sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

PASTELARIA - Mário Cesariny de Vasconcelos

PASTELARIA


Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura

Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício

Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola

Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come

Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra


de “Nobilíssima Visão” (1045-1946) em “Burlescas, Teóricas e Sentimentais”, Editorial Presença, Lisboa, Julho de 1972.



quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

CAMARDAS EXEMPLARES - José Vultos Sequeira



 CAMARADAS EXEMPLARES
É noite, é escuro, ouves  o latir do coração do mundo....
Ouves o respirar do caudal do rio humano nos corredores do tempo...
Ouves e ouves e olhas as cintilações, nomes que se formam no ar, nomes que não se apagaram: nos iluminam - Álvaro Cunhal, Mário Castrim, Francisco Miguel
Lentamente sílabas esses nomes, esses nomes lanternas, lâmpadas, esses nomes faróis...
E vê-los tão nitidamente!
Eles são os camaradas exemplares. 
Tão presentes nas nossas opções, nas nossas consciência,  na nossa militância,...
Porque pertencem ao número das pessoas que o tempo torna cada vez mais vivas, cada vez mais nítidas.
Por isso, com eles ao nosso lado, pedimos à vida força e coragem, para continuarmos a lutar.
E vemo-los a sorrir.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Pelo sonho é que vamos - Sebastião da Gama

Pelo sonho é que vamos


Pelo sonho é que vamos,
comovidos e mudos.

Chegamos? Não chegamos?

Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.
Basta a fé no que temos,
basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria
ao que desconhecemos
e ao que é do dia-a-dia.

Chegamos? Não chegamos?

─ Partimos. Vamos. Somos.

Sebastião da Gama
Pelo sonho é que vamos
Lisboa, Ed. Ática, 1992



terça-feira, 14 de janeiro de 2020

DOPOSTORIA - Andres Kischner



DOPOSTORIA

(sinfonia da infâmia)

Indefesos e frágeis, sabemos
que o único feito que nos torna invencíveis
é estarmos disponíveis |
Inés Manzano
Não foram necessárias botas nem paus...
A infâmia aprendeu a abrir caminho
com uma arma mais subtil e legal:
o marketing /  o monopólio do que se disse
e se deve acreditar. Os votos amarelos
junto ao colaboracionismo branco-amarelo
a consagraram.
O mal sabe disfarçar-se, estar em dia com a moda
(Se corta o bigode, conserva a barba rija).
A ideologia da não-ideologia.
O benefício de uns poucos
à custa da fome de muitos
foi eleito por uma mínima maioria
para o bem de outra rançosa
e persistente minoria.

Ganhaste Mordisquito | tiveste o teu 22 de novembro |*
Ganhaste, mas há que dizê-lo: perdeste.
(Ganharam-te).
Entristece a tua alegria
Tanto como rebenta a alegria dos acachapados.
Dos confabuladores. A alegria conservadora
que está ao lado / direito
da alegria de todos.
Talvez no entanto não seja tempo
de considerar os nossos erros.
Nem, ao menos, desde a língua da tristeza.
(Isso fica para depois)
Tampouco conformar-se


no calor dos fogos cruzados.
A tristeza tem outra temperatura...
que terá que ser temperada
recuperar lentamente,
laboriosamente, a alegria.
Um trabalho de resistência.

De fé neste povo
que tem alma de cigarra.
Porque assim como sabe enterrar-se,
sabe também reinventar-se
e recupere a Memória.
Ainda que, entretanto, custe sonhos
e custo – imperdoavelmente, vidas também.
A democracia pode estar em festa,
é certo... mas a Pátria
chora hoje - estes velhos
lutos.

Andres Kischner

*22 de novembro refere as eleições presidenciais de 2015 na Argentina, e “Mordisquito” [Dentadinha] diminutivo da personagem criada pelo poeta Enrique Santos Discépolo.


DOPOSTORIA
un poema de Andrés Kischner
 (sinfonía de la infamia)


Indefensos y frágiles sabemos
que el único suceso que nos torna invencibles
es tenernos a mano | Inés Manzano
No hicieron falta botas, ni palos…
La infamia aprendió a abrirse paso
con un arma más sutil y legal:
el marketing / el monopolio de lo que se dice
y debe creerse. Los votos amarillos
junto al colaboracionismo blancoamarillo
la consagraron.
El mal sabe disfrazarse, agiornarse a la moda
(si se afeita el bigote, conserva su dura Barba).
La ideología de la no ideología.
El beneficio de unos pocos
a costa del hambre de muchos
fue elegido por una mínima mayoría
para bien de otra rancia
y persistente minoría.
Ganaste Mordisquito |tuviste tu 22 de noviembre|.
Ganaste, pero hay que decirlo: perdiste.
(Te ganaron).
Entristece tu alegría.
Tanto como revienta la alegría de los agazapados.
De los confabuladores. La alegría conservadora

que está al costado / derecho
de la alegría de todos.
Quizás no sea tiempo todavía
de considerar nuestros errores.
No, al menos, desde la lengua de la tristeza.
(Eso queda para las ranas frías).
Tampoco de conformarse
al calor de los fuegos cruzados.
La tristeza tiene otra temperatura…
que habrá que templar
para recuperar lentamente,
trabajosamente, la alegría.
Un trabajo de resistencia.
De Fe en este pueblo
que tiene alma de cigarra.
Porque así como sabe enterrarse,
sabe también reinventarse
y recuperar la Memoria.
Aunque este mientras tanto cueste sueños
y cueste -imperdonablementetambién
vidas.
La democracia puede estar de fiesta,
es cierto… pero la Patria
llora hoy -en esteviejos
lutos.

Andres Kischner
 (Buenos Aires, 1978). Es profesor de filosofía y se encuentra compilando la obra de Enrique Santos Discépolo. Publicó los poemarios Cuaderno violeta (2015) y Cuaderno naranja (2016). Integra la antología Los sobrinos bastardos de Arlt (2015). Administra el blog | A las cinco en punto de la tarde