sábado, 5 de setembro de 2020

Ellen Oléria - O Haiti









O Haiti



 

Quem viu disse que não se emocionou, mentiu
Tentou mudar de assunto e não conseguiu
Entrou no quarto, lembrou, chorou e pediu pro céu
Pra não ver mais corpo civil

Pro povo que pisa descalço
Naquilo que um dia já foi um asfalto
Pro povo que dorme apertado
Mesmo sem ter nada acorda com medo do assalto
De noite tem medo de estupro e assassinato
Um caos que dura séculos na ilha do descaso

Além do efeito dos tremores da terra
O efeito de anos e anos de guerra
Desespero de quem nunca viu vida liberta
Será que é esse o fim da sua Nova Era, não?

Essa gente que também erra e a gente supera
Também é minha aquela pele preta
Também é minha aquela lágrima que cai na sarjeta
Aguenta
Há em ti, há em mim
Firmeza

Hai Hai Hai Hai Hai Hai Hai
Hai Hai Haiti
Hai Hai Hai Hai Hai Hai Hai
Hai Hai Hai Haiti

Cinco dias debaixo do chão, fome e medo
Mas o segredo da sobrevivência vem desde o berço
Quem tem esperança, espera
Mais uma fénix renasce da cratera

Permanece vivo na ilha de São Domingos
Num sorriso de suas meninas e meninos
Permanece vivo na ilha de São Domingos
Num sorriso de suas meninas e meninos

Quem viu disse que não se emocionou, mentiu
Tentou mudar de assunto e não conseguiu
Entrou no quarto, lembrou, chorou e pediu pro céu
Pra não ver mais corpo civil

Hai Hai Hai Hai Hai Hai Hai
Hai Hai Haiti
Hai Hai Hai Hai Hai Hai Hai
Hai Hai Hai Haiti

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Europa Acidental - Joaquim Pessoa


 

Europa Acidental

 

Europa acidental
Aqui nem, mal nem bem
Aqui nem bem nem mal.

Aqui se alguém não é ninguém
É porque a gente nasce
De um modo ocidental:
Vivem uns bem e outros mal.

E afinal
É natural (naturalmente)
Que haja gente também
Gente que é gente de bem
E gente que é apenas gente.

Europa acidental.

O mal
É Ter na nossa frente
Um mar de sal.
Um mar de gente
Que de repente
(é assim mesmo: de repente)
fica vazio e sem ninguém
se um dia alguém
por mal ou bem
quiser ser gente.

 

Joaquim Pessoa


 

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

CÓDIGO - Joaquim Namorado


 

CÓDIGO

 

Artigo primeiro e único:

é proibido ser burro.

 

Parágrafo primeiro e único:

está revogada toda a legislação em contrário.

 

Joaquim Namorado

 

terça-feira, 1 de setembro de 2020

A mais curiosa das criaturas - Nâzim Hikmet


A mais curiosa das criaturas


Como o escorpião, meu irmão,

Tu és como o escorpião
Numa noite de medo.
Como o pardal, meu irmão
Tu és como o pardal
No seu miúdo desassossego.
És como o mexilhão, meu irmão
Tu és como o mexilhão
Fechado e tranquilo.
Tu és terrível meu irmão
Como a boca
De um extinto vulcão.
E tu, ai de mim, não és um,
Não és cinco,
Tu és milhões.
Tu és como a ovelha, meu irmão.
Quando o carrasco vestido da tua pele
Quando ele levanta a sua vara
Apressas-te a alcançar o rebanho
E vais para o matadouro a correr,
Quase orgulhoso.
Em suma, és a mais curiosa das criaturas
Mais curiosa que o peixe
Que vive no mar ignorando o mar.
E se há tanta miséria na terra
É graças a ti meu irmão.
Se somos famintos, esgotados,
Se somos esfolados até ao sangue,
Espremidos como uvas para o nosso vinho
Iria até ao ponto de dizer que é culpa tua,
Mas não,
Isso nada tem a ver contigo meu irmão.



Nâzim Hikmet