quarta-feira, 26 de junho de 2013

FEIOS, PORCOS E MAUS

FEIOS, PORCOS E MAUS

Compram aos
catorze a primeira gravata
com as cores do partido que melhor os ilude.
Aos quinze fazem
por dar nas vistas no congresso
da
jota, seguem a caravana das bases, aclamam
ou apupam pelo cenho das chefias, experimentam
o bailinho das
federações de estudantes.
Sempre voluntariosos, a postos sempre,
para as tarefas de limpeza após combate.
São os chamados anos de formação. Aí aprendem
a
compor o gesto, a interpretar humores,
a
mentir honestamente, aí aprendem a leveza
das
palavras, a escolher o vinho, a espumar
de
sorriso nos dentes, o sim e o não
mais oportunos. Aos vinte já conhecem
pelo faro o carisma de uns, a menos valia
de
outros, enquanto prosseguem vagos estudos
de
Direito ou de Economia. Começam, depois
disso, a
fazer valer o cartão de sócio: estão à vista
os
primeiros cargos, há trabalho de sapa pela frente,
é
preciso minar, desminar, intrigar, reunir.
Só os piores conseguem ultrapassar esta fase.
Há então quem vá pelos municípios, quem prefira
os
organismos públicos — tudo depende do golpe
de
vista ou dos patrocínios que se tem ou não.
Aos trinta e
dois é bem o momento de começar
a
integrar as listas, de preferência em lugar
elegível, pondo sempre a baixeza em cima de tudo.
A partir do Parlamento, tudo pode acontecer:
director de
empresa municipal, coordenador de,
assessor de ministro, ministro, comissário ou
director-executivo,
embaixador na Provença,
presidente da Caixa, da PT, da PQP e, mais à frente
(
jubileu e corolário de solvente carreira),
o golden-share de uma
cadeira ao pôr-do-sol.
No
final, para os mais obstinados, pode haver
nome de rua (com ou sem estátua) e flores
de
panegírico, bombardas, fanfarras de formol.
JOSÉ MIGUEL SILVA
Movimentos no Escuro (2005)

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