sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

QUEM SEGURA ESSE ROJÃO? - ULISSES TAVARES

QUEM SEGURA ESSE ROJÃO?

(Para Santiago Andrade e para o que resta de esperança)

Sabia-se e sentia-se
Que o rojão cairia
Na cabeça dos inocentes
Mais dia menos dia.
O rojão da impunidade,
Da corrupção,
Do desgoverno,
Das omissas autoridades.
E caiu em um cinegrafista,
Olho livre da sociedade.
A gota d’água
Em nosso pote
Já tão cheio de revolta e mágoa.
Quem não é bandido
Chora,
Só a bandidagem comemora.
Paz, antes que seja tarde demais.
Vem mais rojão por aí, a mil,
Acesso pelo lado podre do Brasil
Quem segura essa gente ruim
Essa tralha?
Justiça porque tarda e falha?
Quem somos, de onde viemos, para onde vamos?
Somos o povo brasileiro,
Aquele que é capaz de comemorar
As vitórias todos juntos.
Mas, na hora da derrota,
Viramos defuntos.
Zumbis vorazes e arteiros
Da máxima: farinha pouca
Meu pirão primeiro.
Viemos de séculos
De sangue, lutas e sacanagens:
Meia dúzia de sacanas
Espertos e milhões de sacaneados.
Até agradecemos ao feno ofertado,
Melhor que chicotadas,
Ponham mais impostos e corrupção
Na carroça,
Perto do que já passamos
Isso não é nada.
Vamos para o outro tempo
Onde o pacífico burro
Reclama e dá o coice.
Aquela foice pasmaceira foi-se.
Talvez, essa esperança,
Deixemos de ser pirralho.
Sai da frente, paspalho,
Finalmente crescemos,
Caralho!



quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

A Canalha - Jorge de Sena


A Canalha

Como esta gente odeia, como espuma
por entre os dentes podres a sua baba
de tudo sujo nem sequer prazer!
Como se querem reles e mesquinhos,
piolhosos, fétidos e promíscuos
na sarna vergonhosa e pustulenta!
Como se rabialçam de importantes,
fingindo-se de vítimas, vestais,
piedosas prostitutas delicadas!
Como se querem torpes e venais
palhaços pagos da miséria rasca
de seus cafés, popós e brilhantinas!
Há que esmagar a DDT, penicilina
e pau pelos costados tal canalha
de coxos, vesgos, e ladrões e pulhas,
tratá-los como lixo de oito séculos
de um povo que merece melhor gente
para salvá-lo de si mesmo e de outrem.







quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

A Aurora Dissolve os Monstros - Paul Éluard


A Aurora Dissolve os Monstros

Ignoravam
que a beleza do homem é maior do que o homem

Viviam para pensar pensavam para se calarem
Viviam para morrer eram inúteis
Ocultavam a sua inocência na morte

Tinham posto em ordem
sob o nome de riqueza
sua miséria sua bem-amada

Mastigavam flores e sorrisos
Só encontravam um coração na ponta das carabinas

Não percebiam a injúria dos pobres
Dos pobres amanhã sem problemas

Sonhos sem sol tornavam-nos eternos
Mas para que a nuvem se transformasse em lama
Desciam deixavam de fazer frente ao céu

A noite do seu reino a sua morte a sua bela sombra miséria Miséria para os outros

Esqueceremos estes inimigos indiferentes
Em breve uma multidão
Repetirá baixinho a chama clara
A chama para nós dois unicamente paciência
Para nós dois em toda a parte o beijo dos vivos.

Tradução de António Ramos Rosa

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Mascarados - Cora Coralina

Mascarados

Saiu o Semeador a semear
Semeou o dia todo
e a noite o apanhou ainda
com as mãos cheias de sementes.
Ele semeava tranquilo
sem pensar na colheita
porque muito tinha colhido
do que outros semearam.
Jovem, seja você esse semeador
Semeia com otimismo
Semeia com idealismo
as sementes vivas
da Paz e da Justiça.