(fragmento)
Terceiro:
(e aqui começa, talvez, o desembróglio)
vi também um vapor que ia para
o Barreiro
e tive pena de não ir com ele
mas não sou um proletário (não,
ainda não)
e atravessar a nado – quem é
que disse que pode?
Fiquei-me a vê-lo: primeiro
junto ao cais
com um certo ar simpático de
proletário dos mares
e apinhado de gente – tanta
espécie dela!
Depois a meio do rio, destacado
e nítido,
depois um ponto vago no
horizonte (ó minha angústia!)
ponto cada vez mais vago no
horizonte
e de repente, ao virar uma
esquina, já depois de outra esquina,
vejo uma nova espécie de
enforcado
um homem novo em cima de um
escadote
a colar afixar cartazes deste
género:
VOTA POR SALAZAR
Paro. Paro de novo. Pararei
sempre enquanto
afixarem cartazes deste género.
Curioso, curiosíssimo este
género.
Um chefe não é grande pelo nome
que arranjou.
Salazar Xavier Francisco da
Cunha Altinho isso que importa.
Um chefe é grande pelas suas
obras, pelo amor que inspira.
Pois os fascistas os nossos
bons fascistas
querem que a gente vote por um
nome
por um nome calcula essa coisa
qualquer que qualquer fulano tem!
Vota por Salazar ora pois ó meu
povo
vota por sete letras muito bem
arrumadas em três sílabas.
Deito a cabeça para trás para
deixar sair a gargalhada
e aproximo-me do homem em cima
do escadote
aproximo-me tanto que ele nota
alguém que se aproxima
e o braço cai-lhe, grosso, pingando água num balde,
dá os bons dias a este irmão, a este bom irmão que anda a colar cartazes para não morrer de fome!…"
nobilíssima visão; louvor e simplificação de Álvaro de Campos
(fragmento)
O poema inicia-se com dois excertos de Álvaro de
Campos ("Cruzou por mim, veio ter comigo numa rua da baixa" e um
excerto terminal da "Ode Marítima"). O excerto da "Ode"
reaparece perto do final do poema. Ignoro por que razão desapareceu de "Em
louvor e simplificação de Álvaro de Campos" o fecho da sua 1ª edição
(1953), apreendida e destruída pela PIDE. Após a referência ao homem novo,
colando cartazes "Vota por Salazar!", a leitura do disco termina por
"e o braço cai-lhe, grosso, pingando água num balde". Todavia, na
edição primitiva o poema terminava com: "dá os bons dias a este irmão, a
este bom irmão que anda a colar cartazes para não morrer de fome!…"
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