terça-feira, 14 de março de 2023

Que força é essa? - Sérgio Godinho

 

Que Força É Essa

Vi-te a trabalhar o dia inteiro
Construir as cidades pr'ós outros
Carregar pedras, desperdiçar
Muita força p'ra pouco dinheiro
Vi-te a trabalhar o dia inteiro
Muita força p'ra pouco dinheiro

Que força é essa? Que força é essa?
Que trazes nos braços?
Que só te serve para obedecer?
Que só te manda obedecer?
Que força é essa? Amigo
Que força é essa? Amigo

Que te põe de bem com outros
E de mal contigo?
Que força é essa? Amigo
Que força é essa? Amigo
Que força é essa? Amigo

 

Não me digas que não me compr'endes
Quando os dias se tornam azedos
Não me digas que nunca sentiste
Uma força a crescer-te nos dedos
E uma raiva a nascer-te nos dentes
Não me digas que não me compr'endes

Que força é essa? Que força é essa?
Que trazes nos braços?
Que só te serve para obedecer?
Que só te manda obedecer?
Que força é essa? Amigo
Que força é essa? Amigo

Que te põe de bem com outros
E de mal contigo?
Que força é essa? Amigo
Que força é essa? Amigo
Que força é essa? Amigo

Vi-te a trabalhar o dia inteiro
Construir as cidades pr'ós outros
Carregar pedras, desperdiçar
Muita força p'ra pouco dinheiro
Vi-te a trabalhar o dia inteiro
Muita força p'ra pouco dinheiro

Que força é essa? Que força é essa?
Que trazes nos braços?
Que só te serve para obedecer?
Que só te manda obedecer?
Que força é essa? Amigo
Que força é essa? Amigo

Que te põe de bem com outros
E de mal contigo?
Que força é essa? Amigo
Que força é essa? Amigo
Que força é essa? Amigo
Que força é essa? Amigo

 

Que força é essa? Amigo
Que força é essa? Amigo
Que força é essa? Amigo
Que força é essa? Amigo

 

Sérgio Godinho


segunda-feira, 13 de março de 2023

HIROXIMA - Adão Cruz

 

HIROXIMA

 

Nos limites da razão

onde os homens produzem monstros

todos nos sentimos escombros

do maior terrorismo da História

humana.

Nasceu a manhã mais cruel da mais

inocente madrugada

a manhã mais negra do que a noite

do absurdo.

O inferno rasgou o sol e a lua

os rostos e os braços

arrancou as árvores

secou os rios e as fontes

enchendo a cidade de sangue e

corpos em pedaços.

Um mar de gente ... no corpo nu da

solidão

gente só... no ventre da multidão

olhos vidrados de lágrimas e pânico

correndo... fugindo...

para onde... para o nada...

para o abismo da escuridão

sobre restos de sonhos e pedaços de

vida

espalhados pelo chão

onde a dor fincou as garras

abafando os gritos em catedrais de

cinzas.

O fim de tudo entrou pelas portas e

janelas

e comeu tudo...

comeu as casas que caíram

as mãos que deixaram de brincar

comeu os olhos que deixaram de

olhar

e as bocas que deixaram de respirar.

Tudo era dentro e tudo era fora

na amplidão do desespero

não havia mães nem filhos nas

entranhas da aflição

não havia rumo nem caminho

no deserto infindo da maldição.

Tudo se fez pó

não ficou pedra sobre pedra

e nem pedras havia no chão

já o chão não era chão

mas o fundo abismo de uma cratera

onde tudo era estendal de morte

sem porta de entrada sem porta de

saída

sem tempo sem norte sem vida

sem ruas sem movimento

sem fímbria de céu ou de mar.

O nada entrou no coração

que deixou de bater no peito de

muitos mil

ao peso de cinquenta quilos de

urânio

e toneladas de glória americana

erguendo até ao cume da barbárie

a bandeira mais cruel da natureza

humana.

Uma fria luz de prata atravessou o

mundo

perfurou a mente e as ideias

em seco lamento de gemido sem

remédio

como latido de cão atirado ao vento.

E o mundo dormiu suavemente...

e ainda hoje não acordou.

Entre milhares de bombas e

estrondosos hinos

o mundo de olhos cegos e ouvidos

moucos

ainda dorme...

nada mais ouvindo que o silêncio dos

assassinos.

