sábado, 24 de outubro de 2026

No bar da esquina - Aldo Luís Novelli

...

No bar da esquina

No outro dia estava no bar da esquina tomando uma cerveja

enquanto assistia pela enésima vez ao maravilhoso

golo de Maradona contra os ingleses/

na mesa ao lado

alguém disse:

- olha aquele negro a finta que ele fez -

- o queres/ há que ser duro e tomar a bola para vencer

- e além disso criou fama em todo mundo com a camisa do Che/ que vergonha! -

- outro filho da puta esse desgraçado/ felizmente que o liquidaram

- os soldados deviam voltar - disse outro

- se é assim que rebentem com esse drogado negro/ como liquidam os terroristas -

- sim/ temos que os matar/ assim não falam mais -.

 

Engoli o gole de cerveja mais quente que já tomei na minha vida.

e eu olhei preocupado para trás.

Achei que tinha descoberto um conluio terrorista-muçulmano

ou um grupo de mercenários implacáveis ​​preparando um assassinato

no antigo bar do meu bairro

mas estava errado.

 

Eram quatro senhores muito elegantes de casaco e gravata

com carros caros e alarmes que assustam quem se aproxima

tomando café no bar proibido da minha infância.

Eram quatro típicos burgueses argentinos

esses respeitados homens de bem

membros da maravilhosa classe média argentina/

essa que nos diferencia do resto da América Latina.

Eram quatro senhores com ar preocupado

com os graves problemas do país

resolvendo os males do nosso povo.

 

Rapazes/ isto não é um poema/ longe disso

isto é um grito de alarme

no querido bar do meu bairro

há quatro tipos

preparando um assassinato.

Aldo Luís Novelli

En el bar de la esquina

El otro día estaba en el bar de la esquina tomando una cerveza

mientras veía por enésima maravillosa vez

el gol de Maradona a los ingleses/

entonces en la mesa de al lado

alguien dijo:

- miralo a ese negro villero la guita que hizo -

- y que querés/ hay que ser bruto y pegarle a una pelota para triunfar -

- y encima se floreó por el mundo con la camiseta del Che/ que vergüenza! -

- otro hijo de puta ese desgraciado/ menos mal que lo liquidaron -

- deberían volver los milicos - dijo otro

- si así revientan a este negro drogón/ como reventaron a los terroristas -

- sí/ hay que matarlo/ así no habla más -.

 

Yo tragué el sorbo de cerveza más caliente que haya tomado en mi vida

y miré preocupado hacia el costado

pensé que había descubierto una confabulación terrorista-musulmana

o a un grupo de mercenarios despiadados preparando un asesinato

en el viejo bar de mi barrio

pero me equivoqué.

 

Eran cuatro señores muy elegantes de saco y corbata

con autos caros y alarmas que espantan a los que se acercan

tomando café en el bar prohibido de mi infancia.

Eran cuatro típicos burgueses argentinos

esos respetados hombres de bien

integrantes de la maravillosa clase media argentina/

ésa que nos ha diferenciado siempre/ del resto de Latinoamérica.

Eran cuatro señores con cara de tipos preocupados

por los graves problemas del país

arreglando los males de nuestro pueblo.

 

Muchachos/ esto no es un poema/ ni mucho menos

esto es un grito de alarma

en el querido bar de mi barrio

hay cuatro tipos

preparando un magnicidio.

 

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

CÁLICE - Chico e Milton

 

AQUI

CÁLICE

Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Como beber dessa bebida amarga?
Tragar a dor, engolir a labuta?
Mesmo calada a boca, resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta
De que me vale ser filho da santa?
Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira, tanta força bruta

Pai (Pai), afasta de mim esse cálice
(Pai), afasta de mim esse cálice
(Pai), afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado, eu permaneço atento
Na arquibancada, pra a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa

Pai (Pai), afasta de mim esse cálice
(Pai), afasta de mim esse cálice
(Pai), afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

De muito gorda, a porca já não anda (cálice)
De muito usada, a faca já não corta
Como é difícil, (Pai) Pai, abrir a porta (cálice)
Essa palavra presa na garganta
Esse pileque homérico no mundo
De que adianta ter boa vontade?
Mesmo calado o peito, resta a cuca
Dos bêbados do centro da cidade

Pai (Pai), afasta de mim esse cálice
(Pai), afasta de mim esse cálice
(Pai), afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Talvez o mundo não seja pequeno (cálice)
Nem seja a vida um fato consumado (cálice, cálice)
Quero inventar o meu próprio pecado (cálice, cálice)
Quero morrer do meu próprio veneno (Pai) (cálice, cálice)
Quero perder de vez tua cabeça (cálice)
Minha cabeça perder teu juízo (cálice)
Quero cheirar fumaça de óleo diesel (cálice)
Me embriagar até que alguém me esqueça (cálice)