pena de não ir com ele

mas não sou um proletário (não, ainda não)

e atravessar a nado – quem é que disse que pode?

 

Fiquei-me a vê-lo: primeiro junto ao cais

com um certo ar simpático de proletário dos mares

e apinhado de gente – tanta espécie dela!

Depois a meio do rio, destacado e nítido,

depois um ponto vago no horizonte (ó minha angústia!)

ponto cada vez mais vago no horizonte

 

e de repente, ao virar uma esquina, já depois de outra esquina,

vejo uma nova espécie de enforcado

um homem novo em cima de um escadote

a colar afixar cartazes deste género:

 

                            VOTA POR SALAZAR

 

Paro. Paro de novo. Pararei sempre enquanto

afixarem cartazes deste género.

Curioso, curiosíssimo este género.

Um chefe não é grande pelo nome que arranjou.

Salazar Xavier Francisco da Cunha Altinho isso que importa.

Um chefe é grande pelas suas obras, pelo amor que inspira.

Pois os fascistas os nossos bons fascistas

querem que a gente vote por um nome

por um nome calcula essa coisa qualquer que qualquer fulano tem!

Vota por Salazar ora pois ó meu povo

vota por sete letras muito bem arrumadas em três sílabas.

 

Deito a cabeça para trás para deixar sair a gargalhada

e aproximo-me do homem em cima do escadote

aproximo-me tanto que ele nota

alguém que se aproxima

e o braço cai-lhe, grosso, pingando água num balde,

dá os bons dias a este irmão, a este bom irmão que anda a colar cartazes para não morrer de fome!…"

Mário Cesariny de Vasconcelos 

nobilíssima visão; louvor e simplificação de Álvaro de Campos

(fragmento)

O poema inicia-se com dois excertos de Álvaro de Campos ("Cruzou por mim, veio ter comigo numa rua da baixa" e um excerto terminal da "Ode Marítima"). O excerto da "Ode" reaparece perto do final do poema. Ignoro por que razão desapareceu de "Em louvor e simplificação de Álvaro de Campos" o fecho da sua 1ª edição (1953), apreendida e destruída pela PIDE. Após a referência ao homem novo, colando cartazes "Vota por Salazar!", a leitura do disco termina por "e o braço cai-lhe, grosso, pingando água num balde". Todavia, na edição primitiva o poema terminava com: "dá os bons dias a este irmão, a este bom irmão que anda a colar cartazes para não morrer de fome!…"

 

 

domingo, 18 de janeiro de 2026

“Hei-de ser tudo o que eles querem” - Jorge de Sena

 

“Hei-de ser tudo o que eles querem

1

Hei-de ser tudo o que eles querem:
a raiva é toda de eu não ser um espelho
em que mirem com gosto os próprios cornos,
as caudas com lacinhos, e os bigodes
de chibos capripédicos.
Não sou nem sequer imagem.
Mas voz eu sou
que como agulha ou lança ou faca ou espada
mesmo que não dissesse da miséria
de lodo e trampa em que se espojam vis
só porque existe é como uma denúncia.
Hei-de ser tudo, não o sendo. Um dia
– podres na terra ou nos caixões de chumbo
estes zelosos treponemas lusos (1) –
uma outra gente, e limpa, julgará
desta vergonha inominável que é
ter de existir num tempo de canalhas
de um umbigo preso à podridão de impérios
e à lei de mendigar favor dos grandes.

2

De cada vez que um governo necessita de segredos,
por segurança do Estado
ou para melhor êxito
nas negociações internacionais,
é o mesmo que negar,
como negaram sempre desde que o mundo é mundo,
a liberdade.

Sempre que um povo aceita que o seu governo,
ainda que eleito com quantas tricas já se sabe,
invoque a lei e a ordem para calar alguém,
como fizeram sempre desde que o mundo é mundo,
nega-se
a liberdade.

Porque, se há algum segredo na vida pública
que todos não podem saber
é porque alguém, sem saber,
é o preço do negócio feito.
E se há uma ordem e uma lei que não inclua
mesmo que seja o último dos asnos e dos pulhas
e o seu direito a ser como nasceu ou o fizeram,
a liberdade
é uma farsa,
a segurança
é uma farsa,
a ordem é uma farsa,
não há nada que não seja uma farsa,
a mesma farsa representada sempre
desde que o mundo é mundo,
por aqueles que se arrogam ser
empresários dos outros
e nem pagam decentemente
senão aos maus actores.

Jorge de Sena

1)    Treponemas – espécie de protozoários (seres vivos unicelulares) parasitas,

do grupo das espiroquetas, que inclui o agente causador da sífilis (Dic. Porto Editora)

 

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Apesar das Ruínas - Sophia de Mello Breyner Andresen

 

Apesar das Ruínas

Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão,
A força dos meus sonhos é tão forte,
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias.

