sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Cantiga alegre de um tema trágico




Cantiga alegre
de um tema trágico


encontro um homem
no carro eléctrico
a decorar o
sistema métrico

vou contra o homem
digo-lhe vem
e o homem parte
no campo de ninguém

quem era este homem
ou quem foi ou quem
teria sido? igual
aos outros que também
não vem. porque
ninguém vem
quando alguém
chama

ninguém deseja
que o carro eléctrico
esteja para além
do sistema métrico

tudo medido
e condicionado
pode ser que um dia
se cante outro fado

por enquanto é
preciso ser
tão prudente quanto
se possa ser

neste carro eléctrico
a população
não se reúne nem
oferece a mão

Lisboa é
a cidade modelo.
quando alguém quer ser
mas querer não é ser

não pode chamar
pois não sabe a quem:
apenas pode voltar
a escrever bem
 
JOAQUIM BENITE

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Papiniano Carlos - IMPROVISO NA MORTE DO SEMEADOR

IMPROVISO NA MORTE DO SEMEADOR

Carregavas
em teus ombros um navio
de
relâmpagos, em teu coração a pedra
e a
voz das cidades insubmissas.

Levavas
em teu rastro uma aurora
de
espigas, em teus lábios as palavras
que não temem fogo, frio ou morte.

Submerso no ódio e no terror, chegavas
em cada noite e, feroz, reconstruías
uma
vez mais a esperança.

A
terra semeavas e, por amá-la tanto,
(transforma-se o
amador na coisa amada)
és
agora, ó semeador, a própria semente
oculta e
violenta.

Papiniano Carlos
in "Sonhar a Terra Livre e Insubmissa...",1973.

O POETA MORREU



 PAPINIANO CARLOS
 (9/11/1918 - 5/12/2012)

O telefone tocou e o César Príncipe deu-me a notícia:
- Olha, o  Papi morreu!
Pouco passava das cinco da tarde de hoje.
Desde de Abril último que não visitava o Papiniano Carlos e a Olívia de Vasconcelos, sua companheira de sempre.
O Papi estava impedido de descer até à sala, onde tinha todas as suas memórias, todos os seus escritos, toda a sua Vida.  E um  Homem como o Papiniano Carlos, que sempre viveu de pé, não merecia tal castigo.
Orgulho-me de ter editado "A viagem de Alexandra" e "O cavalo das sete cores", com ilustrações de Elsa Lé e de Fedra Santos, respectivamente.
Agradeço-lhe considerar-me seu Amigo.
Orgulho-me de ser seu Camarada.

Soares Novais 

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Raul Brandão



“palavras em carne viva”

«Não só os sentimentos criam palavras, também as palavras criam sentimentos. As palavras formam uma arquitectura de ferro. São a vida e quase toda a nossa vida – a razão e a essência desta barafunda. É com palavras que construímos o mundo. É com palavras que os mortos se nos impõem. É com palavras, que são apenas sons, que tudo edificamos na vida. Mas agora que os valores mudaram, de que nos servem estas palavras? É preciso criar outras, empregar outras, obscuras, terríveis, em carne viva, que traduzam a cólera, o instinto e o espanto.»
 Raul Brandão
in HÚMUS
(1917, 3º vol. pág. 197)

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Canção da esperança - Arquimedes da Silva Santos



Canção da esperança


Corações nossos faróis
Na noite desta batalha
Num refulgir de navalha
Rasgai o véu aos heróis.

As nuvens hão-de passar!
Penetra-as o sol da alma
Para além do próprio olhar.
E os medos de arrefecer
Espanta-os um peito calmo
À firmeza de vencer.

Os golpes de viva dor
Temperam a fé futura
Constante forjam o amor.
E as quedas não são fatais
Se a chama desta aventura
Em nós cresce ainda mais.

A luta nunca foi vã!
Os braços em liberdade
Levantam outro amanhã.
E os lábios dão a florir
Os hinos desta verdade:
É de acção nosso porvir.

Arquimedes da Silva Santos

sábado, 1 de dezembro de 2012

VI - Candidatos Gulosos

Guia para candidatos aos infernos

 VI - Candidatos Gulosos

Nós, os gulosos, temos mais olhos que barriga. Orgulhamo-nos disso.
Cerbero
nos espera, lá no terceiro círculo, não com uma cabeça,
Mas com três, de cinco olhos em cada uma, nada menos,
Soltando
guinchos que assustariam as almas sensíveis
Se
não as protegesse o gigante Belzebu, todo nariz e boca,
Cujas
tripas lhe nascem na boca (o cheiro daquela boca!)
Que não serve para sorrir, serve só para comer
Sem mastigar, para sorver, tragar e devorar.
Nos jantares mais formais, ao encherem os pratos,
Ao enfardarem
até não caber mais,
Ao falarem
antes de terem engolido,
Ao pegarem
nos talheres como animais,
Alguns de nós não voltarão a ser convidados.
Tanto lhes faz. Fazem como o trifauce Cerbero
Cujas
goelas, em trindade, nunca estarão saciadas.
Seguem o
exemplo da grandeza inalcançável
De
Nosso Senhor Belzebu, o grão-patrão da gula.

 Almeida Faria

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

CONGRESSO do PCP - 30/nov. 1 e 2 de dezembro de 2012

  

Congresso de um partido que ao longo dos seus 92 anos de existência sempre se afirmou da classe operária e de todos os trabalhadores, patriótico e internacionalista. Três dias de análise da situação política, do trabalho feito e de propostas para o futuro. Três dias que a intoxicação social vai ignorar o mais que lhe for possível e usar todas as técnicas de que dispõe para enviesar ao máximo a informação sobre o Congresso dos Comunistas.

MAS ELE MOVE-SE!

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

O comum da terra - EUGÉNIO DE ANDRADE


O comum da terra

Nesses dias era sílaba a sílaba que chegavas.
Quem conheça o sul e a sua transparência
também sabe que no verão pelas veredas
da
cal a crispação da sombra caminha devagar.
De
tanta palavra que disseste algumas
se perdiam, outras duram
ainda, são lume
breve arado ceia de pobre roupa remendada.
Habitavas a
terra, o comum da terra, e a paixão
era morada e instrumento de alegria.
Esse eras tu: inclinação da água. Na margem
vento areias mastros lábios, tudo ardia.

EUGÉNIO DE ANDRADE
in: 12 Poemas para Vasco Gonçalves, Porto, 1977



FANTASMA - Mahmûd Darwîsh

FANTASMA


(
para um guarda:) vou-te ensinar a esperar
à
porta da minha morte adiada
tem
calma, tem calma
talvez te fartes de mim
e tires a tua
sombra de cima de mim
e
entres na tua noite livre
sem o meu fantasma

Mahmûd Darwîsh
1941-2008 Palestina
Tradução: André Simões
إلى حارِسٍ: سَأَعْلِّمُكَ الاِنْتِظار
عَلى بابِ مَوتي المُؤجَّل

تَمْهَّلْ، تَمْهَّل
لَعَلَّكَ تَسْأمُ مِنَي

وَتَرْفَعُ ظِلَّكَ عَنّي
وَتَدْخُلُ لَيلَكَ حُرّاً

بِلا شَبَحي

terça-feira, 27 de novembro de 2012

TERAPIA - Mario Benedetti

(papoula)
foto António Flor



TERAPIA

Para no sucumbir
ante la tentación
del precipicio
el mejor tratamiento
es el fornicio

Mario Benedetti