domingo, 25 de novembro de 2012

Najwân Darwish



um pouco de jazz

ó tu, cônsul negro de uma civilização branca como uma mortalha
ó
tu, cônsul branco de uma civilização de carvão
haverá uma
cor terceira com quem eu possa falar?
ou devemos implorar-te, como criadas bem educadas, para nos permitires viajarmos,
o
que fazer para que te agradem estas caras que o Senhor traçou?
ou dançaremos nós diante das embaixadas a noite toda, acenderemos nós um fogo à maneira das tribus zulu?
ou quereis que nos deitemos com as vossas velhas para provarmos as nossas boas intenções?
ou assinamos os contratos de inocência da História
ou desinfectamos a memória com Dettol
ou queimamos o livro “Orientalismo” e as nossas mães “atrasadas” – com gasolina – e rimos.
ou tocamos um pouco de jazz para a tua mulher?

ó
tu, cônsul
as nossas
caras derreteram e nós para cá e para lá e estamos perante os teus olhos perscrutadores e as tuas experientes secretárias, mais excelentes que cães-polícia...
estas
caras cujos traços apagastes com as vossas tendências experimentais perseguir-vos-ão em pesadelos durante sete gerações pelo menos

ó
tu, cônsul
este poema perseguir-te-á a ti em particular.
Najwân Darwish
Tradução do árabe: André Simões

sábado, 24 de novembro de 2012

XII - Candidatos Hereges



Guia para candidatos aos infernos
Santana Lopes, Bosco Amaral, Dias Loureiro,  Miguel Relvas, Luís Arnaut e…
XII - Candidatos Hereges
Ser herege é ter de escolher, custe o que custar.
Não pensamos o que querem obrigar-nos a pensar,
Não fazemos o que esperam obrigar-nos a fazer.
Mas quem escreveria hoje Os Heróicos Furores?
Quem enfrentaria a fogueira do Campo dei Fiori
Como o homem de Nola? Quem estaria disposto
A
ser representado de olhos esbugalhados, cara
De
pernas para o ar e orelhas no pescoço monstruoso?
Quem estaria pronto a morrer como Julião ainda jovem?
Quem correria hoje o risco de ser morto como um cão,
Na
prisão, num descampado, numa esquina anónima?
Sabemos
que a mesa mais venenosa é a Mesa Censória,
Aquela
que usa o seu poder para definir o que é háiresis,
Tentação diabólica, coisa de orgulhosos e heterodoxos.
A
fossa do sexto círculo é melhor e mais espaçosa
Que a estreiteza dos Bempenteadinhos que decidem
Quem é herético ou herética: os que ardem depressa.
 Almeida Faria
(Que a contragosto misturo com esta gente)

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Confissão de um terrorista!



Nem todo o povo de Israel é nazissionista
nem todos os judeus são culpados
mas no ensurdecedor silêncio que manifestam
ouve-se a conivência criminosa

 
Confissão de um terrorista!
Ocuparam minha pátria
Expulsaram meu povo
Anularam minha identidade
E me chamaram de terrorista
Confiscaram minha propriedade
Arrancaram meu pomar
Demoliram minha casa
E me chamaram de terrorista
Legislaram leis fascistas
Praticaram odiada apartheid
Destruíram, dividiram, humilharam
E me chamaram de terrorista
Assassinaram minhas alegrias,
Sequestraram minhas esperanças,
Algemaram meus sonhos,
Quando recusei todas as barbáries
Eles... mataram um terrorista!
Mahmoud Darwich

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

MAHMOUD DARWISH - GAZA



 
Mahmoud Darwish
Efémeros em palavras efémeras

1.
Vocês que passam com palavras efémeras,
levem
seus nomes e vão embora
tirem
suas horas do nosso tempo e vão embora
roubem à
vontade do azul do mar e das areias da lembrança
tirem
fotos à vontade, e assim vão saber
que não hão de saber
como uma pedra da nossa terra constrói o teto do céu.
2.
Vocês que passam com palavras efémeras
de
vocês vem espada, de nós vem nosso sangue
de
vocês vêm fogo e aço, de nós vem nossa carne
de
vocês vem outro tanque, de nós vem pedra
de
vocês vem a bomba de gás, de nós vem chuva.
Um mesmo céu e um mesmo ar nos cobre
peguem
seu quinhão do nosso sangue, mas vão embora
entrem no
jantar dançante, mas vão embora
temos
que zelar pela rosa dos mártires
temos
que viver como a gente quer!
3.
Vocês que passam com palavras efémeras,
como a poeira amarga, passem onde quiserem, mas
não passem entre nós como insetos com asas
temos o
que fazer na nossa terra
temos
trigo a criar e regar com o orvalho do nosso corpo
temos o
que a vocês aqui não agrada:
temos
pedra... e perdiz!
Levem o
passado, se quiserem, ao mercado das quinquilharias
devolvam, se quiserem, o
esqueleto do passarinho ao prato de porcelana.
Temos o
que não lhes agrada: temos o futuro
temos o
que fazer na nossa terra.
4.
Vocês que passam com palavras efémeras,
soquem
seus dramas num buraco abandonado e vão embora
voltem
atrás o ponteiro do tempo até o bezerro sagrado
ou até o disparo ritmado do revólver!
Temos o
que a vocês aqui não agrada, então vão embora
temos o
que por dentro vocês não têm:
uma
pátria que jorra um povo que jorra uma pátria
que combina com esquecer e lembrar.
Vocês que passam com palavras efémeras,
é
hora de irem embora
de morarem
onde quiserem, mas não entre nós
é
hora de irem embora
de morrerem
onde quiserem, mas não entre nós
temos o
que fazer na nossa terra
aqui temos o passado
temos a
primeira voz de vida
temos o
presente, o presente e o que está por vir
temos o
mundo aqui e temos a outra vida
saiam da
nossa terra, do nosso deserto, do nosso mar
saiam do
nosso trigo, do nosso sal, da nossa ferida
de
tudo
saiam das
lembranças da nossa memória,
vocês que passam com palavras efémeras.

(para ver e ouvir Mahmoud Darwish) 

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Tawfic Zayyad - Não iremos embora

Tawfic Zayyad
Palestino de Nazaré - 1929-1994
Não iremos embora
 
Aqui
Sobre vossos peitos
Persistimos
Como uma muralha
Em vossas goelas
Como cacos de vidro
Imperturbáveis
E
em vossos olhos
Como uma tempestade de fogo
Aqui
Sobre vossos peitos
Persistimos
Como uma muralha
Em lavar os pratos em vossas casas
Em encher os copos dos senhores
Em esfregar os ladrilhos das cozinhas pretas
Para arrancar
A
comida de nossos filhos
De vossas
presas azuis
Aqui sobre vossos peitos
Persistimos
Como uma muralha
Famintos
Nus
Provocadores
Declamando
poemas
Somos os
guardiões da sombra
Das
laranjeiras e das oliveiras
Semeamos as ideias
como o fermento na massa
Nossos nervos são de gelo
Mas nossos corações vomitam fogo
Quando tivermos sede
Espremeremos as
pedras
E comeremos
terra
Quando estivermos famintos
Mas não iremos embora
E
não seremos avarentos com nosso sangue
Aqui
Temos
um passado
E
um presente
Aqui
Está
nosso futuro