 

Adão Cruz

 


terça-feira, 7 de março de 2023

Mulher - Ary dos Santos

 

Mulher,

                                                  de Ary dos Santos

«A mulher não é só casa
mulher-loiça, mulher-cama
ela é também mulher-asa,
mulher-força, mulher-chama

  E é preciso dizer
dessa antiga condição
a mulher soube trazer
a cabeça e o coração

 Trouxe a fábrica ao seu lar
e ordenado à cozinha
e impôs a trabalhar
a razão que sempre tinha

  Trabalho não só de parto
mas também de construção
para um filho crescer farto
para um filho crescer são

  A posse vai-se acabar
no tempo da liberdade
o que importa é saber estar
juntos em pé de igualdade

  Desde que as coisas se tornem
naquilo que a gente quer
é igual dizer meu homem
ou dizer minha mulher»

 Ary dos Santo

domingo, 5 de março de 2023

Não gosto dos velhacos - ANDRÉI DEMENTIÉV

 

Não gosto dos velhacos 

 

Não gosto dos velhacos.

Não sei dissimular.

Um tolo com elogios

não posso presentear.

 

Não me sei calar

quando ferve o coração.

Ofensas amargas

não troco por proveito.

 

Pode-se partir em duas

uma fatia de pão.

A metade da alma

não dou a ninguém.

 

Darmas tudo,

até ao fim, sem deixar nada.

Porque, tal como a vida,

a alma é indivisa.

 

Não gosto de velhacos.

Não sei dissimular.

O que penso de alguém

é para declarar.

 

Tudo posso repetir,

olhando bem de frente.

Mesmo que nem sempre

se trate de amigos

 

Eu não tenho proteção contra a boçalidade.

E desta vez ela é mais forte.

Sinos cristalinos se quebraram –

apelos meus de bondade.

 

se ouve como na alma brinca

a tristeza do velho violino.

E a palavra escolhe para o lugar,

que os olvidos foram inesperados.

 

Eu não tenho proteção contra a boçalidade.

É pecado estar indefeso?

E de novo nas ondas do meu desgosto

o riso se engasgou.

 

Bem, mas a boçalidade de vez em quando esfrega as mãos.

Tudo entretanto lhe pega na mão.

Quantos mundos com isso perdeu!

nos unia a falta de tempo.

 

Eu não tenho proteção contra a boçalidade.

Que pena, que na minha alma

os sinos cristalinos se quebrassem.

Mas eu guardo-os para outras pessoas.

 

ANDRÉI DEMENTIÉV

(tradução diretamente do russo por Manuel de Seabra – Vértice Março/Abril, 1979)

quinta-feira, 2 de março de 2023

domingo, 19 de fevereiro de 2023

É preciso avisar... - João Apolinário

 

É preciso avisar...

 

É preciso avisar toda a gente
dar notícia informar prevenir
que por cada flor estrangulada
há milhões de sementes a florir



É preciso avisar toda a gente
segredar a palavra e a senha
engrossando a verdade corrente
duma força que nada detenha



É preciso avisar toda a gente
que há fogo no meio da floresta
e que os mortos apontam em frente
o caminho da esperança que resta



É preciso avisar toda a gente
transmitindo este morse de dores
É preciso imperioso e urgente
mais flores mais flores mais flores

 

João Apolinário

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023

Lavoisier - Carlos de Oliveira

 

Carlos de Oliveira

(1921-1981)

 

Lavoisier

 

Na poesia,

natureza variável

das palavras,

nada se perde

ou cria,

tudo se transforma:

cada poema,

no seu perfil

incerto

e caligráfico,

já sonha

outra forma.

 

Carlos de Oliveira

Em: “Sobre o lado esquerdo” (1968)

 

 

domingo, 12 de fevereiro de 2023

SIMPLES VERDADES - Carlos Aboim Inglez

 

SIMPLES VERDADES

 

Num chão de areia

não se semeia

mas se a semente

com sede ardente

beber suor

há-de dar flor

 

A seiva sobe

pelo tronco e sabe

desde a raiz

que o sol fulgura

na flor futura

do meu pais

 

Num bago de uva

há sol e chuva

e o mundo é tal

que o mesmo sal

na gota de água

é riso ou mágoa

 

Detrás das grades

não choro penas

e digo apenas

simples verdades

 

Carlos Aboim Inglez

in "Soma Pouca"

 

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

divagares - José Vultos Sequeira

 

divagares

e às vezes as mãos doíam-nos  mas amávamos

o que construíamos  e dávamo-lo ao devir

dos dias

 

dávamo-nos  o mundo era inteiro  era

o nosso rosto que víamos

e desenhávamos o caminho livre dos filhos

 

laranja amaciada pela ternura dos dedos

mesa medida pela fome que sentíamos

tudo era à medida humana

até a noite era um berço

que construíamos

como um ninho

 

e o tempo era limpo  alvoroçado

cantava  era sempre Abril

e Maio era grávido

 

era um país com olhos de menino

 

José Vultos Sequeira

Em Homem da Fábrica (Editorial Utopia)