terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

A MAIS ALTA TORRE - Manuel Gusmão


A MAIS ALTA TORRE


Sobre si mesmo, movendo-se, o mundo
voltou-se para o outro lado. E tu?

Viras-te para o lado de onde vem, segundo ouves,
o seu ruído concentrado na luz --- Cego;
ou como se o estivesses já --- imaginavas o som
das letras; tacteavas a máquina do canto;
perdias-te no labirinto dos ecos.

 Cego, mas tens as mãos e elas uma memória
por fazer. As mãos lembram-se: recordam o coração.

Repetes, recapitulas, recuperas esse gesto antigo:


Estender as mãos em frente ---

não para a memória mas para a vida,
não para um sonho mas para a invenção
num gesto ou numa teia de gestos quase
automáticos,
[quase pensativos;

Ver pelas mãos o halo da lua que alucina ---
Poisar as mãos na madeira da mesa ou
na pedra do parapeito ou no pescoço alto
por onde subia o canto ---

E de súbito há uma coisa que descobres
onde a não esperavas: quando escrevendo o «Soneto»
de Cantata ele calculava o peso que deveriam ter
as palavras para poderem voar;


quando o poema era levantar a torre do meu canto
e recriar o mundo pedra a pedra

 ter-lhe-ia falado tão próximo, tão estranho e
tão íntimo, o eco só que fosse daquela
Canção da mais alta torre

daquele que por delicadeza a vida perdera.

Tanto quanto podes saber não da memória
acordada vinha esse eco, embora ele o pudesse
mas antes o duplo acorde seria
de tão diferentes naturezas que o espanto
nos reúne e nos enlaça nesta praia.
Sim.

Tu apenas tinhas estendido as mãos
e entre elas esse impossível espelho
abrir-se-ia, Sim, para duplicar a música
sem ser o seu eco;


Viras-te para o lado em que o mundo vem:
--- Como se estivesses cego ---; alguém pelo menos
o estava e um cão no sonho ladrava
a um outro alguém que se achava perdido
no canto e sob um arco ao fim da rua,
então, cantava.


O fim dessa rua era uma outra que nos cedia a luz
[--- a imagem ---
a ilusão do dia e do canto; --- nosso, era apenas o cão
e ladrava à noite, à lua e aos astros.

--- Estendes as mãos para as poisares
na madeira da mesa, na pedra do parapeito
ou para rodearem o pescoço alto: a alta torre
[do canto


Tudo poderia então agora talvez recomeçar


É como se a mesa desde sempre ali
estivesse; pronta para sobre ela assinares
as tuas últimas vontades; e a janela permitisse

distinguir visível e invisível.

É como se a janela, súbita, se tivesse aberto
sobre a mesa clara e entre si trocassem as formas e
as figuras que nas estantes do ar dançavam;

as imagens daquele mundo que as mãos desenham
e escutam por letras e por música.

É como se as mãos subissem o canto longínquo
que em ti se transforma nas vozes sobrepostas
das mais mínimas, das mais enigmáticas coisas

desta terra, onde uma vez nascidos,
como o breve fogo azul passando a cinza,
nascendo, morrêssemos.



(A Terceira Mão)

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Ler, reler e tornar a ler - Giorgio Agamben



Ler, reler e tornar a ler

“Deus não morreu, ele se tornou dinheiro, e o banqueiro tomou o lugar dos padres“

“Crise” e “economia” atualmente não são usadas como conceitos, mas como palavras de ordem, que servem para impor e para fazer com que se aceitem medidas e restrições que as pessoas não têm motivo algum para aceitar. ”Crise” hoje em dia significa simplesmente “você deve obedecer!”. Creio que seja evidente para todos que a chamada “crise” já dura decênios e nada mais é senão o modo normal como funciona o capitalismo em nosso tempo. E se trata de um funcionamento que nada tem de racional.

Para entendermos o que está acontecendo, é preciso tomar ao pé da letra a idéia de Walter Benjamin, segundo o qual o capitalismo é, realmente, uma religião, e a mais feroz, implacável e irracional religião que jamais existiu, porque não conhece nem redenção nem trégua. Ela celebra um culto ininterrupto cuja liturgia é o trabalho e cujo objeto é o dinheiro. Deus não morreu, ele se tornou Dinheiro. O Banco – com os seus cinzentos funcionários e especialistas – assumiu o lugar da Igreja e dos seus padres e, governando o crédito (até mesmo o crédito dos Estados, que docilmente abdicaram de sua soberania), manipula e gere a fé – a escassa, incerta confiança – que o nosso tempo ainda traz consigo. Além disso, o facto de o capitalismo ser hoje uma religião, nada o mostra melhor do que o título de um grande jornal nacional (italiano) de alguns dias atrás: “salvar o euro a qualquer preço”. Isso mesmo, “salvar” é um termo religioso, mas o que significa “a qualquer preço”? Até ao preço de “sacrificar” vidas humanas? Só numa perspectiva religiosa (ou melhor, pseudo-religiosa) podem ser feitas afirmações tão evidentemente absurdas e desumanas.

