quinta-feira, 5 de novembro de 2020

A cidade habitável - Natalia Carrizo

A cidade habitável

 

Resista. Exista. Encontre entre os seus afetos a cidade habitável.

Organize a solidariedade. Cuide dos seus, teça redes.

Compartilhe o prato de comida quando falta.

Prolongue o seu abraço. Deixe-se abraçar e peça-o quando necessitar.

Querem-no prostrado. Querem-no assumindo-se impossível. Querem-no morto por dentro e escravo.

Grite quando necessitar. Murmurar faz mal à alma e aos dentes.

Renuncie à resignação. Anuncie a exasperação. Contagie.

Caminhe um pouco mais, mas volte sempre.

Todos merecem o suor dos trapos que não lava.

É uma questão de justiça.

Não pratique a empatia com os filhos da puta,

pode tornar-se num deles.

À estética, ética.

Evite a anestesia geral.

Divirta-se, mas não se entretenha.

Ria como uma espada. Sonhe como um escudo.

Pratique a memória do futuro, tornando-se presente.

À sobrevivência, vivência. Avive a chama.

Não se acostume.

Não se acostume.

Não se acostume.

Exista na identidade.

Resista à autoridade.

Encontre entre os seus afetos a cidade habitável.

 

Natalia Carrizo

 

 

terça-feira, 3 de novembro de 2020

Strange Fruit, Billie Holiday - Abel Meeropol

“Strange Fruit”

Estranho Fruto

 

Southern trees bear strange fruit,
As árvores do Sul estão carregadas com um estranho fruto
Blood on the leaves and blood at the root,
Sangue nas folhas e sangue na raiz,
Black body swinging in the Southern breeze,
Um corpo negro balançando na brisa sulista
Strange fruit hanging from the poplar trees.
Um estranho fruto pendurado nos álamos.

 

Pastoral scene of the gallant South,
Uma cena pastoral no galante Sul,
The bulging eyes and the twisted mouth,
Os olhos esbugalhados e a boca torcida,
Scent of magnolia sweet and fresh,
Perfume de magnólia doce e fresca,
Then the sudden smell of burning flesh!
Então o repentino cheiro de carne queimada!

 

Here is fruit for the crows to pluck,
Aqui está o fruto para os corvos arrancarem,
For the rain to gather, for the wind to suck,
Para a chuva recolher, para o vento sugar,
For the sun to rot, for the trees to drop,
Para o sol apodrecer, para as árvores fazer cair,
Here is a strange and bitter crop.
Aqui está uma estranha e amarga colheita.

 

Abel Meeropol

 

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

O CANTO DO CISNE - António Osório

O CANTO DO CISNE

 

Nunca o ouvi.
Que seja inextinguível.
Ou então silencioso
por pudor e tremendo
de raiva.
E que dure o bastante
para que nada fique por cantar.

 

António Osório

domingo, 1 de novembro de 2020

ABRIL DE NOVO - Comício na Moita

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ABRIL DE NOVO

 

Aos olhos de um homem são

vem Abril e subsiste o dilema:

se é o travo amargo da desilusão

ou o cravo que ponho no poema.

 

Persista a constância de lutar

e a flor que for terá a cor precisa

de um cravo vermelho a ondular

na mão mais limpa e mais concisa.

 

A seu lado um filho pela mão,

que é tudo quanto ao futuro doa,

um filho, que é fruto do coração,

 

e que aos poucos cuida e afeiçoa

como semente de nova floração,

esse, que é o cravo puro em pessoa.

 

João de Sousa Teixeira