Sophia de Mello Breyner Andresen

in 'Antologia Poética'


quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

SER - LUIS VEIGA LEITÃO

 

SER

Vir à luz em partos duros

- ser erva rasgando a pele

granítica dos muros

 

Viver em grades     desterros

e ser um raio de sol

por entre os ferros

 

E quando tudo se for

morrer pela madrugada

com a raiz de uma flor

na mão cerrada


 LUIS VEIGA LEITÃO

                     (Dispersas)

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades - Luís Vaz de Camões

 

(Desenho de Almada Negreiros)

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E enfim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

Luís Vaz de Camões

 

 

domingo, 11 de janeiro de 2026

Moscas - Domingos da Mota

 

Moscas

As moscas mudam, e o mau cheiro é tanto
que tresanda a mil léguas de distância:
se o risco de fedor não causa espanto,
olhando a ambição, vendo a arrogância
de moscas que voltejam em redor
do pote e do poder, fica a noção
de ser a impostura, sem pudor,
o germe da voraz propagação.
As moscas vão mudando e a picardia
contamina o ar que se respira
e alimenta bem mais do que soía
a ameaça diária que transpira
por sob o fingimento, cuja insídia
respalda a avidez da moscaria.

Domingos da Mota

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Canto pela Palestina, "Venceremos" (gerado por IA)

 

"Camaradas! Povos do mundo, nos dias em que a terra chora e os filhos são enterrados sem nome, levantemos a voz como quem levanta a barricada, com raiva e com esperança."

domingo, 4 de janeiro de 2026

Os advogados do Dólar - Pablo Neruda

 

Os advogados do Dólar

 

Inferno americano, pão nosso

empapado em veneno, há outra

língua em tua pérfida fogueira:

é o advogado nativo

da companhia estrangeira.

É ele que arrebita os grilhões  

da escravidão em sua pátria,

e passeia desdenhoso

com a casta dos gerentes

a mirar com ar supremo

nossas bandeiras andrajosas.

 

Quando chegam de Nova York

as vanguardas imperiais,

engenheiros, calculistas,

agrimensores, peritos,

e medem terra conquistada,

estanho, petróleo, bananas,

nitrato, cobre, manganês,

açúcar, ferro, borracha, terra,

adianta-se um anão obscuro,

com um sorriso amarelo,

e aconselha com suavidade

aos invasores recentes:

 

Não é preciso pagar tanto

a estes nativos, seria

um crime, meus senhores, elevar

estes salários. Não convém.

Estes pobres-diabos, estes mestiços,

iriam só embriagar-se

com tanto dinheiro. Pelo amor de Deus!

São uns primitivos, quase

umas feras, conheço esta cambada.

Não paguem tanto dinheiro.

 

É adotado. Põem-lhe

libré. Veste como gringo,

cospe como gringo. Dança

como gringo, e vai subindo.

Tem automóvel, uísque, imprensa,

é eleito juiz e deputado,

é condecorado, é ministro,

e é ouvido no Governo. 

Sabe ele quem é subornável.

Sabe ele quem é subornado.

Ele lambe, unta, condecora,

afaga, sorri, ameaça.

E assim se esvaziam pelos portos

as repúblicas dessangradas.

 

Onde mora, perguntareis,

este vírus, este advogado,

este fermento do detrito,

este duro piolho sanguíneo,

engordado de nosso sangue?

Mora nas baixas regiões

equatoriais, o Brasil,

mas sua morada é também

o cinturão central da América.

Podereis encontrá-lo na escarpada

altura de Chuquicamata.

Onde cheira riqueza sobe

os montes, cruza abismos,

com as receitas de seu código

para roubar a terra nossa.

 

Podereis achá-lo em Puerto Limón,

na Ciudad Trujillo, em Iquique,

em Caracas, Maracaibo,

em Antofagasta, em Honduras,

encarcerando nosso irmão,

acusando seu compatriota,

despedindo peões, abrindo

portas de juízes e abastados,

comprando imprensa, dirigindo

a polícia, o pau, o rifle

contra sua família esquecida.

 

Pavoneando-se, vestido

de smoking, nas receções, 

inaugurando monumentos,

com esta frase: Meus senhores,

a pátria, antes da vida,

é a nossa mãe, é o nosso chão,

vamos defender a ordena fazendo

novos presídios, novos cárceres.

 

E morre glorioso, “o patriota”,

senador, patrício, eminente,

condecorado pelo papa,

ilustre, próspero, temido,

enquanto a trágica ralé

de nossos mortos, os que fundiram

a mão no cobre, arranharam

a terra profunda e severa,

morrem batidos e esquecidos,

postos às pressas

em seus caixões funerários:

um nome, um número na cruz

que o vento sacode, matando

até a cifra dos heróis.

 

Pablo Neruda