Giorgio Agamben [Entrevista]

domingo, 3 de fevereiro de 2019

Bernardo aos cinco anos - Attilio Bertolucci

Bernardo aos cinco anos 

A dor está no teu tímido olhar
Na mão infantil que saúda tímida,
A dor dos dias que virão
Já pesa na tua frágil ossatura.

Num dia de outono que deslisa
Quieto os seus fios de névoa no sol
O jogo acabou de repente,
Deixou-te só onde o caminho acaba.  

Maravilhado por tantas folhas no chão
Numa noite, que a todos aqui
Um pensamento surgiu na mente
Da estação que se aproxima rápida.

Saudaste com um leve aceno
E um sorriso cúmplice, permaneceu
Sombra na sombra um estante, agora corres
A refugiares-te na nossa ansiedade.



Bernardo a cinque anni
Il dolore è nel tuo occhio timido
Nella mano infantile che saluta senza grazia,
Il dolore dei giorni che verranno
Già pesa sulla tua ossatura fragile.

In un giorno d’autunno che dipana
Quieto i suoi fili de nebbia nel sole
Il gioco s’è fermato all’improviso,
Ti ha lasciato solo dove la strada finisce

Splendida per tante foglie a terra
In una notte, sì che a tutti qui
È venuto un pensiero nella mente
Della stagione che s’accosta rapida.

Tu hai salutato con un cenno debole
E un sorriso patito, sei rimasto
Ombra nell’ombra un attimo, ora corri
A rifugiarti nella nostra ansia.
 Attilio Bertolucci

sábado, 2 de fevereiro de 2019

NÃO - Salvador Amor

"Desapareça a filosofia do saque
e a filosofia da guerra desaparecerá."
Fidel Castro

NÃO

Não quererás negar a raiz
não quererás deixar de respirar
não quererás deixar de decidir
e que acabe a tua curiosidade
e que te façam desaparecer
porque não interessa a tua verdade.

Não quererás que este silêncio
nos condene a mil anos na escuridão
tendo dividido o coração
adiando o sonho e o amor
sentindo a engrenagem num relógio
que nos conta o tempo e a razão
e que um dia marque o nosso fim
uma agulha contra toda a lei.

Não quererás provar o fio do ódio e o desatino
o complexo do poder.

Não teremos nem manhã nem depois
sobreviver é a nossa realidade
se unirmos nossos passos e a dor
e gritarmos contra toda a impunidade
dos que nos tiram tanta humanidade
a pau e míssil
se não fizermos soar a nossa voz
é possível que vivamos submetidos, confrontados, divididos, esquecidos
pela eternidade.

Salvador Amor
Canção. “Rojo Cancionero”


«Cantemos como quien respira. Porque eso es la libertad, porque es decir que somos quienes somos, porque eso es el amor: respirar o cantar. Porque ambas cosas son la misma: Poesía»
(Gabriel Celaya)


 “No querrás negarte la raíz / no querrás dejar de respirar / no querrás dejar de decidir / y que acaben tu curiosidad / y que te hagan desaparecer / porque no interesa tu verdad / No querrás que éste silencio / nos condene a mil años en la oscuridad / tener dividido el corazón / postergando el sueño y el amor / sentirte engranaje en un reloj / que nos cuente el tiempo y la razón / y que un día marque nuestro fin / una aguja contra toda ley / No querrás probar el filo del odio y el desatino / el complejo del poder / No tendremos ni mañana ni después / el sobrevivir es nuestra realidad / si unimos nuestros pasos y el dolor / y gritamos contra toda impunidad / de quienes nos quitan tanta humanidad / a fuerza de palo y de misil / si no hacemos sola nuestra voz / es posible que vivamos sometidos,/ enfrentados, divididos, olvidados / toda nuestra eternidad”.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Ignição - António Osório


Ignição

Meus versos, desejo-vos na rua,

nas padiolas, pelo chão, encardidos

como quem ganha com eles a vida,

e o papel vá escurecendo ao sol,

a chuva o manche, a capa

ganhe dedadas, a companhia

aderente de um insecto,

as palavras se humildem mais

e chegue a sua vez de comoverem alguém

que compre, um faminto ajudando.


Meus versos, desejo-vos nas bibliotecas

itinerantes, gostaríeis de viajar

por aldeias, praias, escolas primárias,

despertar o rápido olhar das crianças,

estar nas suas mãos

completamente indefeso

e, sobretudo, que não vos compreendam.

Oxalá escrevam, risquem, atirem no recreio

umas às outras como pélas os livros

e sonhem, se possível, com algum verso

que súbito se esgueire pela sua alma