quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Dedicatória - Fernando Miguel Bernardes

Dedicatória

Se poeta sou
Sei a quem o devo
Ao povo a quem dou
Os versos que escrevo

Da sua vida rude
Colhi a poesia
Tentei quanto pude
Dar-lhe a melodia

E é nessa harmonia
Entre a forma e o fundo
Que eu desejaria
Ver florir o mundo



quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Gil Vicente - do Auto da Festa



(do Auto da Festa)

Verdade           Acabai já de contar
como passou vosso feito.
Vilão        Trago tamanho despeito,
que estou pera me enforcar
e deitar por i a eito.

A justiça não parece,
a verdade é desterrada,
e a mentira honrada,
o que agora mais merece
esse há menos soldada.

A meu pai ouvi dizer
(nego ua autoridade,
nunca me há-de esquecer):
«Quem quiser ter de comer
que nunca fale verdade,
senão sempre à vontade
do senhor com quem viver.»

Verdade          Nos outros tempos passados
era muito honrada,
do povo muito adorada;
e agora por seus pecados
ando assi desterrada.


Vilão               Os homens hão de seguir
a opinião geral,
porque já em Portugal
quem não costuma mentir,
não alcança um só real.

Que os homens verdadeiros
não são tidos nua palha;
os que são mexeriqueiros,
mentirosos, lisongeiros,
esses vencem a batalha.

I não há já merecer
nem servir com diligência:
quem quiser ter que comer
trabalhe por aderência,
haverá quanto quiser.

Vós outros andais no Paço,
nunca vos falta desgosto,
e eu assi como são tosco
segunda a vida que faço
não trocaria convosco.

Porque, com duas sardinhas,
fico eu mais satisfeito,
que vós com vosso desfeito,
nem com capões, nem galinhas,
não vos fazem mais proveito.

Gil Vicente

terça-feira, 13 de setembro de 2016

“Grito humano” - Albert Ehrenstein



“Grito humano”

Nós, os amordaçados, estamos envolvidos
Por demónios, e brutalmente oprimidos.
Maldito seja eu, que tive a minha cruz
Antes do mundo estar banhado em luz.


Albert Ehrenstein
(1916) (tradução de João Barrento)

domingo, 11 de setembro de 2016

HINO E REGRESSO - Pablo Neruda



HINO E REGRESSO

Pátria, pátria minha, a ti regressa meu sangue.
Mas peço-te, como o filho em pranto
pede à mãe:
Acolhe
esta guitarra cega
e esta fronte perdida.
Saí a procurar-te filhos pela terra,
saí a erguer vencidos com teu nome de neve,
saí a erguer uma casa de madeira pura
e a levar tua estrela aos heróis feridos.

Agora quero dormir na tua substância.
Dá-me uma clara noite de cordas penetrantes,
a tua noite de navio, altura de estrelas.

Pátria minha: quero mudar de sombra,
Pátria minha: quero trocar de rosa.
Quero pôr o braço na tua frágil cintura
e sentar-me nas tuas pedras calcinadas pelo mar
para deter o trigo e olhá-lo por dentro.
Vou escolher a flora delgada do nitrato,
vou fiar o estambre glacial do sino
e olhando a tua ilustre e solitária espuma
tecerei à tua beleza um ramo litoral.

Pátria, pátria minha,
rodeada de água combatente
e neve combatida,
em ti a águia junta-se ao enxofre
e na tua antárctica mão de arminho e de safira
uma gota de pura luz humana
brilha incendiando o céu inimigo.

Guarda a tua luz, oh pátria!, mantém
a dura espiga de esperança no meio
do cego ar temível.
Na tua remota terra caiu toda esta luz difícil,
este destino de homens,
que te faz defender uma flor misteriosa,
só, na imensidade da América adormecida


HIMNO Y REGRESO (1939)
PATRIA, mi patria, vuelvo hacia ti la sangre.
Pero te pido, como a la madre el niño
lleno de llanto.
                      Acoge
esta guitarra ciega
y esta frente perdida.
Salí a encontrarte hijos por la tierra,
salí a cuidar caídos con tu nombre de nieve,
salí a hacer una casa con tu madera pura,
salí a llevar tu estrella a los héroes heridos.
Ahora quiero dormir en tu substancia.
Dame tu clara noche de penetrantes cuerdas,
tu noche de navío, tu estatura estrellada.
Patria mía: quiero mudar de sombra.
Patria mía: quiero cambiar de rosa.
Quiero poner mi brazo en tu cintura exigua
y sentarme en tus piedras por el mar calcinadas,
a detener el trigo y mirarlo por dentro.
Voy a escoger la flora delgada del nitrato,
voy a hilar el estambre glacial de la campana,
y mirando tu ilustre y solitaria espuma
un ramo litoral tejeré a tu belleza.
Patria, mi patria
toda rodeada de agua combatiente
y nieve combatida,
en ti se junta el águila al azufre,
y en tu antártica mano de armiño y de zafiro
una gota de pura luz humana
brilla encendiendo el enemigo cielo.
Guarda tu luz, oh patria!, mantén
tu dura espiga de esperanza en medio
del ciego aire temible.
En tu remota tierra ha caído toda esta luz difícil,
este destino de los hombres
que te hace defender una flor misteriosa
sola, en la inmensidad de América dormida.