terça-feira, 20 de novembro de 2012

Guia para candidatos aos infernos


[Prof. Marcelo, Couto dos Santos, Cavaco, Passos, Teresa Patrício Gouveia e Relvas]
IV - Candidatos Usurários
Fiéis amantes do alheio, não nos venham dizer que isto é defeito.
Cobiçosos do que não é nosso, somos insatisfeitos de nascença.
Nascemos
com cabeças de mealheiro, mas há mais deploráveis cabeças.
Nascemos
com diversos pares de pernas, por isso andamos mais depressa.
Somos
devotos do deus Money, nosso verdadeiro deus.
Somos
em geral poupados. Alguns, vá lá, talvez ávidos.
Não negociamos com promessas.
Não há paraíso na nossa igreja.
Nossos credos são a bolsa, os mercados emergentes, as redes.
Houve
usurários padres, bispos, cardeais e até papas, e nem por isso menos louvados.
Príncipes, reis, imperadores foram vaidosos usurários, e nem por isso menos louvados.
Doges usurários pagaram aos Bellini, a Tiziano, a Veronese, e ainda bem.
A
persistente devoção à usura fez dos grandes do mundo respeitados mecenas.
Desconfiamos de
quem nos vem dizer que despreza a usura, “cancro contra natura”.
Haverá
mais imperturbável usurária que a própria natureza?
Sigamos-lhe o
exemplo: aceitemos o reino da usura.
Por ela e com ela teremos direito aos eternos infernos.
 Almeida Faria
(Que a contragosto misturo com esta gente)

domingo, 18 de novembro de 2012

Fadwa Tugan - Palestina


Ó noite (aqui)
Deixa que o prisioneiro termine os seus lamentos
Não creias que é o medo
Que provoca as lágrimas
Se
choro é por minha pátria
E pelas
crianças que deixarei em casa
Quem lhes dará pão depois de mim
Se,
antes de mim, meus dois irmãos
Foram
também
Enforcados...


Fadwa Tugan
(uma das mais célebres vozes da poesia palestina e árabe)


sexta-feira, 16 de novembro de 2012

PRIMEIRO RETRATO NATURAL



Alexandre O’Neill

PRIMEIRO RETRATO NATURAL

Ela queria perceber o que se passa.
Queria?

Passa a rua às risadas.
«Uscumunistas?»

Gritam flores da jarra.
Estão inocentes?

O telefone terrinta.
É o destino?

Na bandeja de prata, o sedativo.
Por tomar?

Na sala das porcelanas, a senhora.
Por viver.

*

De sentinela à porcelana
está Inês ou Teresa ou Ana
(Maria, deixa-se ver).
Tem à mão uma bengala
para o que der e vier:
«Se os bolchevistas entrarem,
vão ver, vão ver!
As porcelanas inteiras
é que eles não hão-de ter!»

*

Porcelana implora
senhora insiste.
Até que a levam prà cama,
Pauzinho em riste, zangada.

É um terrina vazia
que em sonhos se suicida
à bengalada.

(1975)

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Pedro Castelhano - Bagdad



Pedro Castelhano
(Rogério Rodrigues)

Bagdad

Eu nunca fui a Bagdad
mas dizem-me que as águas do Eufrates
correm vermelhas.

Eu nunca fui a Bagdad
mas dizem-me que os jovens ainda fazem
amor às escondidas da morte.

Eu nunca fui a Bagdad
mas dizem-me  que o riso das crianças
é explosivo logo pela manhã.

Eu nunca fui a Bagdad
mas dizem-me que a morte
anda à minha procura.

domingo, 11 de novembro de 2012

Daniel Filipe



4ª CANÇÃO

Roga por nós, ó pátria, ó sonho sem fronteira!,
por nós a quem recusam a alegria,
a liberdade, o pão de cada dia,
a vida verdadeira!

Ó pátria, canta! Do teu presepe imaginário
ergue a voz dulcíssima, magoada,
e estilhaça de esperança as paredes do aquário,
ó pacifica pomba engaiolada!

Contigo iremos pela noite fora,
cantando «Erguendo rútilas bandeiras
por sobre aldeias, campos, sementeiras,
como os arcanjos portadores da aurora».

Daniel Filipe

sábado, 10 de novembro de 2012

10 de Novembro - Uma flor para Álvaro Cunhal


Álvaro Cunhal
10/11/1913

Não me permito interromper o discurso da flor. O colorido luminoso da palavra sugere a fragrância da terra e o horizonte da verdade. Resta-me ficar atento para escutar o que sinto.

Cid Simões

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

DATA


Data

Tempo de solidão e de incerteza
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação

Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo de escravidão

Tempo dos coniventes sem cadastro
Tempo de silêncio e de mordaça
Tempo onde o sangue não tem rasto
Tempo da ameaça
Sophia de Mello Brayner Andresen


quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Ser indiferente - Álvaro de Campos




Ah! Ser indiferente!
É do alto do poder da sua indiferença
Que os chefes dos chefes dominam o mundo.

Ser alheio até a si mesmo!
É do alto do sentir d’esse alheamento
Que os mestres dos mestres dominam o mundo.

Ser esquecido de que se existe!
É do alto do pensar d’esse esquecer
Que os deuses dos deuses dominam o mundo.

(Não ouvi o que dizias…
Ouvi só a música, e nem a essa ouvi…
Tocavas e falavas ao mesmo tempo?
Sim, creio que tocavas e falavas ao mesmo tempo…
Com quem?
Com alguém em quem tudo acabava no dormir do mundo…)

Álvaro de Campos