quinta-feira, 24 de maio de 2012

QUANTOS SEREMOS?


QUANTOS SEREMOS?

Não sei quantos seremos, mas que importa?!
Um só que fosse, e já valia a pena.
Aqui, no mundo, alguém que se condena
A não ser conivente
Na farsa do presente
Posta em cena!

Não podemos mudar a hora da chegada,
Nem talvez a mais certa,
A da partida.
Mas podemos fazer a descoberta
Do que presta
E não presta
Nesta vida.

E o que não presta é isto, esta mentira
Quotidiana.
Esta comédia desumana
E triste,
Que cobre de soturna maldição
A própria indignação
Que lhe resiste.


Miguel Torga

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Um saco de gatos… num Manifesto


Sempre que a direita PS/PSD/CDS, se encontra sob a pressão do descontentamento popular, arregimenta as suas marionetas para repetir a farsa de sempre. Reunir a esquerda que tem estado a hibernar. A “esquerda livre.”

Porque isto de ser de esquerda, não obriga a uma actividade constante, encena-se o espectáculo só quando o pagode anda irritado ou para passar tempo, assim pela fresquinha, numa de relaxe entre duas canecas e uns amuse-gueule.

O pressuposto, “livre” desta esquerda à trela, é já em si uma seta envenenada com alvo bem definido, não fosse ela lançada por um arqueiro-mor fazedor de opinião ao serviço do Balsemão.

Já todos sabemos de cor o guião da cegada – nas cegadas há sempre um asno - e basta conhecer os actores para sabermos quando e como vai acabar o espectáculo, e a quem serve.

domingo, 13 de maio de 2012

LVCÍADAS - César Príncipe


LVCÍADAS

Canto a Irmã LvCIA Os bispos barrigudos Os santos pós-modernos e os santos recLvsos A ConVersão da Rússia As virgens inDecentes Canto a lvcidez da populaça lvsa Que veste roupa branca sobre a CUeca suja e deu a Volta ao Orbe Por razões eVidentes Canto a ImaCUlada e os canhões da NATO Os mercados abertos A Terra ao desbaRato Os heróis dos estádios e os votos deMentes Canto o iLustre peito da SenhOra do Leite Tudo que uma maDona (sem fornicar) deLeite Num país de varões ImortAis e valEntes Canto esta Casa Pia de infantes e espumas A cruz das caraVelas nas procissões noctUrnas As lvcidas donzElas apalpadas por crentes Canto Outra Cruzada A Nova Cristandade A da Pomba da Paz da ocidental jihad Pregando no deserto com armas e seMentes Canto a Fé no Petróleo Os segredos da CIA O Século dos USA e o Mês de Maria A riqueza das pátrias e almas indiGentes Canto esta Lvcitânia de laraAnjas e rosas De banqueiros-templários e de monjas manhosas Os venERAndos mestres dos nossos diriGentes

Cantemos o Adeus
Cantemos o Ave
Nesta EurOpa Sem Deus
Neste Mundo Sem Fé
César Príncipe, Lycíadas,  Seara de Vento, 2007)

domingo, 29 de abril de 2012

sexta-feira, 27 de abril de 2012

QUANDO OS TRABALHADORES PERDEREM A PACIÊNCIA


Mauro Iasi   Professor da UFRJ

QUANDO OS TRABALHADORES PERDEREM A PACIÊNCIA


As pessoas comerão três vezes ao dia
E passearão de
mãos dadas ao entardecer
A
vida será livre e não a concorrência
Quando os trabalhadores perderem a paciência

Certas pessoas perderão seus cargos e empregos
O trabalho deixará de ser um meio de vida
As
pessoas poderão fazer coisas de maior pertinência
Quando os trabalhadores perderem a paciência

O mundo não terá fronteiras
Nem estados, nem militares para proteger estados
Nem estados para proteger militares prepotências
Quando os trabalhadores perderem a paciência

A pele será carícia e o corpo delícia
E os
namorados farão amor não mercantil
Enquanto é a fome que vai virar indecência
Quando os trabalhadores perderem a paciência

Quando os trabalhadores perderem a paciência
Não terá governo nem direito sem justiça
Nem juízes, nem doutores em sapiência
Nem padres, nem excelências

Uma fruta será fruta, sem valor e sem troca
Sem que o humano se oculte na aparência
A
necessidade e o desejo serão o termo de equivalência
Quando os trabalhadores perderem a paciência

Quando os trabalhadores perderem a paciência
Depois de dez anos sem uso, por pura obsolescência
A filósofa-faxineira passando
pelo palácio dirá:
“declaro
vaga a presidência”!

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Eugénio de Andrade a Vasco Gonçalves


"a Vasco Gonçalves”

Nesses dias era sílaba a sílaba que chegavas.
Quem conheça o sul e a sua transparência
também sabe que no verão pelas veredas
da cal a crispação da sombra caminha devagar.
De tanta palavra que disseste algumas
se perdiam, outras duram ainda, são lume
breve arado ceia de pobre roupa remendada.
Habitavas a terra, o comum da terra, e a paixão
era morada e instrumento de alegria.
Esse eras tu: inclinação da água. Na margem
vento areias lábios, tudo ardia."

Eugénio de Andrade