terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Louvor e Simplificação de Álvaro de Campos de Mário Cesariny

(fragmento)

Terceiro:

  (e aqui começa, talvez, o desembróglio)

 

vi também um vapor que ia para o Barreiro

 

e tive pena de não ir com ele

mas não sou um proletário (não, ainda não)

e atravessar a nado – quem é que disse que pode?

 

Fiquei-me a vê-lo: primeiro junto ao cais

com um certo ar simpático de proletário dos mares

e apinhado de gente – tanta espécie dela!

Depois a meio do rio, destacado e nítido,

depois um ponto vago no horizonte (ó minha angústia!)

ponto cada vez mais vago no horizonte

 

e de repente, ao virar uma esquina, já depois de outra esquina,

vejo uma nova espécie de enforcado

um homem novo em cima de um escadote

a colar afixar cartazes deste género:

 

                            VOTA POR SALAZAR

 

Paro. Paro de novo. Pararei sempre enquanto

afixarem cartazes deste género.

Curioso, curiosíssimo este género.

Um chefe não é grande pelo nome que arranjou.

Salazar Xavier Francisco da Cunha Altinho isso que importa.

Um chefe é grande pelas suas obras, pelo amor que inspira.

Pois os fascistas os nossos bons fascistas

querem que a gente vote por um nome

por um nome calcula essa coisa qualquer que qualquer fulano tem!

Vota por Salazar ora pois ó meu povo

vota por sete letras muito bem arrumadas em três sílabas.

 

Deito a cabeça para trás para deixar sair a gargalhada

e aproximo-me do homem em cima do escadote

aproximo-me tanto que ele nota

alguém que se aproxima

e o braço cai-lhe, grosso, pingando água num balde,

dá os bons dias a este irmão, a este bom irmão que anda a colar cartazes para não morrer de fome!…"

Mário Cesariny de Vasconcelos 

nobilíssima visão; louvor e simplificação de Álvaro de Campos

(fragmento)

O poema inicia-se com dois excertos de Álvaro de Campos ("Cruzou por mim, veio ter comigo numa rua da baixa" e um excerto terminal da "Ode Marítima"). O excerto da "Ode" reaparece perto do final do poema. Ignoro por que razão desapareceu de "Em louvor e simplificação de Álvaro de Campos" o fecho da sua 1ª edição (1953), apreendida e destruída pela PIDE. Após a referência ao homem novo, colando cartazes "Vota por Salazar!", a leitura do disco termina por "e o braço cai-lhe, grosso, pingando água num balde". Todavia, na edição primitiva o poema terminava com: "dá os bons dias a este irmão, a este bom irmão que anda a colar cartazes para não morrer de fome!…"

 

 

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