segunda-feira, 3 de setembro de 2012

A OSTRA - João Cabral do Nascimento



João Cabral do Nascimento por Abel Manta

A OSTRA
A ostra, com os peixes conversando,
Não teve mão em si que não dissesse:
-- Que vida preciosa, a minha! Quem merece
mais cuidados do que eu? Sabei que mil fulgores
se me acumulam nas entranhas
crio jóias sem parjóias estranhas…
numa palavra: pérolas, senhores!

O céu, o mar, os astros,
Solícitos, de rastros,
Vêm ofertar-me as suas cores.
Tenho dentro de mim reflexos diamantinos
E cristalinos… argentinos…
Cintilações… lucilações a esmo,
Enfim, é o mesmo
Que dar à luz o Sol! Talvez melhor, a Lua.

-- Ah (um peixe responde), ouvi dizer
Que até te comem crua!

João Cabral do Nascimento


sábado, 1 de setembro de 2012

Como Nossos Pais - Elis Regina

Para ouvir clicar aqui

Como Nossos Pais

Não quero lhe falar,
Meu grande amor,
Das coisas que aprendi
Nos discos...
Quero lhe contar como eu vivi
E tudo o que aconteceu comigo
Viver é melhor que sonhar
Eu sei que o amor
É uma coisa boa
Mas também sei
Que qualquer canto
É menor do que a vida
De qualquer pessoa...
Por isso cuidado meu bem
Há perigo na esquina
Eles venceram e o sinal
Está fechado prá nós
Que somos jovens...
Para abraçar seu irmão
E beijar sua menina na rua
É que se fez o seu braço,
O seu lábio e a sua voz...
Você me pergunta
Pela minha paixão
Digo que estou encantada
Como uma nova invenção
Eu vou ficar nesta cidade
Não vou voltar pro sertão
Pois vejo vir vindo no vento
Cheiro de nova estação
Eu sei de tudo na ferida viva
Do meu coração...
Já faz tempo
Eu vi você na rua
Cabelo ao vento
Gente jovem reunida
Na parede da memória
Essa lembrança
É o quadro que dói mais...
Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Como os nossos pais...
Nossos ídolos
Ainda são os mesmos
E as aparências
Não enganam não
Você diz que depois deles
Não apareceu mais ninguém
Você pode até dizer
Que eu tô por fora
Ou então
Que eu tô inventando...
Mas é você
Que ama o passado
E que não vê
É você
Que ama o passado
E que não vê
Que o novo sempre vem...
Hoje eu sei
Que quem me deu a idéia
De uma nova consciência
E juventude
Tá em casa
Guardado por Deus
Contando vil metal...
Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo, tudo,
Tudo o que fizemos
Nós ainda somos
Os mesmos e vivemos
Ainda somos
Os mesmos e vivemos
Ainda somos
Os mesmos e vivemos
Como os nossos pais...

Elis Regina

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Metam O burro na gaiola - Joaquim Namorado


Joaquim Namorado por Mário Dionísio, óleo s/ tela; 75 x 61, 1952,

 

Metam O burro na gaiola

.

Metam O
burro na gaiola
de doiradas
grades
e tratem-no a alpista
se quiserem
- é
um despropósito

Mas esperar dele o trinar
Do
canário melodioso
É
simplesmente tolo.”

Joaquim Namorado

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

In memoriam do camponês desconhecido - António Cabral


Enterro do camponês - Gravura do artista plástico brasileiro Abelardo da Hora (1924)

In memoriam do camponês desconhecido

O que tinha setenta anos de terra,
um como tantos, morreu pela última vez.
Que umbral de papoilas receberia
devidamente o seu rosto vitorioso?
Quando entrou no cemitério,
o
orvalho cintilava em todas as roseiras
e
um pássaro de que não sei o nome
descreveu
alguns círculos e partiu.
Os calos floriam nas mãos dos homens,
as
mulheres perdiam-se no céu azul,
enquanto ele, um como tantos, regressava.
Eu te saúdo, irmão da urze bravia,
setenta
vezes setenta
anos de terra em flor e de miséria.

António Cabral
 (1931-2007)

sábado, 25 de agosto de 2012

Assim se faz o homem


Bertold Brecht

Assim se faz o homem
Assim se faz o homem:
dizendo
sim e dizendo não,
batendo e apanhando,
unindo-se a uns
aqui, a outros acolá.
Assim se faz o homem: transformando-se:
assim se forma em nós a sua imagem,
igual à nossa, no entanto diversa.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

MAS...




Mas...


E eu que achei que a lua não brilhasse

sobre os mortos no campo da guerrilha,

sobre a relva que encobre a armadilha

ou sobre o esconderijo da quadrilha,

mas brilha.

.

E achei que nenhum pássaro cantasse

Se um lavrador não mais colhe o que planta,

se uma família vai dormir sem janta

com um soluço preso na garganta,

mas canta.

.

Também pensei que a chuva não regasse

a folha cujo leite queima e cega,

a carnívora flor que o cego inseto pega

ou o espinho oculto na macega,

mas rega.

.

Pensei também que o orvalho não beijasse

a venenosa cobra que rasteja

no silêncio da noite sertaneja

sobre a ruína de esquecida igreja,

mas beija.

.

Imaginei que a água não lavasse

o chicote que em sangue se deprava

quando, de forma monstruosa e brava,

abre trilhas de dor na pele escrava,

mas lava.

.

Apostei que nenhuma borboleta

-por ser um vivo exemplo de esperança-

dançaria contente, leve e mansa

sobre o túmulo em flor de uma criança,

mas dança.

.

Por isso achei que eu não mais fizesse

poema algum após tanto embaraço,

tanta decepção, tanto cansaço

e tanta espera, em vão, por teu abraço,

mas faço.

Antônio Roberto Fernandes

sábado, 11 de agosto de 2012

Meu galope é em frente


Mário Dionísio por Júlio Pomar, 1950

Meu galope é em frente


Direis que não é poesia
e a
mim que importa?
Eu canto porque a voz nasce e tem de libertar-se.
E
grito porque respondo
às
lanças que me espetam
e aos
braços que me chamam,
E
porque, dia e noite, minhas mãos e meus olhos,
por estranhas telegrafias,
dos
cantos mais ignotos
e das
linhas perdidas
e dos
campos esquecidos
e dos
lagos remotos,
e dos
montes,
recebem longas
mensagens e comunicações:
para que grite e cante.
O meu grito e meu canto é a voz de milhões.
Por isso que me importa?
Eu canto e cantarei o que tiver a cantar
e
grito e gritarei o que tiver a gritar
e
falo e falarei o que tiver a falar.
Direis que não é poesia.
E a
mim que importa
se
eu estou aqui apenas para escancarar a porta
e
derrubar os muros?
E a
mim que importa
se
vós sois afinal o que hei-de ultrapassar
e
esmigalhar
em nome
de
todos os futuros?
Eu sigo e seguirei.
como um doido ou um anjo,
obstinado e heróico a caminho de nós
em palavras e acções
por todos os vendavais
e
temporais
e
multidões
nos cantos mais ignotos
e nas
linhas perdidas
e
nos campos esquecidos
e
nos lagos remotos
e
nos montes
-
por terra, mar e ar.
Direis que não é poesia
E a
mim que importa!
Convosco ou não, meu galope é em frente.
Pertenço a
outra raça, a outro mundo, a outra gente.
É andar, é andar!
Mário Dionísio

quinta-feira, 2 de agosto de 2012