domingo, 27 de outubro de 2019

Volver a los 17 - Violeta Parra Sandoval


 
Volver a los 17

Volver a los diecisiete
Después de vivir un siglo
Es como descifrar signos
Sin ser sabio competente
Volver a ser de repente
Tan frágil como un segundo
Volver a sentir profundo
Como un niño frente a Dios
Eso es lo que siento yo
En este instante fecundo

Se va enredando, enredando
Como en el muro la hiedra
Y va brotando, brotando
Como el musguito en la piedra
Ay sí sí sí

Mi paso retrocedido
Cuando el de ustedes avanza
El arco de las alianzas
Ha penetrado en mi nido
Con todo su colorido
Se ha paseado por mis venas
Y hasta las duras cadenas
Con que nos ata el destino
Es como un diamante fino
Que alumbra mi alma serena

Lo que puede el sentimiento
No lo ha podido el saber
Ni el más claro proceder
Ni el más ancho pensamiento
Todo lo cambia el momento
Cual mago condescendiente
Nos aleja dulcemente
De rencores y violencias
Solo el amor con su ciencia
Nos vuelve tan inocentes

El amor es torbellino
De pureza original
Hasta el feroz animal
Susurra su dulce trino
Detiene a los peregrinos
Libera a los prisioneros
El amor con sus esmeros
Al viejo lo vuelve niño
Y al malo solo el cariño

Lo vuelve puro y sincero
De par en par en la ventana
Se abrió como por encanto
Entró el amor con su manto
Como una tibia mañana
Al son de su bella diana
Hizo brotar el jazmín
Volando cual serafín
Al cielo le puso aretes
Y mis años en diecisiete
Los convirtió el querubín


sábado, 26 de outubro de 2019

Um poema duas traduções - HANS MAGNUS ENZENSBERGER



RAJADA

há palavras
leves
como sementes de álamo

erguem-se
levadas pelo vento
e voltam a cair

difícil agarrá-las
porque se afastam muito
como sementes de álamo

há palavras
que mais tarde talvez
removerão a terra

que espalharão sombra
uma sombra delgada
ou talvez não

in Trocar de Rosa, idem)


ventogesto

algumas palavras
leves
como sementes de álamo

sobem
viradas pelo vento
mergulham

difíceis de aprender
levam longe
como sementes de álamo

algumas palavras
soltam a terra
talvez mais tarde

lancem uma sombra
uma sombra subtil
ou talvez não

HANS MAGNUS ENZENSBERGER
(tradução de Almeida Faria,
in Poemas Políticos,
publicações Dom Quixote, 1975) 


sexta-feira, 25 de outubro de 2019

Mil Escudos - João Luís Barreto Guimarães



Mil Escudos

                            6A23742907
                            Mil Escudos
                                  ch.12
         Lisboa, 6 de Fevereiro de 1992

podia jurar que já tive esta nota na
mão gostava mais das de cem (Bocage
sempre era poeta) um de nós nunca
esquecia bigodes e cicatrizes sobre 


o seu carão moreno assinando o curto
nome pelo banco de Portugal nomeando
nosso Bocage governador por uns dias.

 
a nota de mil amanhã será como a
tangerina (há tanto tempo na terrina
caiu na classe dos frutos secos).

 
vem aí outro dinheiro (aposto: vai
ser azul) guardo esta nota antiga na
caixa da ilusão esta nota é um país
em vias de extinção 
in 'Este Lado para Cima'

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Aquilo que eu não fiz - Tiago Bettencourt


 
Aquilo que eu não fiz

Eu não quero pagar,
Por aquilo que eu não fiz...
Não me fazem ver
Que a luta pelo meu país
eu não quero pagar
Depois de tudo o que dei
Não me fazem ver
Que fui eu que errei...
Não fui eu que gastei,
Mais do que era para mim.
Não fui eu que tirei,
Não fui eu que comi.
Não fui eu que comprei,
não fui eu que escondi
Quando estavam a olhar,
Não fui eu que fugi.
Não foi essa a razão
Para me quererem moldar
Porque eu não me escolhi,
Para a fila do pão.
Este barco afundou
Houve alguém que o cegou
Não fui eu que não vi!
Eu não quero pagar
Por aquilo que eu não fiz...
Não me fazem ver
Que a luta pelo meu país
Eu não quero pagar
Depois de tudo o que dei
Não me fazem ver
Que fui eu que errei...
Talvez do que não saiba,
Talvez do que não vi,
Foi de mão para mão,
Mas não passou por mim.
E perdeu-se a razão,
Todo o bom se feriu,
Foi mesquinha a canção
Desse amor a fingir,
Não me falem do fim,
Se o caminho é mentir.
Se quiseram entrar,
Não souberam sair.
Não fui quem falhou,
Não fui eu quem cegou
Já não sabem sair...
Eu não quero pagar,
Por aquilo que eu não fiz.
Não me fazem ver
Que a luta pelo meu país.
Eu não quero pagar,
Depois de tudo o que dei,
Não me fazem ver,
Que fui eu que errei!
Meu sonho é de armas e mar
Minha força é navegar
Meu norte em contra luz
Meu fado é vento que leva
E conduz...
E conduz...
E conduz...