sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

Se eu morrer - Refaat Alareer / dito por Brian Cox

 

Brian Cox lê IF I MUST DIE, o último poema de Refaat Alareer, morto por um ataque aéreo israelita

Se eu morrer

Se eu morrer,
você tem que viver
para contar a
minha história
para vender as minhas coisas
para comprar algum papel
e alguns fios,
para fazer uma pipa
(que seja branca com um longa cauda)
para que uma criança,
em algum lugar de Gaza,
olhando o céu
nos olhos
esperando por seu pai que
se foi numa chama
sem se despedir de ninguém
nem mesmo de sua própria carne
nem mesmo de si mesmo
veja a pipa, a minha
pipa que você fez,
voar lá no alto
e pense por um momento
que um anjo esteja ali
para trazer de volta o amor.
Se eu morrer,
faça com que eu traga esperança
faça com que eu seja uma história!

Refaat Alareer

quarta-feira, 13 de dezembro de 2023

CHAMADA DA TUMBA - Mahmud Darwich

CHAMADA DA TUMBA

 

Em memória do massacre de Kafr Kassem [29 de outubro 1956]

 

I

 

Minha morte aconteceu há oito anos

Tenho a mesma idade de meu pai

Chamamos a todos os viventes

A todos os que querem viver por muito tempo

Sobre a terra

Não debaixo dela

A todos os que querem

Que o trigo madure em seu campo

Semear e colher

Que a massa fermente em seus lares

Fazer o pão e comê-lo

Nós lhes pedimos: não durmam

Se querem viver por muito tempo

Sobre a terra

Não debaixo dela

Montem guarda... aqui o sol é de barro e miséria

Nossa idade se conta em anos de morte

Minha morte aconteceu há oito anos

Tenho a mesma idade de meu pai

 

II

 

Dizemos-lhes

Não queremos sobre nossas tumbas

Nem água nem flores

Nada está vivo aqui

Apenas os casulos de víbora e os vermes

Dizemos-lhes

Não queremos roupas de luto

Não há na tumba outra cor

Que a preta

Dizemos-lhes

Não queremos canções tristes

Intermináveis

Dormimos aqui

E nosso retorno é impossível

Dizemos-lhes

Cantem pela terra que permanece

Rebelem-se

Ensinem nossa história sombria

Aos filhos

A fim de que nosso sangue

Permaneça na bandeira dos criminosos

Como sinal de catástrofe

Pedimos-lhes

Protejam os fracos das balas

Para que os que vivam fiquem salvos

E os que nascerão no futuro

Ainda goteja a fonte do crime

Obstruam-na

E permaneçam vigilantes

Prontos para o combate

Mahmud Darwich

terça-feira, 12 de dezembro de 2023

Conquista - Miguel Torga

Conquista

Livre não sou, que nem a própria vida
Mo consente.
Mas a minha aguerrida
Teimosia
É quebrar dia a dia
Um grilhão da corrente.

Livre não sou, mas quero a liberdade.
Trago-a dentro de mim como um destino.
E vão lá desdizer o sonho do menino
Que se afogou e flutua
Entre nenúfares de serenidade
Depois de ter a lua!

Miguel Torga

in 'Cântico do Homem'

 

segunda-feira, 11 de dezembro de 2023

Não chores por mim Argentina

Não Chores Por Mim Argentina

 

Será difícil de compreender
Que apesar de estar hoje aqui
Eu sou povo, jamais poderei me esquecer

Peço me creiam
Que os meus luxos apenas disfarçam
Mais nada que um jogo burguês
São regras do cerimonial

Eu tinha que aceitar, então mudar
E deixar de viver sem ilusão
Sempre atrás da janela
Sempre atrás do portão

Busquei ser livre, mas eu jamais deixarei de sonhar
Que um dia eu irei merecer
O amor que sentem por mim

Não chores por mim Argentina
Minha alma está contigo
A vida inteira eu te dedico
Mas não me deixes, fica comigo

Jamais o poder ambicionei, mentiras falaram de mim
Meu lugar é do povo a quem sempre eu amei
E eu só desejo sentir bem de perto o seu coração
Batendo por mim com fervor
Que nunca me vou esquecer

Não chores por mim Argentina

Don't cry for me Argentina
The truth is I never left you
All through my wild days, my mad existence
Don't kept your promise, don't keep your distance

Eu falei demais
Mas foi só pra convencê-los desta verdade
Se ainda querem duvidar, é só pra dentro de mim
Meu olhar...

 

Compositores: Andrew Lloyd Webber / Victor Berbara / Tin Rice


 

quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

Europa - Filipa Leal

 

Europa

Apontas para o rosto sarcástico do sol de Inverno

E disparas. Há tantos meses que não chove – reparaste?

É o próprio céu a desistir de ti. E mesmo assim tu disparas, só sabes disparar.

Estás enganada, Europa. Envelheceste mal e perdeste a humildade.

Não é contra o sarcasmo que disparas, não é contra o Inverno,

Nem sequer contra o insólito, contra o desespero.

Tu disparas contra a luz.

Podes atirar-nos tudo à cara, Europa: bombas, palavras, relatórios de contas.

Podes até atirar-nos à cara um deputado, uma cimeira.

Mas os teus filhos não querem gravatas. Os teus filhos querem paz.

Os teus filhos não querem que lhes dês a sopa. Os teus filhos querem trabalhar.

Há tantos meses que não chove – reparaste?

A terra está seca. Nem abraçados à terra conseguimos dormir.

Enquanto te escrevo, tu continuas a fazer contas, Europa.

Quem deve. Quem empresta. Quem paga.

 

Mas os teus filhos têm fome, têm sono. Os teus filhos têm medo do escuro.

Os teus filhos precisam que lhes cantes uma canção, que os vás adormecer.

Eu acreditei em ti e tu roubaste-me o futuro e o dos meus irmãos.

Se estamos calados, Europa, é apenas porque, contrários ao teu gesto,

Nós não queremos disparar.

Filipa Leal

in Vem à Quinta-feira (2016: 46)

 

domingo, 3 de dezembro de 2023

VAMOS TOMAR A TELEVISÃO - António Pedro

VAMOS TOMAR A TELEVISÃO

Deixarei versos
livros
crónicas
canções
não sou mais do que os outros
sou um homem do pensamento
da mulher
da revolta
da liberdade
os dias ultimamente parecem iguais
mas não são
a mente cavalga
pressente o caos
mesmo que só me desloque à farmácia
ou à mercearia
os guerrilheiros estão à porta
vamos tomar a aldeia
vamos tomar a televisão.

António Pedro